A possessão, o espectro da perda e... a paixão


Ontem à tarde ia pôr o lixo lá fora e lembrei-me de ir ao cinema. Assim fiz. Peguei no bilhete com destino para o lugar J-24 e abanquei para ver a Paixão de Cristo. Era uma daqueles filmes que eu queria ver sozinho e na grande tela... Foi pouco tempo após me ter sentado que reparei num interessante fenómeno. Ao meu lado sentaram-se dois casais; como sabem os casais costumam ter dois bilhetes para dois, e sentam-se aleatoriamente nos lugares designados pelos seus bilhetes. O fenómeno interessante foi o facto de eu ter notado uma curiosa movimentação dos homens no sentido de assegurar que as suas namoradas não ficavam, naquela fila quase deserta, em contacto próximo com um tipo, neste caso eu. Por isso sentaram-se eles ao pé de mim à esquerda e à direita, simetricamente. Foi portanto com uma certa lisonja que eu fiquei sentado, devidamente enquadrado pelos namorados previdentes, enquanto as moçoilas de ar casadoiro foram postas do lado de fora a uma distância de segurança. Estou certo que esta arrumação, que tende a acontecer nos cinemas quando a opção é possível, resulta de habitus inconsciente de protecção da mulher. O carácter relativo da ameaça que eu represento faz-me supor a possibilidade deste habitus ser generalizado.

Ao observar tais subtilezas iniciei a Paixão com um sorriso. E o filme? Bem... talvez noutro post. Mas sendo redutor sempre vos digo: fica a sensação que Mel Gibson hesitou na recolha das suas fontes entre os evangelhos e um prontuário de tortura e recolha de sangue.



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