O amor é uma ilusão visual

O amor é uma ilusão visual.


Esta é uma tese muito desacraditada entre quem conhece o fenómeno de perto. Segundo consta, uma percentagem assinalável dos estudiosos. No entanto, um argumento de monta desta teorização vem dos pós-traumatizados (os que vêem a coisa ao longe). No entender destes o amor é de facto uma ilusão visual, mas uma ilusão rara. Alegam que é uma construção óptica tão laboriosa que resiste a sucessivas mudanças de perspectiva, e, sobretudo, a muitos pontos de fuga. Embora este argumento tenha muitos adeptos tem sido pouco aceite: denuncia-se nos pós-traumatizados uma distância excessiva para com o tema em análise. Acusação a que estes tendem a responder com profético cinismo: "Ainda vais ver que não é bem assim". Enfim, deixá-los!, questões de perspectiva...

Para lá da homofobia?

A partir do texto Sintoma Blogosfério despoletou-se um interessante debate acerca do maior ou menor fechamento de um blog tematicamente gay. A coisa começou nos comentários e foi seguindo acesa entre o No Arame e o Renas e Veados (o tal "blogue gay", a expressão veado vem da designação pejorativa com que os brasileiros designavam as pessoas homossexuais: virado).
A conversa tem sido instrutiva, como muito instrutivo é o texto com que o Tro.Blog.Dita desconstrói os suas próprias pré-concepções homofóbicas: "Nesse blogue [Renas e Veados] li um post que comentava o facto de habitualmente publicar fotografias de homens nus a trocar carinhos. E terá sido isso que me ficou na cabeça a me fez não pensar no Renas e Veados? Provavelmente." É este tipo de construção honesta dos fantasmas que a nossa cultura nos lega que permite um efectivo alargamento de sentido, algo que um link não faz mais que prefigurar simbolicamente.

Acabou!... prometes?

Confesso que é com um certo alívio que eu acolho o fim da Coimbra Capital Nacional da Cultura. Já estava farto de sofrer por faltar a eventos culturais sumamente interesantes. Cansa-me o culto do "eu estive lá!". Sobretudo quando não estive... A minha dedicada displicência volta a receber uma merecida paz. E isso é bom.

Mensagens de amor posto em tempos de "Boas Festas"

Há alguém a quem isto não suceda?
N'O Melhor Anjo
"Uma das dificuldades das datas festivas é o papel a atribuir aos/às ex-amantes. Uma simples, seca e indiferenciada mensagem ou algo que seja provocatório, ambíguo, nostálgico...Seja pelos aniversários ou o Natal e Ano Novo, sobra-nos sempre esta questão: como lidar com as antigas paixões em tempos de reconciliação e paz na terra?"

Poucos são aqueles a quem estas questões não se colocam em tempos de comemoração colectiva.
Pessoalmente acho muito estranho que alguém se sirva de uma mensagem modelo para desejar boas festas a um ex-namorado. A expressão ex-namorada/o é em si banalizante, o termo ex faz supor um fim e uma sucesão natural. Mas, as exs, queiramos ou não, umas mais outras menos, tendem a ser biograficamente significativas. As mensagens de Natal estandardizadas funcionam muitas vezes como uma forma de revisionismo, uma forma de dizer que o passado não aconteceu. Outras vezes operam como um pretexto nostálgico, como uma justificação para se veicular o calado desejo de voltar atrás. Uma mensagem que apenas diz "Feliz Natal" pode ser o produto de uma laboriosa negociação com a memória. Também há que saber ler isso.

O sintoma blogosférico

Por uma série de razões, a sociedade portuguesa não prima pela capacidade dos grupos marginalizados emergirem da sociedade civil sob formas de mobilização passíveis de reverterem os valores e as estruturas que sustentam um status quo que é a diversos níveis opressivo.

Havendo entre os blogues aqueles que se assumem como temáticos, pressinto nesse espaço um vazio que de algum modo faz com que a blogosfera espelhe bem essa fragilidade social. Digo isto porque existe uma ausência - pelo menos em termos mais mediáticos- de blogues que se assumam como referência de algumas bandeiras, que se tornem vozes ouvidas. Um blogue gay, um blogue feminista, um blogue anti-racista, um blogue que dê voz aos direitos dos imigrantes, das pessoas com deficiência, dos desempregados, etc. Certamente que a falta de notoriedade destas bandeiras dará lugar a sorrisos cínicos a parte de alguns. No entanto eu acredito que a nossa visão da realidade, e a própria realidade, se empobrece quando estas reflexividades informadas não são postas no primeiro plano da discussão.

Em nome do corpo? Dilemas da maternidade/paternidade

Existe na nossa história um longo rosário acerca dos usos de argumentos biológicos para justificar modos de vida. Numa conversa uma amiga minha justificava a sua necessidade de casar e ter flhos. Dizia-me ela que o corpo de uma mulher está adpatado para que, em termos ideiais, o primeiro filho ocorra antes dos 28 anos. Mais, ela contou-me que a intensidade do síndrome pré-mentrual tende a ampliar-se com a aproximação dessa idade se até então o corpo não for usado para fins reprodutivos.
Confesso, eu tive um dilema próximo deste que ia alterando o meu modus vivendi. Em tempos uma médica disse-me que os banhos de imersão prejudicam a produção de espermatozóides pela temperatura a que sujeitam os testículos. Felizmente não me abalou por aí além, da minha parte, sempre que posso, levo o rádio e lá vou eu para a casa de banho pôr-me de molho em profunda meditação.

