Descampados

Ontem em conversa desenterrei uma história que muito fez rir ao meu interlocutor. A mim nem por isso. Foi para aí há uns 12 anos, dedicava eu parte das minhas férias para andar em campos de trabalho promovidos pelo IPJ.

Logo à chegada ao ponto de encontro conheci uma rapariga, toda gira, alentejana, que se chamava Isa. Dada a minha timidez, típica de adolescente muito dado ao quarto, pouco avancei no minha aspiração. Mas, por sorte, lá consegui captar a simpatia da irmã mais velha, com quem fiz amizade após termos passado uma tarde a vigiar incêndios. Percebendo que à minha inépcia se aliava um interesse terunurento por Isa, ou talvez para não ter que aturar os meus devaneios sobre florestas e mitos, a irmã - não me lembro da graça - trocou o turno para que eu e Isa pudéssemos ir juntos vigiar os incêndios. Assim se fez, ao bom estilo adolescente entabulámos conversas interessantíssimas "então o que é que vais fazer quando acabares o 12º?", "isto é um bocado monótono, nem um fogo!", "bonita mata...", "já ouviste falar de Max Gluckman?", "então estás em ciências...". O que é certo é que criámos alguma empatia que se foi adensando à medida que os 15 dias do campo de trabalho caminhavam para o fim. Já nos últimos dias, ficou alinhavado que na noite derradeira eu iria ter com ela a um local onde a malta costumava tocar umas guitarradas à volta da fogueira. Seria a nossa despedida, seria a minha oportunidade para um beijo, o ensejo para adormecer com o meu saco de cama ao lado do dela.

Ao fim da tarde decidi ir retemperar energias para a tenda. Quando acordei era já manhã e o acampamento estava a ser desmontado. De Isa nem a morada.

Desde então acordar em acampamentos desfeitos ameaça tornar-se uma metáfora da minha existência. Brinco (e daí...), mas na altura não achei graça.



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