Gajas boas e gajos bons: dizeres


Desde a minha adolescência, aprendi a regrar aqueles comentários que eram feitos a propósito das desconcertantes aparições de algumas figuras do sexo feminino. Hoje, mais maduro (não muito), considero sexista essa história dos rapazes/homens segredarem odes acerca das mamas ou do rabo de uma mulher que passa. Não acho bem. Na verdade, essa ritualizada afirmação da masculinidade, no fundo a afirmação da capacidade masculina de desejar, segue uma narrativa patriarcal em que a mulher é cosificada e despida (boa metáfora) de subjectividade perante um olhar sedento e conquistador do poderoso homem ( aquilo a que Donna Haraway chama conquering gaze from nowhere, para referir o modo como o olhar masculino se conflui com um olhar-de-Deus). No entanto, e em sentido inverso ao meu itinerário pessoal, venho assistindo ao modo crescente como as mulheres e a malta gay exaltam publicamente os gajos bons. Como as coisas não são simétricas, esse fenómeno tem uma leitura completamente diferente: representa um texto emancipatório em que expressão pública de determinadas avaliações estético-eróticas vê alargado o seu espectro de "autor@s", pessoas onde tais expressões foram - e são ainda - uma base de desqualificação (as acusações clásssicas: as levianas e os maricas). Embora ache que às vezes é redutor pensar as pessoas como um corpo, não sou abolicionista, ou seja, mesmo perante esse espectro de uma indesejável des-subjectivização, não defendo o fim d@s estetas-eróticos-do-quotidiano. No entanto, hesito entre a ideia da desejável democratização dessas expressões e a percepção de que às vezes algo se perde nessa vocação para pensar corpos fora do contexto. Isto é, fora das complexidades de quem "lá mora" (passe o dualismo corpo-alma).



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