Mulheres ao relento

Mia Couto contava algures a história desse insólito sonho. Refiro-me ao sonho de um homem que adivinhava todas as mulheres do mundo a dormir ao relento, na noite da sua morte. Prodigiosa, a sua imaginação partia de um costume da sua etnia de nascença, segundo o qual toda a mulher se deveria deitar sob a lua na primeira noite da sua viuvez. Suspeitaremos que a ideia de tanto mulherio, dormindo em sua saudade, mais não seria, para tal personagem, do que o ansiado espelho da glória e da estima que a sua vida haveria de granjear. - Engraçado, como os castelos que contruímos se arreigam às edificações da nossa cultura, ou não fosse já a metáfora dos castelos da areia uma emanação particular das poéticas que cada gente constrói à beira dos seus mares. -
Colocando a morte na vasta constelação dos fins, haverá algo de profundamente lamentável quando a existência se mesura pelas pessoas que, ao longo do caminho, por nós dormiram ao relento. Ainda assim há quem hesite entre o ideário de todas as mulheres do mundo numa noite ao luar, e a imagem de uma só mulher lembrando quem partiu, sob o céu, nas noites, toda uma vida; E este último é o mais cruel dos alentos que alguém pode ter. O relento de uma perda é uma passagem que, a seu tempo, todos visita. Se alguma lição o rito nos deixa é que uma noite deveria chegar.



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