Mamas e os seus teóricos: O decote como espaço de adivinhação cultural

A América ficou chocada com a exibição do mamilo de Janet Jackson! A Charlotte abisma com a falta de bronze da mama, o Homem a Dias ficou ofendido por não ter visto a transmissão. As hipocrisias acerca do lugar do sexo na cultura pop e na sociedade americana são bem salientadas por M. Vale de Almeida. Às vezes dou por mim a teorizar sobre coisas que não interessam a ninguém, devo confessar que nada é mais reconfortante do que ver (literalmente) um tema da análise ganhar relevância. Incorrendo no mau gosto de me citar, deixo-vos com a transcrição integral de um post que escrevi a 7 de agosto. Este texto confirma a tese que o vislumbre de um decote é em si uma forma de profecia, uma forma de adivinhação Não tenhamos dúvidas, os seios vestidos ou semi-despidos são as conchas em que muitos procuram prescrutar mundos ocultos. As mamas que moram debaixo de um decote são apenas uma das modalidades possíveis das mamas construídas projectivamente.

"Tenho amadurecido uma instigante reflexão em torno da exposiçao pública de seios - não se trata de uma obsessão infantil, mas de um questionamento que, creio, se reveste da algum relevo (a palavra é contextual).

A questão pode-se sintetizar assim: Porque é que a catarina Furtado não apresenta a operação triunfo de topless?

O que eu quero por a nu com esta interrogação provocatória parte do que vamos assistindo nas nossas televisões: uma evocação dos decotes medievais.

Senão, obeserve-se a já referida apresentadora, a Alexandra Lencastre, a Figueiras, a Isabel Angelino e (pasme-se) a Serenela Andrade. Um olhar inspectivo logo se apercebe das complexas engenharias de costura que permitem algo surpreendente: que 94% do seio fique de fora. Perguntarão: será que isto significa que rompemos com um tabu social nesse tipo de programas, ainda mais com figuras cuja carreira depende de um relativo nível de contenção corporal (excepção feita à figueiras)?

Creio que não!

A norma social que desvelo parece ser bastante clara: Pode-se mostrar a quase totalidade do seio desde que a auréola do mamilo permaneça oculta.


A forma estrita como assisto a esta prescrição ser cumprida leva-me a colocar 3 hipóteses:
1- O que se encontra no interior da aueréola do mamilo representa a mama como um todo, epitomiza-a de tal modo que, ao ser posta debaixo do tecido, equivale a que toda a mama esteja simbolicamente oculta.
2- A área cincunscrita pela auréola do mamilo detém o estatuto de segredo pessoal. Corresponde a uma espécie de bilhete de identidade da mama, cuja revelação conduz ao perigo da fuga de informação.
3- Trata-se de uma demarcação entre o espaço privado e o espaço público. Na arena pública torna-se possível capitalizar a sensualidade da mama sem que com isso se ponha em causa o decoro e o recato dos campos da vida íntima. Neste caso a aueréola constitui um limite singular, um espaço liminar que, qual charneira, actua como limite simbólico entre dois mundos."

Janet trangrediu a fronteira que a auréola do mamilo insiste em constituir nas representações públicas da mama.



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