Boleias perpétuas

Foi há poucos dias. Fui levar uma amiga a casa. Depois de dissertarmos ao som da solfagem sobre os temas da actualidade afectiva, despedimo-nos. Quando a porta dela se fechou tentei ligar o carro. Rodei a chave. Nada. Repeti. Nada. Certifiquei-me que o estacionamento não era tão precário quanto isso, peguei nas minhas coisas e vim para minha casa a pé. Senti-me nobre ao padecer tal insólito. No dia seguinte fui lá com um amigo tentar carregar a bateria. Nada. Fiquei a saber que a Assistência em viagem da Tranquilidade é bastante eficiente. Fiquei a saber que não percebo nada de carros. Fiquei a saber que os meus amigos também não. Fiquei a saber que as revisões devem ser feitas. No fim o senhor do reboque deu-me uma boleia. Agradeci-lhe com uma ternura recém-descoberta: é que nunca saberei se chegou a casa.



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