Intimismos digressivos
Acredito que seja uma das cenas mais repetidas no cinema: o moribundo, ferido de morte, dizendo as últimas palavras a alguém que lhe dá colo e lágrimas. Nessa célebre composição há uma forte ideia de urgência, a completa noção da vulnerabilidade da vida, o imperativo de falar concisamente, falar aquilo que mais importa. A velhice de Borges também lhe foi dando essa consciência, assim revelada com irónica candura: "Prevejo, sem interesse de maior, que em breve hei-de morrer; devo, por conseguinte, dominar o meu hábito digressivo e adiantar um pouco à narração".
A consciência mais robusta da precariedade que afinal vigia toda a existência pode dar-nos o alento para dizer/viver o que mais importa, como se fôssemos moribundos avant la lettre. Mas, por outro lado, esse "adiantar um pouco à narração" pode ser a depuração dos "itinerários digressivos", onde moram encantamentos insuspeitos, aqueles mesmos que às vezes fazem uma história - uma vida - valer a pena.
E depois há noites como esta em que nos sentimos quais moribundos digressivos fazendo do blog uma forma de colo.