A desilusão da semana (act.)


Nunca o escondi, sou um profundo apreciador da verve de Miguel Sousa Tavares. Mas, acompanhando o que assinalam com pertinência Celso Martins e Miguel Vale de Almeida, achei absolutamente deplorável o texto que escreveu para debater as opiniões que Ana Drago enunciou em favor da despenalização do aborto. Aceito perfeitamente que é possível defender a mesma transformação legislativa - a despenalização do aborto - discordando dos argumentos de quem também a defende. Ok. Agora o que não me parece aceitável é que o tom e a argumentação de Miguel Sousa Tavares procure fundar uma forma de desqualificação tão pessoal e tão primária: «Entre os meus amigos, baptizámo-la de " Vírgula (...)". Não só era dispensável o machismo que subjaz todo o artigo de Sousa Tavares, como se deveria questionar o cronista da necessidade de fazer do corpo (e do seu "modo de apresentação") um argumento central no texto. Estranho sinceramente esta nostalgia pelos políticos cinzentos de pose austera e comedida, onde o sexo masculino tende a ser um garante de "neutralidade corpórea"*. Estranho-a em Miguel Sousa Tavares porque para mim isso corresponde a uma desilusão. Mais, ao assustador pressentimento de um sexismo militante.

*"(...)women who are constantly subjected to the ‘male gaze’ cannot experience the ‘privilege’ of bodily disappearance as much as the male gazer (the same could also be said of ‘race’ and ethnicity)" Williams, Simon (1998) in Body and Society, Vol 4, nº 2



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