Cavalheirismos? Eu feminista me confesso

Comendo à pala de um congresso, fui jantar num sítio fino. Coisa rara. Na mesa estavam, entre outos ilustres, o Ruy de Carvalho e a Maria Augusta Silva. Além da profusão de talheres - muito loiça se suja nos espaços frequentados pelas classes altas! -, impressionou-me o facto das mulheres da mesa serem sempre servidas primeiro. O garçon fazia uma primeira ronda, em que só as senhoras eram contempladas, e depois, só na segunda ronda, a malta identificada como pertencente ao sexo masculino lá recebia também alguma coisa. Para mim, que não consigo deixar de ler o cavalheirismo enquanto parte de uma definição cultural das mulheres como sexo fraco, aquilo foi uma expressão cintilante dos rituais patriarcais, desta feita disfarçados de solenidade paternalista. É óbvio que sou capaz de ter comportamentos ditos cavalheiros. Busco as raízes das práticas, mas, sem fundamentalismos, negoceio as minhas acções em função do modo como os outros as recebem. No entanto, se for a pensar em termos mais largos, entendo que os valores que sustentam o cavalheirismo não podem deixar de ser denunciados por uma agenda feminista. E não... não estava cheio de fome.



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