Magia em forma de ressaca

Estávamos por alturas da queima. Com alguma ressaca, acordei por alma de uma sirene desconhecida que ressoava pelo quarto. Desperto sempre com enigmas, mas dispensava a ruidosa urgência daquele. Até que lá percebi, tinha um telemóvel a mais na pochette de onde chamava, insistente, um tal de Anónimo. Não atendi, não conheço ninguém chamado Anónimo, e, mais importante, o telemóvel não era meu. Levantei-me vagaroso e após ter bebido uns quantos litros de água fiquei-me contemplativo a hidratar memórias.

Veio a tardinha, havia um jantar a que eu devia comparecer. Fui mais cedo para ir buscar o Tozé a casa, queria aproveitar para lhe devolver o despertador com alguns impropérios amistosos. Estacionei. Já caminhava tranquilo quando três crianças me pediram que deslocasse o carro, estava a perturbar logística de uma brincadeira. Consenti a gosto. Após a solícita manobra lembrei-me de lhes atirar com uma bola de futebol que trago sempre no banco de trás. Quando já íamos a abalar veio um deles a correr. Pesaroso, devolveu-me a pelota com toque artístico. Intentei uma habilidade; tocado pela sua gratidão, e sem que nenhum génio me sobreviesse, fiz-lhe um passe sugerindo que continuassem a jogar. Ele propôs mais, perguntou se podiam ir para um campo que ficava a uns quantos quarteirões dali. Não vacilei, disse que fossem e apontei para a janela do quarto do Tozé, podiam deixar ali a bola quando acabassem. Assim que entrámos no carro, fui posto perante um mais que provável adeus à redondinha. Respondi que não era importante.

No dia seguinte telefonou o Tozé a contar-me as incidências de mais uma noite atribulada. As histórias insólitas sucediam-se, por fim lá se despediu. Eu também não perguntei. Encontrei-o uma semana depois, lembrou-me que fosse buscar a bola que, pelos vistos, havia anoitecido no quarto dele. Não disfarcei o deslumbre pela nova.
A bola que tenho hoje no banco de trás da 4L é, para mim, uma bela expressão da inabalável fé no trânsito perpétuo de dádivas inesperadas. A desconfiança e o cepticismo antropológico podem ser uma forma de prudência na vida social. Somos enculturados nessa lei de sobrevivência, será um dia triste quando acreditarmos nela tão completamente.



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