Não era para ser assim

Através de um serviço fornecido pelo citador, li aqui um interessante dito do psicólogo Eduardo Sá. Assim rezando:
O sentimento de inveja a que chamamos ambição deve estar à "flor da pele". Não é vergonha: é saúde. Sempre que uma pessoa o nega está doente, porque imagina que o seu desejo destrói os outros. Sempre que a valoriza, sobre todas as coisas, está doente, porque é como o seu desejo existisse para o tornar feliz sozinho Notícias Magazine (DN)
A frase é interessante e, parece-me, transfere uma ideia banstante adaptativa para que vive numa sociedade individualista, capitalista e competitiva, onde a capacidade de realização pessoal tende a assumir um lugar central na construção de uma identidade socialmente valorizada. A marca da Psicologia enquanto uma displina nascida na modernidade ocidental é, como noutras áreas, fortísima. Por exemplo, a Psicanálise (cuja apologia Foucault empreende n' A História da Loucura), vertente absolutamente fundadora da relevância que a Psicologia em geral haveria de adquirir, terá sempre alguma dificuldade em falar do Complexo de Édipo em sociedades matrilneares, onde o pai é o comparsa quase sempre ausente e a figura de autoridade é representada pelo irmão da mãe. Adiante.

O que eu quero dizer é que, apesar das perspectivas sistémicas terem ganho crescente relevância na psicologia que se vai fazendo, não consigo deixar de ler a frase que acimo cito enquanto expressão dessa vocação da Psicologia para nos ajudar a viver com a sociedade que temos, tomando-a, nalguma medida, como uma dado/fatalidade. Embora o desejo/ambição de prestígio social seja uma marca que encontraremos em quase todas as sociedades, outros contextos culturais há - e houve - em que um forte sentido de comunidade tende a prevalcer sobre a valorização individual/autónoma.

Talvez esta observação não tenha nenhuma petinência, e talvez esteja a ser injusto, mas, nisto como noutras coisas, facilmente equecemos que não tinha que ser mesmo assim.



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