Chegar lá

"Dedico esta medalha aos deficientes portugueses"

Para mim os jogos olímpicos constituem oportunidades raras para conhecer melhor algumas modalidades e para me actualizar com o estado da arte de outras: os valores emergentes, os eventos recentes, rivalidades pulsantes, etc. No entanto, estou sempre num estado de nervosa tensão a ver progredir os atletas. É que - fundamentalmente nos desportos que têm o seu momento alto nos jogos - assistimos a terríveis reality shows, momentos em que vidas se jogam - literalmente - à frente dos nossos olhos. Não duvidemos, estão lá os sonhos de criança, as renúncias difíceis, as dietas árduas, os treinos intensivos, as lesões, as noites sem dormir, as dores, tudo consagrado a momentos únicos feitos de mil sortilégios.
E de repente, acontece: há um florim que fere a campaínha, as pernas que não respondem, uma falsa partida que elimina, uma trave que cai sobre o colchão, um disco que foge, um tiro que falha, um centésimo de segundo que põe tudo a perder..., e lá se esvai, num picar de olhos, tanto labor. Não posso esquecer quando um dia assistia a uma prova de marcha, nela, a mais séria contendente ia à frente, já a poucos quilómetros da meta, até que o juiz a abordou e lhe mostrou a placa de desqualificação por técnica incorrecta. Ela viu, mas, ao contrário do que lhe havia sido ordenado, não parou, apenas começou a chorar, marchava lágrimas, marchava para a meta, sem sentido, gritava deseperos, mas não parava, o juiz, entre a comoção e a competência fria, explicava "acabou!", mas ela não podia acreditar que aquilo estava acontecer, não podia. Marchou uns bons 100 metros mais, chorando contra a realidade, até que caiu no chão e chorou desbargadamente. De onde ela estava já se via o estádio olímpico.

É perante a magnitude das perdas possíveis que gosto de ler o valor de uma conquista olímpica.

p.s. Ler a excelente crónica de Francisco José Viegas sobre Obikwelu e os nacionalismos.



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