Mas, falando mais sério, imagino como o que pensará o namorado da minha amiga quando confrontado com estes imperativos. Será apenas a ciência médica ao serviço das estruturas basilares da sociedade? Ou este é um clássico que de vez em quando tem que ser reequacionado em nome do corpo? Pergunto: Estamos perante questões que devem fazer as mulheres e seus parceiros (caso haja) pensar? Ou a pertinência destes dados não é tal deva orientar um projecto de vida?


Jesus revela-se à samaritana

Segundo alguns teólogos terá sido uma mulher de Samaria a primeira a ouvir da boca de Jesus a confirmação de que ele era o esperado, o Messias:

"E estava ali a fonte de Jacó. Jesus, pois, cansado do caminho, assentou-se assim junto da fonte. Era isto quase à hora sexta.
Veio uma mulher de Samaria tirar água. Disse-lhe Jesus: Dá-me de beber. (...)
A mulher disse-lhe: Eu sei que o Messias (que se chama o Cristo) vem; quando ele vier, nos anunciará tudo.
Jesus disse-lhe: Eu o sou, eu que falo contigo"


João 4:6-26

Caras, caros, um Feliz Natal

Custam-me as frases incessantemente repetidas. Mas depois olho para o telemóvel, dorido por não poder guardar tantas mensagens que me tocam. Muitas delas dizem apenas Feliz Natal. Aqueles que só traficam com a originalidade às vezes esquecem que um dito sincero e honesto - assim o seja - pode e deve ser mil vezes repetido. ("quantas vezes ela lhe disse amo-te?"). A vocês, que por aqui passam (muit@s há muito tempo), àqueles que por aí leio, Desejo um Feliz Natal. Possam "dormir quentinh@s" de afectos e coisas e boas.

O Romantismo como predação

A "hermenêutica da suspeita" é um conceito que Paul Ricouer celebrizou. Realizar a hermenêutica da suspeita é olhar para os textos e para os eventos como se houvesse sempre neles algo de escondido que explicasse a sua existência. Por exemplo, numa perspectiva marxista exercer sobre o estado uma HDS é olhar para o modo como ele se perpetua servindo as classes privilegiadas.

Bem deixemo-nos de sermões. Apenas quero dizer que por estes tempos as pessoas que assumem um ser/estar romântico estão sujeitas a uma hermenêutica da suspeita que as vê como meros predadores - se bem que mais sofisticados. Ou seja, à luz de tais suspeitas, um sujeito romântico é alguém em quem não se pode acreditar, é apenas uma alma que realiza a sedução em câmara lenta. Aqui paga o justo pelo pecador, as excepções são subsumidas à regra . Toda a gente passa a desconfiar que haverá algo de predadatório no encanto que nos encanta. Evitar defensivamente o encanto tornou-se uma forma de sobrevivência numa época pós-romântica. Acho que isso faz mal a muita gente (os estados neo-liberais também).

Barretes de Natal e a Justiça Popular

Em quase todas as culturas há, por esta época, festividades que assinalam o solestício. Historicamnete, nós vestimos esse momento cosmológico com o Nascimento de Jesus. Mas fizémos mais, vestimos o operariado com aquele que se tornou o estranho ícone desse nascimento. Não sei se já entraram num supermercado ou numa loja por estes dias, verifico que muitos funcionários - por exemplo os caixas do pingo doce - envergam barretes do Pai Natal. Imagino que nem todos achem muita graça a ter que trabalhar com um barrete na cabeça, imagino que não tenham muito espaço de manobra para recusar usá-los, há nisto uma evidente coacção. O tribunal europeu dos direitos humanos deve ser chamado a apreciar estes pequenos atentados à dignidade humana feitos a pretexto de um Natal mais humano e fraterno.
Um amigo meu fotojornalista foi há dias cobrir um evento local. O tema da peça era: "Pai Natal vandalizado junto à rotunda da Makro". Não me surpreendia se tivesse sido um caixa do Pingo Doce.

Honraria

Finalmente consegui dar uma olhada no livro que Paulo Querido e Luís Ene escreveram acerca dos Blogs. Fui na diagonal, parei na entrevista de João Nogueira do Socioblogue. Este, quando questionado acerca das suas fontes de inspiração na Blogosfera nomeou o Abrupto de Pacheco Pereira, o Os Tempos que Correm de Miguel Vale de Almeida e - abismem - o Avatares de um desejo deste vosso. Está tudo em livro! Por uma vez senti aquilo que Secretário vivenciou quando jogou no Real Madrid. Obrigado João.

Estigma

Viver projectando, respeitando e cuidadando a cada passo os sentimentos de outrem obriga a muitas cabeçadas na parede. As cicatrizes também identificam aqueles que acreditam num conceito intersubjectivo de bem.

