Palestina e o mito da simetria

Na sequência das trocas de argumentos entre Daniel Oliveira, Alberto Gonçalves e Francisco José Viegas acerca da polémica da Palestina (e das aspas), Vital Moreira toca num ponto que creio ser fulcral. Com simplicidade e maestria ele desfaz o ardiloso argumento da simetria, das ambições dos projectos expansionistas de Israel e a Palestina, para notar que há um elemento que faz toda a diferença, isto é, a assombrosa desproporção nas relações de poder. De facto existe uma tendência para se sustentarem leituras simétricas, aparentemente ingénuas, que frequentes vezes se mostram deliberadamente incapazes de captar como determinados discursos operam, em determinados momentos, ou como assunções de superioridade que têm o poder e as condições de possibilidade para reduzir o outro, ou como discursos afirmativos que mais não são do que resistências, lutas pela sobrevivência de um povo. Incomoda-me essa estratégia insidiosa por via da qual os discursos dos grupos oprimidos são chamados para o mito da simetria: "eu chamo-lhe preto, mas ele pode-me chamar branco", "há o dia da mulher e não o do homem porquê?", "há bares gays, porque é que não há bares hetero?".

Quanto às aspas da Palestina, sabemos que todas as identidades são historicamente contingentes e constituem-se por oposição a outras identidades, neste caso, outros povos. Assim acontece com a construção estratégica da identidade palestiniana, mais evidente pelo seu carácter recente. De facto, se considerarmos seriamente este carácter contingente da formação das nações podemos certamente chamar "Palestina" à Palestina. Mas como as "raízes históricas" nos conduzem sempre para uma diferença de grau e não de tipo, por coerência teríamos então que chamar "Portugal" a Portugal.



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