Eu, a rapariga da cabine e Deus

As cabines públicas constituem uma elaboração urbana muito instigante. O seu lugar nas nossas cidades representa uma fortíssima dissolução das fronteiras que definem a esfera pública da existência. As cabines, por um lado, são públicas (boa Bruno!), e situam-se na rua, o emblemático espaço das gentes, paredes-meias com os transeuntes. Mas, por outro lado, quase tudo que nelas se passa, quase tudo que ali se diz e se ouve, é privado - registe-se a assinalável excepção de quem as usa à procura de quarto, "e a luz paga-se à parte?". Esta permeabilidade das cabines às nossas categorias de recato ficou-me sublime numa frase que apanhei solta quando ia passando ao pé de um desses pontos telefónicos: "Ainda não lhe disse. Não sei alguma vez o farei, não sei se ele gosta mesmo de mim". Quando me virei reconheci aquela voz de algum lado. Olhei, e soube-me então portador de um valioso segredo. Em determinadas circunstâncias a ocultação e o desconhecimento são parte fundamental da vida social. Mas o meu amigo, que há muito a esperava em devoto silêncio, deveria saber. Pouco tempo depois encetariam namoro.

Acho tristíssimo que haja "encontros" não-acontecidos por mal-entendidos. Mas partilhar a omnisciência com Deus ofertou-me a estranha vontade de não querer intervir na história, talvez para me ilibar de uma dispensável conivência com o porvir. Esse desconforto, percebi-o claramente quando, anos depois, acabaram tudo entre chorados adeuses.



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