A leveza de uma relação

Sempre que uma amiga ou amigo, falando da sua vida amorosa, me diz que está a viver uma "relação leve" surge-me o memento de outras histórias leves. E, baseado nesses outros enredos, se quiserem num certo "eu já vi este filme!", tendo a receber com entusiasmo moderado a celebração das ditas relações.

Como bem sabemos, em grande parte dos casos, as relações leves são estratégias adpatativas encontradas pelos pós-traumatizados de amor. A ideia básica parece ser a de criar com alguém um registo, sem compromisso ou "contrato de exclusividade, que permita partilhar coisas boas, momentos, programas. Assim, os amantes, movidos pelas regras de atracção e pelo "gosto de estar" estabelecem uma lógica relacional híbrida entre o encontro sensual furtivo e o namoro. O objetivo central destas "criações" é fugir ao desgaste emocional já experienciado numa "relação a sério", assim como ao medo de voltar a passar pelo doloroso des-enlace de um namoro onde se investiu muito. Portanto, está escrito, nesse registo leve não há lugar para ciúmes, cobranças, planos de futuro, logísticas quotidianas, entregas emocionais, etc.

O facto das relações leves se terem "popularizado" resulta grandemente das transformações dos costumes em dois sentidos diversos: 1- pela maior aceitação da sexualidade fora de relações estabilizadas 2- pelo facto de a emancipação feminina e os casamentos tardios permitirem uma maior auto-determinação emocional nos relacionamentos, que, por isso, se oferecem mais às dissoluções afectivas. Logo, engrossam as fileiras dos pós-traumatizados amorosos, quase sempre personagens pós-românticas deveras cuidadosas na abordagem de novas relações.

Mas, dizia eu - juizos morais fora desta liça - tenho dificuldade em acompanhar a celebração das tais relações leves. Explico. Tanto quanto me tem sido dado a perceber, estas lógicas tendem fracassar, não sem paradoxal ironia, resvalando para o pecado capital: um dos amantes esquece-se de ler o guião e apaixona-se.



<< Home