Feminismo, lesbianismo: "Corpos e Prazeres"

Sigo com atenção os textos de Anabela Rocha e Pagan. Neles se problematizam os trilhos que as lógicas emancipatórias advindas dos discursos feministas e queer devem tomar. A Anabela afirma que a crescente desestabilização dos dualimos de género/diferença sexual (prefiro diferença sexual para, na linha de Moira Gatens e Judith Butler, negar um sexo puro, pré-cultural, antes de género*), e a elisão da confluência entre um sexo e uma orientação sexual normativamente sedimentada, irá conduzir ao fim do ónus da transgressão presente na ideia de uma mulher desejar uma mulher. Isto porque, nesse sentido, o conceito de mulher e a sua definição enquanto desejadora de homens ─ leitura muito simpática das categorias patriarcais que sempre tiveram alguma dificuldade com a própria ideia do desejo feminino, ainda que heterossexual ─ estariam já postos em causa. Assim, nesta leitura, estaríamos próximos daquilo a que Judith Butler ─ numa apropriação profundamente irónica de Freud ─ chama a possibilidade de “corpos e prazeres”. Uma lógica que negaria o nexo entre sexo e desejo, que Foucault identifica desvelando as práticas discursivas que produzem desejos para um sexo, ou melhor, produzem desejos para a categoria sedimentada, o ideal especulativo a que chamamos sexo (masculino ou feminino). Ou seja, não mais relações homo ou hetero, mas corpos e prazeres numa dança livremente coreagrafada, longe das regulações normativas patriarcais e heterossexistas. Como afirma Butler: Não sexo-desejo, mas corpos e prazeres” (...) “Corpos e prazeres” assinala um tempo que talvez nos liberte do nosso próprio tempo, um tempo antes/ou para além do poder regulatório da sexualidade, o foco postulado da nossa resistência à modernidade no seu estado prolongado e persistente” (Butler, 1999, minha tradução). Portanto, estamos ainda longe de poder assumir uma lógica que se aspire instalar-se fora da resistência às persistentes hegemonias tardo-modernas. Não surpreende, pois, que a radicalíssima Butler não deixe de assinalar a necessidade dos discursos emancipatórios se articularem oposicionalmente com aquelas que são as estruturas normativas hegemonicamente estabelecidas: “não faria sentido opor corpos e prazer, por um lado e “sexo-desejo” por outro, se a estrutura normativa do último continua a assombrar e a estruturar as modalidades do primeiro” (Butler, 1999, minha tradução). Aproximo-me, por isso, de Pagan, quando este chama a atenção para a necessidade de ironizar, pela transgressão - exactamente -, com os valores que sexualizam normativamente os corpos identificados como masculinos e femininos. Não obstante, ainda que os discursos que entram na pós-modernidade depressa demais, sonegando o vigor das lógicas modernas, se mostrem pouco estratégicos do ponto de vista político, eles alimentam o pensamento contestatário com utopias e horizontes que, sem dúvida, são “bons para pensar”.

* To “conced” the undeniability of sex or its “materiality” is always to conced some version of “sex”, some formation of “materiality” Butler (1990)



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