Deficiência e Sousa Franco

Em comunicado, a Associação Portuguesa de Deficientes (APD) manifestou "profundo repúdio e condenação pelo facto de elementos da coligação "Força Portugal" se terem servido de características físicas para depreciar um seu opositor.

Como bem nota Miguel Vale de Almeida, o PS confundiu as coisas ao denunciar o racismo da coligação PS/PSD. Mas é interesante pensar porque é que Sousa Franco logo correu para o racismo. Permitam que teorize.

Primeiro, porque o PS quis fazer apelo a uma forma de discriminação que tem mau nome na nossa cultura (o despertar do colonialismo e do holocausto marca grandemente essa carga desqualificadora do "racista"). Segundo, porque não existe um mau nome - ou sequer um nome - para classificar a situação estrutural de discriminação a que as pessoas (ditas) deficientes estão sujeitas na nossa sociedade (O Inglês permite disablism, disabled persons=persons disabled by society). Devemos perceber que embora as diferentes formas de discriminação nos devam merecer diferentes quadros de análise, a reacção do PS não deixa de expressar uma outra realidade mais ampla onde se desvela uma irmandade nessas formas de opressão: as sociedades modernas são profundaments somatocráticas, isto é, estão fundadas em formas de hierarquização social baseadas nas classificações do corpo. Racismo, sexismo, homofobia, e a "deficientização" constituem formas de naturalização de hierarquias sociais numa cultura matricialmente marcada pelo determinismo biológico. Inscrevem-se, por isso, nessa vocação comum de uma cultura somatocrática.



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