José Mourinho, o fingidor


Fernando Santos, após uma dura derrota, disse na conferência imprensa que não tem dormido, sente-se desanimado, mas sabe tem que levantar a cabeça para passar confiança aos jogadores. Este tipo de discurso parte do princípio que os jogadores só existem no campo e não ouvem as conferências de imprensa. O que José Mourinho nos ensina é que a confiança tem que se fingir mais completamente. É a este poder que Michel Foucault chama "regime de verdade".

Os jantares de Natal: um drama de época.

Há um certo conceito de notoriedade social que se por estes tempos é activado. O envolvimento dos sujeitos no tecido de relações verifica-se pelo número de jantares de natal a que não se consegue ir. É o jantar da associação cultural e recreativa, do clube de ténis, do pessoal do trabalho, do curso, da malta que frequenta o café mar e sol, dos escuteiros, do pessoal que joga à bola, da tertúlia do Foucault, da troca de casais, dos blogues de Figueiró dos vinhos, da associação teatral, do conservatório, da revista gay, etc. Para quem tem muitas frentes de sociabilidade surgem inevitáveis incompatibilidades, recusar jantares é a norma, um sinal de prestígio para alguns. Por isso há quem se mostre indisponível para o único convite que recebe inventando outras solicitações. Ah! E depois há a inevitável troca de prendas que normalmente obedece a um sorteio onde a dúvida é saber se fica com ferreros ou mon cherry! São momentos de puro suspense.
Os jantares de natal são uma instituição social dramática, ali se ritulizam as lealdades múltiplas. A consoada é o apogeu destas tensões, que o digam os genros e as noras entregues a processos de escolha dilacerantes. Sem ironias. Nutrir relações, ainda que com espírito de missão, ainda que isso implique a submissão a práticas ritualizadas, é bela forma de ser socialmente. Admiro-a. Acho apenas que não devemos esquecer as perguntas simples: "e tu, que fazes logo à noite?"

O cafageste

Há pouco tempo escrevi aqui um post pessoal longamente maturado: A sedução como desígnio. Nele proponho uma analogia biograficamente informada entre as práticas de sedução e as lógicas que contrapõem os jogadores número 9 e 10 no futebol. O cafageste, inspirado por esse texto, evoca uma prosa onde se discorrem as similaridades entre o sexo e o futebol. O registo é provacatório, consonante com o nome do blog. Em todo o caso, eu, que só me sinto avalizado para falar de futebol, mas já vi alguns filmes, não deixei de estranhar a ausência de uma comparação entre o sexo oral e aquele momento mítico em que @ jogador@ beija a bola antes de marcar o livre decisivo. Mas isso também já seria muito pipiano, por isso não disse nada.

Imagem

Daniel Oliveira fala-nos do PP como o escorpião no dorso de um país. Bela imagem, até com o fado joga.
Mas, já que estamos numa de acabar com hipocrisias, porque é que eles não assumem que Paulo Portas é, na prática, o nosso primeiro ministro. Uma coisa é certa, vai ficando clara a vocação de Durão Barroso para ser marioneta de coligações, da coligação "contra o terror", da coligação Paulo Portista. Não há que criticar, é mesmo uma questão de natureza. Respeitem isso.

Que assim durmas

Há dizeres que nos ficam. Fazia eu trabalho de campo. Havia um senhor que frequentemente vinha ter comigo. Falávamos muito, sobretudo ele. Contava-me as suas histórias, os seus anseios, desgraças e frustrações. Gostava muito de mim, por isso volta e meia oferecia-me uma amêndoa amarga. Custava-me a aceitar, sabia da sua vida, das condições muito precárias que enfrentava dia após dia, tendo que sustentar uma mulher e uma filha portadoras de deficiência. Ficava ofendido se eu recusava ou se me propunha a pagar, por isso lá íamos bebendo uns momentos às suas custas. Um dia convidei-o para um copo, alegou que eu era um estudante e que ainda não era chegada a minha hora de pagar. Inventei uma comemoração, aceitou. Ele tinha algo para me contar, estava entusiasmado, deliciado da vida, quem o visse pensaria que tinha ganho a lotaria. Mas não:
Estou feliz, estou bem. Sabe, ontem fiz anos de casado. Mandámos vir uns frangos, havia para lá bebidas, estava a família, a pequena ficou até mais tarde... Comi do melhor, bebi bem, e dei muitos beijnhos à minha mulher. Olhe, só lhe digo... Dormi quentinho.

Epifanias

Revi a espaços o filme que passou no canal 1: Monsters Ball . Em traços largos conta-se a história de um homem racista que após a morte do seu filho se converte ao amor de uma mulher negra, Halle Berry.
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A minha questão é que a atriz é mal escolhida. Nunca a persistência de uma ideologia ou de um modo de vida pode ser pensada por contraponto a lógicas sobre-humanas. Às suas epifanias. Assim o argumento perde. Com Halle Berry no lugar de Eva Braun até Hitler teria cantado gospel.

