Voa Ícaro, Voa


Há quem nasça para se tornar imortal e depois morrer. Maradona parece substanciar esse desígnio.

Ele era o meu herói. O pretérito não é justificado pela desilusão, ou pela tristeza da queda, mas apenas pelo fim da carreira do artista. Na verdade, apesar do meu portismo exacerbado, acho que nunca sofri tanto por uma equipa como pela Argentina. Em bom rigor, eu sofria por ele, El Pibe. Uma das imagens mais fortes que eu guardo do futebol -- esse singular reality show -- é a recordação de Maradona a receber a medalha após a derrota na final do Itália 90, o "meu menino", chamava-o assim apesar de o menino ser eu, chorava compulsivamente sob os assobios dos italianos ressabiados. (Esses mesmos que exultaram com a derrota da argentina no jogo inaugural contra os Camarões). Atrás de uma televisão também eu me desfazia em pranto, investindo a minha mãe de cuidados. Todos os heróis nos desiludem, não há semi-deuses, e Maradona dificilmente será um modelo de vida para alguém, deslumbrou-se, afundou-se. Mas também nos deslumbrou, embriagando-nos de magia, ele foi o único verdadeiro génio que o futebol conheceu. Alguém me dizia em conversa que a maior glória (mediática) que alguém pode ter acontece quando se decide com um golo vitorioso a final do mundial de futebol. Vi essa cena na minha cabeça tantas vezes..., escolhia o golo, ensaiava os festejos ao pé dos móveis da sala. E no fim de ter sido entronizado pelo mundo lá descobria um olhar especial na bancada a quem eu piscava o olho. Na altura devia ter a cara de uma vizinha pré-adolescente. Mas isso foi há muitos anos. É brutal como nos impressiona tanto a queda no abismo daqueles a quem pertenceu o gozo da glória, do poder, da fama e da imortalidade.
Não morras assim. Não agora. Seria demasiado triste. Mesmo na queda Ícaro voará contra o destino.



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