Uma viagem alterne

Há eventos estranhos que nos surgem como dádivas. Senão vejam. Um problema na bateria do carro onde fazia a viagem de regresso levou-me a passar várias horas da madrugada de ontem a beber finos com o homem do reboque (eu não estava a conduzir), junto da sua “base", numa terra que eu nem sequer sabia que existia. Isto tudo numa casa de Alterne. Disse bem. Numa casa de alterne. Nunca tinha ido a um tal sítio, nem fazia qualquer tenção nesse sentido, na verdade fui lá fui parar coagido pelas circunstâncias, mas, imaginam, uma vez lá, não pude deixar de dar azo a uma curiosidade antropológica antiga. E, portanto, ali me fiquei, a ouvir as histórias de quem bem conhece as densidades biográficas, emocionais e familiares que se entretecem naqueles lugares.

Trata de começar a cuscar. Claro. No entanto, não foi sem surpresa que, aos finos tantos, começo a ouvir o homem do reboque, T-shirt rasgada, mãos sujas de óleo, problematizar a narrativa patriarcal das “putas-objecto”, narrativa que até ali ele próprio vinha estetizando com os ditos másculos dos costume. "Mas olhe, estou aqui a dizer putas para aqui, putas para ali, mas não duvide, elas não são só profissionais de sacar dinheiro aos otários [embora o façam com mestria] ", "Muitas delas também se apaixonam", "também procuram na noite o homem que as tire daqui", "Sabe, sentem-se perdidas e se apanham um homem que lhes dá amor, dão-se para a vida como uma namorada sua nunca o faria", "Está ali a ver o M.?, está casado há dois anos com a das mamas grandes atrás do balcão, não sei o que viu nele, mas que gosta do tipo.., o mundo dela é...ele", "Conheci muitas que no fim deixam o número de telemóvel para a gente lhes ligar depois, e não é para serviços, embora algumas os façam noutros sítios", “olhe aquela brasileira, tão novita, tão bonita, até dá pena...”
E ali fiquei, a ver as curiosas movimentações enquanto o “informante” me ajudava a pintar o filme: “está a ver aquele velho a dançar com a gorda?, só trabalha para elas, não vê mais nada, um desgraçado... a mulher em casa não vê tusto”. À medida que a noite ia ficando entradota os clientes lá chegavam uns atrás dos outros; havia os que só iam beber um fino e ver o ambiente, os que lá se deixavam levar para as mesas, os que começavam por resistir... E depois lá vinha o engate reles, os beijos, os apalpões, as danças deprimentes numa luz mal amanhada: “elas connosco não vêem ter, já sabem que daqui não levam nada, se me pedem para sentar digo que já chega o tempo que passo sentado no reboque, bebo o meu e fico aqui”.

Quando uma pessoa fica com o carro "encostado" a meio do caminho, não pode certamente suspeitar das soluções criativas que a assistência em viagem de uma seguradora nos pode oferecer enquanto uma bateria carrega. O capitalismo à portuguesa tem destes insólitos. Quando partimos, a bateria nova – que nos foi ofertada pelo "rebocador" - já estava carregada há horas. Obviamente, a viagem atrasou-se em muito, mas, como diz Judith Butler, há que saber viver a contingência.



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