Olhares...

Um olhar de Juliette Binoche e o opiniondesmaker fica à beira de uma conversão xamânica à Antropologia. Caro, a minha escolha de Licenciatura obedeceu a um milagre muito parecido, só já não me lembro quem me olhou naquela noite.

O desconforto dos anti-guerra vem de longe

O Jaquinzinhos encontrou neste blogue a melhor desculpa para desconstruir a euforia da captura do Saddam. Obrigado. De facto preferia que Saddam estivesse no buraco até às eleições americanas ou que se tornasse num sem-abrigo para o resto da vida, a ver aumentados os riscos de viver mais anos num mundo Bushiano. Mas também percebo algo mais nos sorrisos amarelos que se denunciam nas hostes dos que foram contra a guerra. Há, sem dúvida, uma estranha perversidade quando tomamos partido em opções estratégico-políticas. Mais ou menos inconscientemente, desejamos que a realidade confirme as nossas previsões, queremos estar certos. Infelizmente o Iraque tem confirmado tudo (e mais) o que disseram as oposições à guerra unilateral: a ausência de armas de destruição massiva, o estabelecimento de laços entre os ex-militares iraquianos e a al-quaeda, o fim do multi-lateralismo anti-terrorista e um renovado suporte discursivo para o fundamentalismo islâmico. Eu sei que não posso desejar que as minhas previsões se confirmem, elas previam que a guerra nos termos em que foi empreendida seria o pior dos caminhos. Só posso desejar que os planos d'outrem saiam certo, e que a democracia no iraque e a luta contra o terrorismo no mundo vençam. Alojados que estamos todos na lógica de Bush e seus vassalos, muitos como eu vêem-se a desejar algo que não conseguem acreditar. Esta é uma posição desconfortável que tentámos evitar enquanto era tempo. Prefiro o desconforto que assume em mim esta estranha fé no porvir à certeza de que me fundei em mentiras em que nunca ninguém acreditou.

Apelo

A beleza terrorista é aquela de matriz profundamente libidinal que a atenta à nossa integridade. É a que detém maior prestígio no nosso paradigma cultural.
Nestes tempos sabe bem dar lugar a outras configurações mais contemplativas do belo. Meditar, pois.
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Uma pergunta estúpida.

A pergunta é estúpida, mas ela não resistiu:
Serias capaz de amar alguém que defendesse a lógica de Bush para o mundo?

Por favor: uma música de urgência

Nos lugares da noite não é incomum ver-se alguém chorar incontidamente. São cenas que nos podem comover, mas muitas vezes mais não fazem do que despoletar em alguns uma frieza cínica: "bebesses menos!". Sempre que alguém chora numa discoteca, num bar, ou, mais frequentemente, à porta de um e de outro sítio, o álcool é indiciado com o principal culpado. Já as facções minoritárias dos exegetas da noite viram-se para a natureza precária das relações sociais: "o gajo deixou-a, os homens são mesmo cabrões", "a gaja estava no lambe-lambe com outro, são todas umas putas". Poucos atentam no principal factor destes eventos lacrimosos. Falo, claro, do DJ; quase sempre a culpa é do DJ. Explico.

A irresponsabilidade parte mormente deles, inconscientes, labutam afincadamente pondo música de acordo com as suas preferências melódicas, atendendo, ocasionalmente, aos pedidos de umas babes mais convincentes. Raras vezes equacionam que a sua playlist é também uma retro-escavadora perigosa, uma escavadora de memórias. Há já algum tempo uma conhecida minha pôs-se a chorar lembrando o ex., carpindo um desgosto saudoso. Todos perguntavam se queria vomitar, o que tinha bebido, etc. Poucos reparam que na altura tocava uma música de Rui Veloso que no seu choroso timbre cantava o Porto. Nada mais nada menos do que a terra do ex em causa. Enquanto alguns se acotovelavam sacando de lenços de papel, ou comprando águas das pedras ao balcão, dirigi-me ao Dj, instando-o a que trocasse urgentemente de música. Alma sensível, numa passagem brilhante concedeu Shakira. Mas já era tarde demais. A impunidade dos Djs tem que ser avaliada à luz dos novos desenvolvimentos na cultura da noite.

Histórico

Neste momento de justificada euforia peso as consequências para o futuro do mundo: sem hipocrisias lamentarei se a captura de Saddam Hussein contribuir para a re-eleição de George Bush. A detecção de um vil tirano é de saudar por uma questão de justiça, mas, sinceramente, não acredito no perigo que ele pudesse constituir escondido em Tikrit (ainda que tivesse um papel simbólico para a resistência). É no re-investimento da jornada heróica do texano eu vejo um real perigo para o mundo. Perdoem a estratégica fallta de comoção.
(bolas, eu que estava a ver se não empurrava a Juliette para baixo)

O lobby perfumeiro.

Os "dois beijinhos" são uma convenção social criada pela indústria da perfumaria. O facto de na mais estrita cordialidade nos cheirarmos ritualmente uns aos outros junto ao pescoço é motivo de sobra para induzir a compra. Há quem goste de perfumes e prefira não dar beijinhos, é raro. As fragâncias para mulher vendem mais porque elas também se beijam umas às outras. Não surpreende que a a indústria da perfumaria lute pela generalização dos dois beijinhos: também eles sabem que a homofobia traz prejuízos.

