Olhares de Adeus*
Já aqui falei da minha pulsão passional por olhos tristes (não confundir com pessoas tristes). Mas trágico mesmo, é alguém que só se deixa cativar por "olhares de adeus". Esse estranho fado merece três hipóteses.
1-Há uma forte componente de masoquismo. Não é o desejo pelo outro que é activado pelos "olhares de adeus", mas sim o desejo pela auto-flagelação emocional.
2- Amar é querer. Logo é pressentir/temer um adeus, uma perda. Será esse presentimento interior a formular a tonalidade fugaz dos olhos amados. Assim, os "olhares de adeus" não serão uma patologia da relação amorosa, mas uma das suas essências: quem ama necessariamente convive com esse olhar, ainda que espectral.
3- A hipótese trágica de inspiração hindu-budista: Karma. O que se ama são as encarnações de um mesmo amor, aquele que uma e outra vez vem dizer que partiu. Mudam os olhos permanece o olhar, o único que o desejo consente. (Hipótese de algum modo presente no conto "Ligea", de Edgar Allan Poe)
* Glosado de Atrás da Porta (Francis Hime - Chico Buarque, 1972)