Sense

Gostaria que me desses a tua face para beijar...
Sei como faria. Insistiria com meus lábios até que desistisse em mim a falência derradeira do sentido, e para rematar essa mais do que profetizada passagem sobre lajes polidas pelo nada, a que com toda a probabilidade chamarei de vida, executaria um beijo, que seria de despedida, se soçobrasse então alguma esperança.

Mas, ainda que disposto em consentir na piedade de um qualquer anjo, não mistificarei as palavras até à sua impossiblidade, carregando no costume de tecer silêncios entre linhas que não lês.

Para o indígena em que penso quando aperto os atacadores no meio da rua, sei que jaz sobre cada escrito da minha lavra a suspeita de um amor pairando algures, e que mesmo quando não desvelado numa penitenciosa cobardia, por sua arte singular vinga em encontrar refúgio num qualquer peito, quase sempre o meu.

Diz-me o indígena por sobre os sons da floresta mitigada pela ganância que ainda que navegasse para o armistício de um sentir, ainda que meneasse em leveza, um pecado falaria em mim, entregando-me a flagelações de memória e esquecimento.

Nunca desejei ser o cavaleiro ajoelhado no campo de batalha com uma seta atravessada no torso. Eu apenas gostaria dessa face para beijar, sem espanto desenhar a curva rósea dos meus lábios disputando o sabor da pele à esmaecência do calor, e era isto que gostaria de anunciar sem falar de amor. Mas não consigo.

O cavalgar do tempo no meu dorso, arreganha na sua pujança a miragem do não-querer. Após recompor os atacadores e convocar o caminho, volta a falar-me o indígena de sempre. Poderia visitá-lo com o desencanto revoltado de um Colombo tardio, ou não sofismar mais, assentindo que somos o mesmo, que somos coevos com o tempo e aí fazemos prova de ser, mas que apesar disso, tanto ele como eu, num vago e fugidio sentido, há muito deixámos de ser. Querendo-te ainda.



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