A ideia errada


Os jogos paraolímplicos constituem uma singular visibilização das pessoas com deficiência, cujas vidas e experiências se encontram largamente silenciadas nas agendas das nossas sociedades. Por exemplo, quem diria que em Portugal existem 636 059 com alguma deficiência? No entanto, creio que na maior parte das vezes a mensagem que se extrai dos jogos paraolímpicos é, senão a mais errada possível, pelo menos a que menos interessa à transformação das suas condições de existênca. As histórias dos atletas são sempre descritas como histórias de heróismo, como expressão de uma capacidade extraordinária para superar as barreiras. E, como tal, essas histórias representam, e bem, as muitas e árduas lutas travadas pelas pessoas com deficiência na vida de todos os dias. Ok, essa exaltação, essa homenagem é fulcral. A questão central é que seria bem mais vital que as próprias barreiras sociais fossem problematizadas, algo com que a lógica do desporto não trafica, sob pena de constituirmos sociedades onde a integtração social só é possível para os "heróis da adaptação", para as figuras heróicas que os filmes tanto gostam de retratar. A estrita exaltação das histórias individuais de superação cria uma mitologia do possível, nesse sentido assegura uma hegemonia, um status quo, ao criar uma ilusão que para a esmagadora maioria é cruelmente desmentida nos mundos da vida. Não podemos, por isso, esquecer jamais as condições de impossibilidade que estão postas às das pessoas com deficiência. Os significados dimanados dos jogos paraolímpicos devem lembrar que não temos todos que ser semi-deuses para termos aquele mínimo onde a felicidade é possível. Glorifiquem-se as narrativas de superação, mas visibile-se essa cruel opressão - negação de igualdade de oportunidades- que se abate sobre as mulheres e homens com deficiência, mortais como nós.



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