"Faz-me sentir bem"


A partir da cena capital de Monster's Ball (Depois do ódio), a Inês, simpática, lembrou-se de me convidar a pensar sobre o estatuto instrumental do sexo, enquanto meio para a superação de um momento de angústia emocional. Como saberão, estes temas pouco beneficiam da minha experiência pessoal, ainda assim não poderia deixar de tecer umas considerações. O interessante questionamento da Inês parte do diálogo em que Leticia (Halle Berry), perturbada, pouco após saber da morte do filho, pede a Hank (Billy Thorthon) que a faça "sentir bem": "I want you to make me feel good. Can you do that? Can you make me feel good?". Seguem-se alguns minutos "dramáticos" que por certo exigiram todo o sangue frio dos cameramen. Estamos perante a manifestação de um eventual carácter instrumental do sexo, numa cena que é tão mais interessante na medida em que, ao contrário do que seria a narrativa clássica da "instrumentalização sexual", esse estatuto do sexo é definido pela mulher.
1- A alusão às virtudes terapêuticas deste tipo de experiências sensoriais encontra uma poderosa representação estética na música de Ben Harper [adenda: original de Marvin Gaye] : Sexual healing/It makes me feel so fine/It helps to relieve the mind/Sexual healing, is good for me/Sexual healing now is something that is so very good for me.
2- A questão do género: Uma amiga minha, bem mais velha, dizia, provocativamente, que um dos problemas das mulheres da geração dela é que tinham que inventar o amor para poderem legitimar o sexo. Seria essa a razão porque, na visão dela, as mulheres se apaixonavam tantas vezes. Provocações à parte, é óbvio que, em termos sócio-culturais, as relações sexuais deixaram de se cingir aos propalados propósitos da procriação ou de ser tidas apenas como a sublime expressão corpórea de um amor partilhado. O prazer sensorial no sexo foi ganhando autonomia explicativa, podendo, em determinadas circunstâncias, constituir um valor per se para os agentes envolvidos - uma lógica que, apesar das transformações que vamos vivendo, é ainda mais desqualificada socialmente quando assumida por mulheres. Nesse sentido vem ganhando terreno a afirmação do prazer pelo prazer, e com ela, a descoberta dos usos reconstrutivos a resultar das experiências sensoriais envolvidas no sexo. Portanto - e se quisermos levar as possibilidades de instrumentalização ao limite -, nesta linha, pouco separaria o sexo da musicoterapia ou da aromoterapia
3- No entanto, esta "possibilidade leve" é amiúde problematizada pelo facto do sexo introduzir outra variável ao barulho: mais uma pessoa, mais uma subjectividade. Numa conhecida anedota pergunta-se a um sujeito porque é que ele prefere o sexo à masturbação, ao que ele, após muito pensar, responde: "pelo convívio". Por muito anedótico que isto possa parecer, a chave está aí. Primeiro, porque aquilo que pode ser visto como uma experiência terapêutica para um dos amantes pode ser outra coisa para o outro, e se, como muitas vezes acontece, um dos dois sente algo mais, a terapia de um pode então fazer-se às custas da desvalorização dos sentimentos da/o "terapeuta". Segundo, se por um lado é verdade que podemos pensar nas virtudes de uma instrumentalização recíproca em que os amantes se usufruem, ao ponto de, grosso modo, termos corpos ao serviço de uma "mecânica" sensual-orgástica", por outro lado, as possibilidades do sexo enquanto terapial, podem prender-se centralmente - e é assim que eu leio a cena do filme - com a vontade de uma experiência de partilha, partilha essa que o sexo não faria mais que materializar e intensificar. Aí o prazer do sexo confunde-se mais decisivamente com a negação da solidão, com o esbatimento momentâneo de duas pessoas, dois corpos, e, quiçá, dois universos de sentido. Nesta lógica de "consolo sexual" o amante é já um outro significativo ou então arrisca a tornar-se num. O outro significativo é mais que um" terapeuta conveniente". O facto de Hank e Letícia terem vindo a desenvolver uma relação amorosa parece adequar-se a este "quadro terapêutico".
(Ficou enorme, eu juro que eu só queria escrever uma breve nota)



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