Revoluções

fansChegado a Portugal, Francisco José Viegas depara-se com "uma revolução cultural importante a decorrer: basta ver o público feminino a torcer pelo futebol. Atrevidas, não? Acabei de ouvir um grupo de raparigas estivais, no passeio da Duque de Loulé, a cantar a canção de Nelly Furtado com a alteração do refrão: "Come-me à força...." Ciente dos perigos de tais ilações, FJV apela a uma palavrinha minha, irresistível...
Algumas considerações:
1- A selecção nacional tem esse mérito: produz uma feminização do público do futebol. O momento estético mais importante desse fenómeno é utilização da bandeira, que tanto foi mobilizada como símbolo de valores belicistas, patriarcais e conservadores, enquanto criativa peça de vestuário ao serviço das curvas delas (tops, vestidos, etc.). Por estes dias muitos seios se insinuam debaixo da esfera armilar, segurando, segundo as suas possibilidades, as cores da nação. Os mastros vão caindo em desuso.
Quanto às meninas que cantavam "come-me à força":
2- Ciúme. Sabemos que com a sua música fresca e apetecível, Nelly furtado - também ela bastante aprazível - tornou-se na imagem mitológica da odisseia do euro, libertando-nos do martírio de termos que estar a olhar para a cara do Figo em tudo que é outdoor publicitário. Ora, é sabido que isto pode bem suscitar o ciúme entre as suas pares, que, por isso mesmo, lembram a toda a hora o seu português macarrónico, e a desqualificam, por exemplo, adulterando a lyric da canção. Portanto, pode bem ser que as meninas do "come-me à força" não estivessem a exprimir os seus anseios pessoais, mas sim a parodiar a mulher mais desejada de Portugal em tempos de Euro.
3- Auto-determinação. Partindo da hipótese que meninas que cantavam "come-me à força" revelavam de facto o seu ensejo, estamos perante uma apropriação e reversão da linguagem originariamente machista da predação do sexo oposto. No discurso predatório come-se e é-se comido nos enleios eróticos. Normalmente quem é comido/a aparece-nos como a "vítima" do desejo de outrem, mas, quando elas dizem "come-me", estão a "jogar" usando um discurso emancipatório em que a sua auto-determinação é excatamente afirmada nesse desejo de serem comidas. É, pois, o seu desejo a ditar leis, e não o desejo de quem as possa vir a "comer", daí fazer todo o sentido a tal revolução cultural de que falava FJV.

Conclusão: As bandeiras que são Tops, a Nelly Furtado em vez de Amália, e as letras ousadas, não significam propriamente que estamos tanto perante uma revolução cultural suscitada pelo Euro 2004, mas dão-nos a perceber, isso sim, que as culturas expressivas deste evento têm - qual estudo de caso - o condão de tornar visíveis importantes transformações culturais nos últimas décadas.
No entanto, importa lembrar, tal como nos dizia Victor Turner, que as ritualizações sociais tanto espelham o que a sociedade é, como participam na sua transformação, ou seja, mostram de modo sublime que a sociedede "é inerentemente mutável".



<< Home