Perguntas impensadas

Para chegar a Lisboa alistei-me entre os passageiros de um autocarro que se fez a estrada ja madrugada. O inicio da viagem nao se fez sem chorada contestacao. Foram custosas as despedidas , algo explicavel: o areoporto era o destino preferencial tracado para aquele horario.

Recordo em particular um casal de namorados. Ela, estrangeira - deduzi pelos tracos fisicos - estaria a acabar o ano de Erasmus, deixando Coimbra e o seu amor para tras. No momento dramatico em que o autocarro balancou ele ficou-se no cais a acenar desesperos. Ela respondia com sorrisos colados ao vidro embaciado, mas, uns minutos depois, ouvi-a, inevitavel, a solucar uns lugares atras de mim.
A meio da viagem o mototista decidiu uma paragem na estacao de servico. Acabadas as idas a casa de banho, sorvidos os galoes, tudo se re-instalou no expresso. Foi entao que o motorista, cioso, perguntou sonante ao microfone: "alguem da pela falta de alguem?".
Gerou-se um silencio cortante. Foram cerca de 15 segundos. Enormes. Durante esse tempo o condutor fez a cada um(a) remomorar a falta que "um alguem" lhe fazia. Pensei tambem. Pensei na rapariga do erasmus. Ao fim desses duradouros instantes de angustia, o motor comecou a fazer barulho. Obviamente, ninguem quis responder a tao profundo repto. A pergunta, essa, ficou por ali a doer.

Eles nem as pensam!



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