Os Vips relacionais

As promoções dos telemóveis que permitem escolher 3 ou 10 pessoas - aquelas para quem mais se fala - impõem um curiosa reflexão acerca das relações. A alteração dos números inseridos nesses packs também diz muito do que se vais passando na vida afectiva. Ah... a ritualização das hierarquias afectivas... Hoje, na idade adulta - segundo o BI- esses rituais são muito mais subtis (creio). Mas reparem, por exemplo, quando se dá boleia a duas pessoas, sem que nada se diga, a mais amiga é invariavelmente a que se senta no lugar da frente. Nota-se também que as relações amorosas têm precedência sobre as amizades: nunca a namorada vai atrás e o amigo à frente. Já se for ex-namorada/o tudo pode acontecer. Essas hierarquias são tacitamente partilhadas e ritualizadas por todos, raramente são verbalizadas. Mas há mais destas subtis representações da hierarquia dos afectos.

Quando eramos crianças nem sequer eram subtis.

Os dois melhores jogadores eram nomeados capitães de equipa e ficavam responsabilzados de escolher as duas formações; alternadamente, lá se ia separando as águas do magote de jogadores. Era a logística do futebol. Mas esse ritual aparentemente funcional era muito mais que isso. Era a representação de todo um grupo social. Explico.

A ordem das escolhas baseava-se em dois critérios, qualidade do jogador e o seu grau de amizade com os capitães de equipa. Por isso, o momento da escolha era afiinal a expressão da hierarquia social dentro da turma. Inevitavelmente, eram sempre os mesmos a serem escolhidos em último, o refugo. O último de todos, amargurado, muitas vezes já nem queria jogar. O jogo futebol não era só importante enquanto elemento na definição da hierarquia social, mas também era precedido pelo ritual onde essa hierarquia se representava e exibia perante todos. Era ali que a sociedade masculina da turma se pensava enquanto estrutura hierarquizada.



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