Belluci e outras considerações


Três filmes fabulosos que retratam com particular esmero a natureza complexa e insidiosa da opressão patriarcal. Nas três narrativas são-nos negadas fórmulas simples, nelas se murmura que a opressão patriarcal dificilmente poderá ser captada como a mera dominação dos homens sobre as mulheres, ela é, isso sim, um "sistema geral de comando" que, reiterando a superioridade masculina, se abate sobre mulheres e homens, definindo os seus papéis sociais de modo estreito. Como os filmes sugerem, nos regimes sociais marcadamente patriarcais, vigora um constrangimento constitutivo acerca do que é ser homem e do que é ser mulher e, o que é mais, prescreve-se um itinerário de valorização pessoal que muitas vezes dilacera a subjectividade afectiva, sexual, estética, etc. das pessoas que a ele se têm que conformar. Nestes filmes há momentos fabulosos que sintetizam as complexidades do sexismo e do heterosexismo: mulheres que acusam outras de "putas" defendendo a castidade feminina e que, por outro lado, desculpabilizam as derivas sexuais dos homens, homens perturbados, homens incapazes de amar uma mulher que nunca reconhecerem enquanto subjectividades complexas e capazes de desejo, mulheres sem chão para viver a sua sexualidade, padres reprimidos e repressores, you name it. No filme as irmãs de Madalena (Magdalene Sisters), há uma cena sublime, cujas interpretações suscitarão polémica: um rapaz viola a prima, que, rejeitada pela família, é enviada para um convento para expiar as suas culpas. Nessa cena centramo-nos na brutal dor e injustiça sofrida por Margaret, mas, interessantemente, o realizador quer-nos também chamar a atenção para o "violador" enquanto alguém que, nalguma medida medida, é, também ele, passível de ser entendido como vítima de lógica social profundamente repressiva - não que isso lhe retire a culpa por tão hediondo acto. A lógica de um sistema em que cada um faz do outro vítima do abuso que ele próprio sofreu. Eis pois as palavras do realizador, Peter Mullan: "O jovem que viola a prima não é um psicopata, tem um rosto fresco e limpo, e por razões que só ele conhece, viola a prima: um membro da família com quem cresceu, brincou e de quem gosta. Ele próprio não sabe o que o levou a fazer aquilo. O actor que convence Margaret para que ela o siga, que tenta ter relações sexuais com ela, tinha de ser capaz de exprimir na sua personagem toda a confusão que vai na cabeça deste rapaz, confusão que se transforma na forma mais brutal de abuso. O seu instinto sexual natural, como no caso do pai, dos tios, dos padres, foi reprimido a tal ponto que quando aflora por um instante é retorcido, violento e perverso."
Cultural Studies à parte, Malena é um filme lindíssimo. A fotografia, a música de Morricone, aquele amor platónico, a personagem longínqua de Monica Belluci, aquele seio visto da janela, o final...



<< Home