Juliette

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Menos nos filmes do que na vida, padeço de um mal, só olhares tristes me fazem cativo. E como...

"A alegria é o mais vulgar ornamento da beleza, a melancolia a sua mais ilustre companheira"

Baudelaire

A voz das mulheres islâmicas

Diz CAA do mata-mouros sobre a atribuição do Nobel a Shirin Ebadi: "Depois desta encenação toda, expelir um discurso radical contra o Grande Satã Americano na linha do que qualquer Ayathola que se preze teria vociferado nas mesmas circunstâncias."

Não será isto a mais acabada expressão de uma visão maniqueísta do mundo, investida numa demarcação única entre o eixo do mal e a América contra o terror? Surpreende assim tanto que alguém possa estar contra regimes fundamentalistas e contra os Estados Unidos? A evangelização da democracia a la Bush opera uma cristalização identitária nas lógicas muçulmanas extremistas e oposicionais, inflama a diferença*, retirando espaço discursivo a quem legitimamente luta pela igualdade de direitos, pela expansão democrática e - abismem- se opõe ao imperialismo Ocidental.

Será tão difícil de entender?

*Deniz Kandyoti lembra que em muitas sociedades islâmicas as formas de regulação sobre as mulheres, sobretudo ao nível da segregação espacial, foram exacerbadas no decurso do encontro com o imperialismo moderno ocidental, fazendo com que as afirmações de autenticidade e de visibilização da diferença se dessem muitas vezes às expensas do silenciamento das mulheres.

Kandiyoti, Deniz, 1995, “Reflections on the Politics of Gender in Muslim Societies: From Nairobi to Bejing”, in Afkhami, Mahnaz (org), Faith and Freedom: Women´s Human Rights in the Muslim World, Syracuse University Press, Nova Iorque.

Quem (nos) manda?

"─ Acaba lá com isso, ó coração!"
(Álvaro de Campos, Barrow-On-Furness)

"[O] mundo inteiro, sem dúvida, não é um palco, mas não é fácil concretizar os modos decisivos que fazem com que não o seja"
(Erving Goffman, A Apresentação do Eu na Vida de Todos os Dias).

Delírios

Foi então que ele encontrou o ensejo para replicar com a frase que há tanto o esperava: "Eu trato da poesia e das bebidas".

Gestos

Maragarida Rebelo Pinto suscita declarações choque. Primeiro a 100 nada num acto de coragem (sim, o ambiente é blogosférico tal exige) afirma permptória: "Eu gosto da Margarida Rebelo Pinto. Pronto está dito." Estava dado o mote para os seus leitores sairem do armário. Depois, numa mais que curiosa revelação, o semiólogo e romancista Luís Carmelo, o miniscente, conta que vai fazer de Margarida Rebelo Pinto uma personagem do seu próximo romance.
Quero deixar aqui a minha gratidão pelo que me ensinaram acerca das tensões que podem assistir à decisão de amamentação. (ensinaram-me via comentários e mails, bem entendido).
A Borboleta acolhe com rara honraria o post sobre o Jardim Botânico. Resta-me repor alguma modéstia acrescentando que se trata de uma coimbrã, suspeita, portanto.
Assinalo uma descoberta tão "familiar" quanto insuspeita:Palombella Rossa
O JMF das Terras de Nunca dedica a este blogue um apontamento sobre a fruição sexual nas escadas rolantes. Eu confesso o gesto mais delicioso que encontro no feminino anónimo (perdoem, este obriga mesmo a uma distinção de género). Acontece quando alguma ela se senta numa cadeira à nossa frente, e, uma vez instalada, tira o casaco com vagar. Reparem, atentem, este prosaico movimento obriga a um leve arquear das costas, revelador da vanguarda. Sublime e subtil. Ao princípio este gesto encantava-me pelo doce assomar de relevos na camisola, pelos ombros dobrados para trás. Depois tornou-se um encanto pelo gesto, sem centrismos. Às vezes, encanto-me por gestos.

O Orgasmo enquanto representação da impermanência

Para o Budismo, o orgasmo emerge como a representação carnal de que a crença eternidade é uma ilusão. Os Budistas defendem um desapego às coisas da vida, um esvaziamento (Sunnyata) capaz de nos colocar num patamar de depojamento total (Nirvana). Neste sentido a ilusão do orgasmo estaria associada àquele momento mágico em que se acredita na infinitude, na imensidão, na eternidade, no amor, vividos num aleph sensual de arreigações múltiplas. Mas o ocaso do orgasmo, esse sim, seria o fim da ilusão, a descida ao mundo das coisas que transitam e onde também nós devemos transitar sem desejo, sem sentimento de posse, sem ilusão da permanência. À luz desta leitura, a escatologia cristã, com sua crença na eternidade, é profundamente orgástica. Já a filosofia budista desvela-se como pós-orgástica.

