Entre freiras

Há coisas destas. Hoje estive a falar de globalização a 100 freiras. Quem me convidou sugeriu-me um desafio que me fez hesitar, não dei corda aos preconceitos e avancei curioso. Isto de freiras depende muito das congregações. Há-as como as Carmelitas, onde está a irmã Lúcia, a vidente de Fátima, que nem sequer pôde falar ao telefone com a mãe na hora da sua morte, e há-as a milhas do imaginário que nos ficou da Religiosa de Diderot.

Aquela congregação para onde falei parece ser muito aberta, aliás, como o faria supor o evento que organizaram a fim de poderem ouvir outras perspectivas menos religiosamente depuradas. Na qualidade de leigo, ciente de uma a figura pouco "domesticada", entregue um público com uma média de 60 anos, confesso que estava um pouco temeroso, ainda mais porque a apresentação nunca se distanciou de questões eminentemente políticas e das perplexidades que marcam a construção deste mundo. Havia ainda o pormenor de eu falar ao domingo de manhã, a hora da semana em que habitualmente um padre assume a palavra. O acolhimento foi surpreendente, algumas mais estudiosas logo começaram a falar do seu fascínio pela Antropologia, pela Antropologia filosófica.

Encontrei algumas das irmãs no autocarro de volta e estivemos em amena cavaqueira a dissecar a minha apresentação e a falar das vidas delas em lares, hospitais e colégios por todo o país, das suas terras de origem e percursos de vida, das poucas noviças que agora aparecem, dos seus projectos de trabalho em comunidade, etc. Depois de um magote de irmãs me despedir amavelmente na estação fiquei-me a pensar como as vidas vistas por dentro fazem sempre mais sentido, um sentido que de algum modo se esgota nas lógicas institucionais e no julgamento que delas possamos fazer.



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