Gestos e os seus cativos

Tudo começou com um Antologia organizada por Vasco Graça Moura oferecida no Natal. 366 poemas de amor. Laura lia um poema no metro e lembrou-se do Avatares, disse-mo num mail. Só a imagem já me comove. No Metro, numa das representeções excelentes do mais puro quotidiano, clama-se pela contaminação da poesia, evoca-se um insuspeito. Tudo isto, imagino, entrecortado por uma voz a anunciar a paragem do Saldanha ou a mudança para a linha verde. Tudo isto pensou Laura nos subterrâneos da cidade. Ah... e o poema?, delicioso..., Manuel António Pina, os gestos encantatórios:

"Café do Molhe

Perguntavas-me
(ou talvez não tenhas sido
tu, mas só a ti
naquele tempo eu ouvia)

porquê a poesia
e não outra coisa qualquer:
a filosofia, o futebol, alguma mulher?
Eu não sabia

que a resposta estava
numa certa estrofe de
um certo poema de
Frei Luis de Léon que Poe

(acho que era Poe)
conhecia de cor;
em castelhano e tudo.
Porém se o soubesse

de pouco me teria
então servido, ou de nada.
Porque estavas inclinada
de um modo tão perfeito

sobre a mesa
e o meu coração batia
tão infundadamente no teu peito
sob a tua blusa acesa

que tudo o que soubesse não o saberia.
Hoje sei: escrevo
contra aquilo de que me lembro,
essa tarde parada, por exemplo."




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