Vagabundagem, disse ele

o J.M.F. do Terras do Nunca, falando de um certo diletantismo (do It. dilettante, que deleita ou se deleita) dos últimos dias, diz-nos que a noção de vagabundagem é a que melhor descreve os ritmos e vontades de quem escreve num blog. Caríssimo, acho que esse será porventura um wishful thinking que, no íntimo, certamente terás que contrapor à ideia, excessiva, vinda da linguagem dos amores, de que "Também tu ficas eternamente responsável pelas pessoas que cativas". Embora não acredite em tal, se eu quisesse ser provocativo diria que esta é a responsabilidade social de um blogger. (Como disse, não acredito nisso.) Mas, conforme teorizei aqui , dificilmente será só vagabundagem. Já nos amores acredito nessa responsabilidade...

O Fenómeno Margarida Rebelo Pinto

A ser verdade que todos os adolescentes têm a clássica fantasia com uma mulher mais velha, creio que em Portugal a figura mais recorrentemente evocada será a de Margarida Rebelo Pinto. Para além das centenas de milhares de livros vendidos, para mim isso é suficiente para falar de um fenómeno.
Margarida Rebelo Pinto foi em tempos ao Livro Aberto, o programa de Francisco José Viegas, e o simples convite que ali a levou valeu algumas críticas por parte dos "escritores a sério". Sabemo-lo, há muito de ciumeira para com as suas assombrosas tiragens. Embora nunca a tenha lido, menos por preconceito de que por falta de tempo, gostei de ver a senhora falar no tal programa. Naquela entrevista mostrava ter a noção daquilo que se diz sobre ela, assumindo um discurso da celebração do Pop, nada pretensioso, colocando-se assumidamente fora da lógica da literatura intelectual. Apreciei particularmente quando ela se insinuou sedutoramente ao entrevistador, que, impreparado para tal desenvoltura, ainda ficou uns segundos a recuperar o norte. O momento menos bom foi mesmo quando ela recentemente se confessou admiradora de Santana Lopes e Paulo Portas. Logo quando eu estava a baixar as defesas... Não sei se já leram, mas se não, aconselho. Falo do soberbo artigo em que Pedro Mexia vem em "defesa" de Margarida Rebelo Pinto. O texto é brilhante, sobretudo pela retórica empregue na paternalista apologia da autora: "não se trata exactamente de literatura, mas de Margarida Rebelo Pinto. Não escreveria sobre Margarida na minha coluna de crítica porque penso que a pobreza da escrita, da linguagem, da construção, bem como a total inexistência de ideias, fazem com que não se trate propriamente de literatura. O fenómeno Margarida tem interesse indesmentível, mas para a sociologia. ...Os brasileiros, nisso, são de uma honestidade tocante, e preferem sempre umas boas nádegas a um bom narratário.... Fico sempre espantado com as reacções negativas que Margarida suscita." Enfim, não sei se este texto vai mesmo valer um processo em tribunal, mas, caso assim seja, acho que alguma televisão deveria comprar os direitos. Fico curioso de saber se FJV seria testemunha de defesa ou de acusação. Que diria ele quando confrontado com a pergunta: "É literatura?"

Amamentar ou não amamentar?

Seriamente, penso vir a dizer algo sobre o aborto, mas por ora vou-me ficar por tema mais light. Amamentar ou não amamentar? Um dia, numa soalheira esplanada de primavera, assisti a uma insólita discussão. Num mesmo momento, duas conhecidas minhas tinham colocado em cima da mesa o futuro dos filhos e das suas mamas. Arredei as chávenas de café e fiquei-me a ouvir. Uma dizia que fazia questão em amamentar os seus rebentos, afirmava que não poderia prescindir de uma das mais belas experiência da maternidade, ainda que a qualidade erótica dos seus seios viesse a ser prejudicada. A outra afirmava lamentar profundamente, mas que sabia qual era o pernicioso efeito estético de dar leite a um bebé, adivinhava-o, as suas mamas jamais seriam as mesmas, e isso era uma ideia com que ela não conseguia decididamente transigir. Não tomei partido, limitei-me a colocar uma pergunta a cada uma, ambas profundamente provocatórias. À primeira perguntei se o desprendimento em relação às suas mamas partia do postulado que, na altura em que tivesse um filho, o factor atracção seria menos importante, uma vez que aí já estaria implícito um marido assegurado. À segunda perguntei se o objectivo era amamentar com níveis elevados de qualidade os mais crescidos em detrimento dos bebés. As minhas perguntas foram demagógicas, mas a discussão saiu beneficiada. Já agora, nesse cenário duplamente hipotético de ter filhos e ser mulher eu acho que amamentaria. Mas estas minhas projecções fantasiosas não esquecem que esta é uma decisão que cabe às futuras mães tomar. Uma decisão delicada, talvez?

