Lugares de Hospedagem

Coração peregrino. A designação foi-me imputada no breve desvio de uma conversa. Eu, um coração peregrino?! Fiquei a pensar no assunto. Não alcancei paz senão horas depois. O que faz um peregrino na leitura tradicional é a perseverança, um sentido de fim, a busca de um lugar sacro no horizonte, uma meta a ser alcançada ainda que contra a dor. Mas essa leitura, creio, não dá conta da angústia matricial que acompanha uma tal viagem. Tento então outra leitura, uma onde a singularidade do peregrino está na sua relação para com o conforto dos lugares de hospedagem. Sabemo-lo. A condição de viajante suscita acolhimento, desperta o fascínio da itinerância, supõe esse desterrado em busca de abraços. Mas, viver esse acolhimento, pulsar esse fascínio, é, para o peregrino, a tentação de ser outra coisa, é o irresistível desejo de ficar. Acredito que a condição peregrina tem muito menos a ver com a certeza de um propósito do que com a insolúvel premência dos lugares que se deixam para trás. Aí, meu delator, talvez tivesses razão. Talvez sejamos muitos.



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