Um "Olhar" enquanto guião



Jennifer Ehle, conheci-a na excelente série "Orgulho e Preconceito" que passou há uns anos na RTP2. Foi particularmente forte fascínio que esta actriz exerceu em mim desde logo. Falo, claro, do seu génio dramático. Jennifer Ehle é daquelas pessoas que para cada emoção tem um rosto. Conheço algumas.

No entanto, - e aí começa a um caso sério - a riqueza singular de expresões faciais que encontramos em Ehle esquiva-se, surpreendentemente, a uma qualquer ideia de transparência. A face dela está longe de ser um texto decifrável. O que a salva é um olhar no qual ninguém se pode sentir em casa, um olhar vago em que a alma estrangeira ao corpo sugere mistério (também encontrável p. ex. no Ralph Fiennes), um olhar onde um brilho cintila dilemático entre a demora nas coisas da vida e uma indiferença que aflige. Não podia haver mais brilhante incorporação para a personagem que vagueva experimentando ciosa o sentimento, palpitando nas decisões cruciais entre um génio empedernido e a chamada do amor. O que vemos em Jennifer Ehle é algo entre o olhar transcendente de Deus - um olhar que paira - e a encarnação messiânica de quem ousa viver na história - um olhar que para, detendo-se entre os mortais, reconhecendo o desejo, ainda que este tome o nome de tentação. No fim da série, o olhar torna-se mansamente dedicado, a certeza de um querer partilhado simplifica a personagem enquanto história de vida, e é aí que o olhar de Ehle nos despede.



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