O Ultimato da Lasanha

Nelson, por favor desculpa! Desculpa! Afinal hoje não vou poder jantar contigo, sabes, é que…
─ Não quero saber! Já estou farto disto! Tão farto… É assim, se hoje não vieres, escusas de voltar a aparecer, escusas de telefonar, se hoje não vieres… está tudo terminado. Percebeste!?
Antes que Sara experimentasse uma palavra o telemóvel desligou-se solene. O orgulho calou-os. Passaram dois anos. Nunca mais se falaram. Nelson ficou sem saber as razões que enviaram a lasanha fria para o lixo. Que caralho de situação a terá arredado daquela mesa? (pergunta o narrador, que devo ser eu). “Tinha de ser!” Repete. Não se arrependerá do ultimato. Mas ainda sofre com o imperativo. “Tinha de ser!”
Naquela noite Sara não jantou. Com a televisão ligada ficou-se soturna a olhar para o tecto como quem vê impotente um naufrágio da costa. Submergindo também. Sem sequer vociferar um desespero. O porquê também lhe escapa, Sara ensaia-o há dois anos. Sem sucesso aparente.
Talvez adivinhasse que era Lasanha… É a dúvida que a tortura.



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