"We have no more beginnings" (?) [Um post chato]

Acerca das utopias e seus perigos, é excelente a conversa entre Francisco José Viegas e o João Morgado Fernandes a partir da frase de Steiner: "We have no more beginnings".


Esta questão é sublimemente debatida no livro Emancipations de Ernesto Laclau (1996). Nessa instigante obra o autor defende que um projecto transformador abrangente, para ter eficácia política, tem que se afirmar como uma radical reconfiguração, uma refundação social que emula a re-inauguração do mundo ao melhor estilo da promessa messiânica. Mas, ao mesmo tempo, todos os horizontes políticos devem reconhecer a contingência das condições de que partem e que procuram opor. Deste modo, toda a decisão deverá ser entendida como produto de um momento histórico contingente, não podendo aceitar-se a sua cristalização.

E é este reconhecimento da contingência do político que terá que ser articulada com uma "mitologia a-histórica da emancipação" para podermos ir ao excatamente de encontro ao ideal democrático de que tantas "utopias realizadas" prescindiram. Ou seja, teremos que preservar sempre o princípio genésico que tudo é democraticamente equacionável e re-equacionável à luz dos presentes sucessivos. É este o texto radicalmente emancipatório, não ingénuo, que é passivel de ser articulado com o conceito de "Democratie à Venir" de Jacques Derrida ou com a "Democracia Sem Fim" (ou "Democracia de Alta Intensidade") de Boaventura Sousa Santos. Para que "novos começos" possam surgir.



<< Home