Os pós-devotos

Na sua simpática lista de agradecimentos, JCD chama-me antropólogo pós-moderno de devoção mourista. É óbvio que protesto com todas as palavras menos com o "de". Em todo o caso, a ser verdade, assim se provaria que as formas de devoção na pós-modernidade não foram abolidas, foram, isso sim, renovadas e tornadas exorbitantemente plurais no seu espectro de possibilidades.

A prática moderna nunca se conformou às suas projecções modelares. (Trangressão já augurada no modo como Camões superava os contornos da devoção petrarquista - Camões perdia-se por morenas de olhos verdes). Acredito, como nos assevera Bruno Latour, que nós nunca fomos modernos, mas também sei que nunca deixámos de o ser. Levando a conversa para latitudes que certamente exorbitam a sua origem, acho que, longe de ser uma contradição os termos, faz todo o sentido esta curiosa ideia: a devoção de um pós-devoto.

Entendo, pois, que a pós-modernidade também pode ser definida, em alguma medida, como a lonjura da devoção de origem. Sim, talvez eu seja um pós-devoto, e, nesta perspectiva, talvez seja um pós-moderno. Mas sou, ainda assim, um devoto. Tal como a modernidade nos persegue, há inclinações que não nos largam.



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