Portugal: um país de armários


Uma amiga minha, que foi estudar um ano para a Holanda, contava a vida descomplexada que tinha em casa dos pais do seu namorado holandês. Com toda a naturalidade, tomavam banho juntos e partilhavam o quarto com a benção dos progenitores do chavalo. De facto, como eu próprio pude atestar, naquele contexto tal prática não representa nada de excepcional. Já em Portugal, é engraçado verificar como os nossos valores culturais estão ainda marcados pela valorização da virgindade pré-matrimonial, ou pela herança desa valorização. Essa opção pela "preservação" do corpo deve, no meu entender, ser inteiramente respeitada. Agora, o que eu acho ridículo, é o modo como as diferentes gerações lidam com a questão, tendo que se socorrer, frequentemente, de um jogo de hipocrisias que acharíamos cómico se não fosse na nossa sociedade. Por exemplo, é muito normal um casal de namorados nos 20 e muitos, que toda a gente "sabe" que começou a vida sexual há muito, ter que dormir em quartos separados quando são acolhidos em casa dos pais de um deles. Ao mesmo tempo que as práticas geracionais foram radicalmente transformadas, preserva-se uma lógica inter-geracional de sinais exteriores de não-sexualidade: eu sei que tu sabes que eu sei, mas, para todos os efeitos eu não sei de nada.



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