O meu vizinho

O meu vizinho, que vive uns andares abaixo, veio ontem bater-me à porta. Desde pequeno que lembro dele, costumava pedir-me cuidado para não acertar com a bola nos carros estacionados na cave; trabalhador incansável, excelente mecânico, passava os seus fins-de-semana a tratar dos canos, da electricidade, do seu estimado carro. Ontem veio bater-me à porta, perguntou-me se não o ajudava a pôr umas gotas nos olhos. É que - explicou-me - com o avançar da idade as mãos já lhe tremem e não há maneira de as parar sobre a face. Peguei no tubo, inclinei-o, e lá cairam as gotas nos cansados olhos. Com a aplicação do prescrito fármaco soltou-se-lhe uma lágrima. Para mim, que tenho dificuldade de me imaginar por aquelas idades, aquela lágrima lembrou-me a impossibilidade de pactos particulares com o tempo. Ontem o tempo veio bater-me à porta.



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