Recaídas


Recaída é um conceito que migra. Tanto serve para falar dos deslizes de alguém que tem uma adição (p.ex. um toxicodependente), como para referir a situação de alguém que cai nos braços de uma relação amorosa já sem sentido. Num e noutro caso a "recaida" tem a força moral de um fracasso. Quando alguém se envolve, gostando, como uma pessoa que só já pode fazer parte do passado tem duas possibilidades:
1- Chamar-lhe recaída assumindo um erro, um fracasso da vontade esclarecida. Neste caso afirma-se a necessidade de seguir em frente com firmeza: Let go, let fly, forget.
2- Chamar-lhe revisitação legitimando o acontecido pela necessidade de perceber o que o tempo fez aos lugares do antigamente.

Estas duas hipóteses revelam bem o quanto a "natureza" daquilo que é feito depende dos nomes que usamos. Como dizia Foucault, os discuros produzem os objectos de que falam. Na mesma sensibilidade construtivista Ian Hacking afirmava: "Quando novas descrições se tornam disponíveis, quando elas entram em circulação, ou mesmo quando se tornam coisas que podem ser ditas ou pensadas, então há novas coisas que podemos escolher fazer". Acredito nisso. No entanto também há que saber ler quando os dicursos são frágeis, quando estamos perante falas insustentadas; acontece quando quem fala não consegue acreditar nas suas póprias palavras. Aí entra o realismo-pós-ilusão-tentada que Borges assim revela: And yet, and yet... O mundo, infelizmente, é real; eu, infelizmente, sou Borges.



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