As Nativas do Jardim

O Jardim Botânico de Coimbra é um espaço lindíssimo; a paredes-meias com a alta universitária, está decisivamente encrostado no coração simbólico da cidade. O mais fascinante é a penumbra que o constitui, uma vasta área fechada ao público, muitas vezes esquecida, que corresponde a cerca de 80% do total do verde não ardido (quando era mais novo assaltei esse mistério através de um interceptor, uma espécie de rua subterrânea das canalizações da cidade que parte ali da Rua da Alegria). Na sua insuspeita amplitude, o Botânico vai desde os Arcos do Jardim até ao rio que quase beija (como aquelas pessoas que quando dão dois beijinhos tocam os nossos lábios com os cantos da boca). Com as transformações climáticas que o mundo atravessa, aquele é hoje um dos poucos lugares em que essa ideia das estações ainda faz sentido, por exemplo, o Outono oferece uma decoração de exteriores que não lembraria à primavera, sempre tão arreigada às suas certezas. Mas falemos de quem por ali anda. Para além dos esquilos que realmente fazem daquilo a sua casa, os únicos roedores que nutrem daquele espaço mais do que uma passagem, são aqueles casais sôfregos, que trocaram a cama de uma pensão da Sé Velha pela discrição dos arvoredos. Neste caso, os ramos afectos ao vento mais não são do que as cortinas que velam o desejo. Quando falo dos roedores não abraço a pluralidade dos casais enamorados, falo apenas da prática ritual de preliminares nos bancos do jardim. Na verdade, nada mais belo do que ver os pares em franco enamoramento, colhendo do chão as folhas de plátano, para mais tarde recordar, adivinhando, creio, esse insólito de uma memoração solitária. É esse o evento que mais me comove desde que tirei umas tardes para etnografar os usos afectivos de uma materialização do sublime natural. Para além dos roedores, das aves, dos casamentos em busca de fotos, das famílias domingueiras, há um espécie que se passeia há séculos pelas áleas do Jardim, aquela que assume a sua natividade em relação a uma identidade romântica, habitante daquele solo. Falo das solitárias (e dos solitários) que por ali erram, que longamente se sentam a ver o pôr do sol e a dar migalhas aos peixes, alojadas no ideário da saudade que Coimbra parece evocar. O que se torna interessante acolher é como esses itinerários cúmplices com os plátanos, se arvoram ao meu olhar como revisitações que falam de outras tardes. As solitárias que buscam a árvore das folhas, das folhas que há anos foram postas a secar no meio de um livro de poemas, essas são as nativas do jardim. A única espécie autóctone. Elas sabem-no: é ali que esconde o elo perdido de uma vida enterrada nos seus monumentos.

Ele não pode com homens bonitos!

Com a excepção de Kaka, o delírio das brasileiras, a selecção campeã do mundo de 2002 é consensualmente lembrada pela ausência de jogadores bonitos, uma singularidade histórica por terras de Vera Cruz. O critério de Scolari, apesar do título conquistado, nunca foi muito bem recebido. Havia suspeita de o senhor se reger por padrões estéticos ao formar o escrete. Sinceramente, tudo isto me parece um pouco milaborante, mas talvez resida aqui a explicação para o facto de Baía não poder ser convocado: Para Scolari, em selecções que ganham não entram homens bonitos. Eu sabia que havia uma razão...

E tu, que me dizes?

Em regime experimental, muitos meses postos desde o início deste blogue, dou lugar a um sistema de comentários. Elemento cuja prevalência é, segundo o Zé Mário, uma marca distintiva dos blogues de esquerda. Agradeço ao Água Tónica e Ginger Ale pelas dicas e alvíssaras. Confesso que hesitei por uma série de razões, no entanto, todas elas insuficientes perante o argumento democrático e a persuasão de que não seria justo apenas eu conhecer o feedback que possa haver em relação aos posts. O email permanece com o sigilo que determinadas notas queiram merecer, mas também como via para publicar alguns ditos sob a forma de post. Ademais, assim o technorati o permita, continuarei atento às réplicas que sempre vou recebendo de outros blogues.
Creio, espero, que este espaço se tenha tornado mais nosso.

Notas e uma questão (act.)

Partindo dos relógios sexuais de mulheres e homens o Tiago oferece novas perspectivas sobre a crise dos pós-23.
Na edição XIX da revista semanal Mata-mouros confere-me o prémio semanal de "melhor oportunidade", obrigado.
O Blog do piano escreve um simpático e original texto sobre a minha forma de estar à esquerda.
Ideias soltas são as minhas que já ia confundindo os blogs

P.s. Estimad@s, tenho pensado em pôr, à experiência, um sistema de comentários. Que acham? Como se faz? Qual é o melhor?

2000 anos para isto?

Uma pessoa esforça-se para apresentar teorias arrojadas, inventar conceitos, enfocar práticas sociais menos conhecidas, destabilizar as construções de género, evocar pós-colonialistas, idealistas, solipsistas, pós-modernistas, pós-estruturalistas, e depois verifica que o seu rasgo de excentricidade, afinal, é acreditar em Deus e gostar de ler os evangelhos. Bolas.

Canibalismo ritual

in Público "Agora podes ver o meu corpo. Espero que me aches saboroso". Segundo relata a AFP, Meiwes terá começado por cortar o pénis da vítima. Tostou-o e comeram-no juntos. A vítima terá dito depois que queria ser esquartejada. Mais um serão bem bem passado...

A sedução como desígnio

(às leitoras que me têm escrito dizendo "deixa-te disso", aviso: Este post não é sobre futebol)
Todos procuramos em certa medida, em determinados momentos, afirmarmo-nos como seres sedutores. Não trafico com aquela conversa da treta em que se estabelece uma oposição entre sermos nós mesmos ou sermos outrem para a agradar, a questão é que nos construímos enquanto entidades sociais, logo, a sedução, de diferentes formas, faz parte de nós, como nosso é o imperativo de existir socialmente.
Há tempos numa conversa saiu-me uma analogia que me parece preciosa para captar as diferentes formas de lidarmos com um tipo específico de sedução, aquele que normalmente se apodera da palavra, a sedução com carga sensual. Na altura fiquei incomodado por ter achado uma analogia que mete sensualidade e futebol ao barulho, uma mistura que configura uma lógica patriarcal caquéctica que procura negar o espectro da impotência que lhe subjaz. Mas não deixo de ver virtualidades heurísticas na coisa, por isso avanço. Falo no feminino, mas a coisa aplica-se aos dois géneros/sexos.

No futebol existem duas jogadoras mitológicas.
A número 9, a goleadora, joga na área, tem faro, sabe estar no sítio certo, marca golos que se farta, uma matadora, um autêntica predadora da baliza.
A número 10, técnica apuradíssima, sabe o que faz, a ela pertencem os momentos de puro génio, joga no meio campo, espalha magia e perfume, assistências perfeitas, marca muitos poucos golos, mas os que marca levantam um estádio.
Na sedução esta distinção aplica-se, há as predadoras: sensualidade com um fim, o golo. E as mágicas, espalham magia, encanto, mas é raríssimo marcarem golos. O perfume da sedução é o seu lastro.

A ter que escolher,
Eu certamente faço parte do segundo grupo, menos pela magia que espalho do que pelos poucos golos que marco. Em todo o caso, à luz desta distinção quase que fico orgulhoso da minha reduzida efectividade. Reformulo: fico mesmo.

São estas as a grandes virtualidades desta analogia:
1- os fracassos podem ser reconfigurados como um projecto missionário de disseminação de magia e perfume;
2- Os matadores clássicos, aqueles que figuram no topo da hierarquia machista, saem desqualificados de qualquer mesa de café onde este paralelismo se torne operativo.

Questões exploratórias

Escreve o arguto João Nogueira: Começa a intrigar-me uma questão que julgo ser necessário começarmos a reflectir. Quais os impactes da constituição destes "online selves" sobre os nossos "offline selves"? Fala de Blogues, claro.
Esta é uma bela questão. Creio que o interessante espaço reflexivo que se tornou o blogue dos Blogólicos Anónimos oferece uma resposta parcial a esta interrogação. Ali se fala do vício, da complusão, do descontrole, da alienação, da má gestão do tempo.
Há mais respostas, creio. Espero.

As pós-traumatizadas

Leitura tentativa Mais ou menos a partir dos 23 anos, surge um fenómeno preocupante nos relacionamentos amorosos. Todos os enamoramentos estabelecidos a partir de uma tal idade confrontam-se com uma de duas fatalidades de recorte apocalíptico:

1- A pessoa que suscitou o afluir de um encanto está comprometida -
A partir de certa idade os namoros democratizam-se, tornam-se um imperativo (democratiza-se o acesso num regime ditatorial). Um imperativo que às vezes é afectivo, outras vezes é social, noutras situações é apenas uma forma inventiva de arranjar um parceiro sexual fixo ao fim-de-semana. Esta disseminação aparece de tal modo epidémica que o surgimento em cena de alguém bonito, interessante, que não namora, convida à suspeita: é melhor desconfiar! Algo se passará? O quê? (ver ponto 2)
2- Estamos em presença de pessoas pós-traumatizadas (aproprio esta expressão da linguagem psicopatológica). A partir de certa idade já toda a gente teve um grande amor e/ou um relacionamento forte e duradouro. No fundo, falamos de pessoas com uma história, mas como toda a história de um amor perdido, é uma história que fica por resolver. São pós-traumatizadas no sentido em que actualizam o impacto do passado perante situações que tomam contornos semelhantes. (a noção de trauma de Freud é operativa para captar esta conversa entre diferentes temporalidades)

Portanto, a haver pessoas interessantes e solteiras, a haver um enamoramento e uma proclividade para a relação emocional, o porvir tende a ser marcado por um referente histórico: Um(a) ex marcante. Os pós-traumatizados são todos aqueles que enfrentam o espectro de novas relações com as expectativas e temores que foram nutridos num grande amor passado. Esta ligação faz com que o alter da nova relação não tenha uma existência autónoma: "ela é mais isto ou menos isto do que Joana". "Ele às vezes faz-me lembrar o César"... "acho que a amo tanto como.."

Enfim... O amor passado estabelece a fasquia da entrega do presente.


O quadro aqui engendrado procura captar algumas continuidades sociais pelo exagero. Os maiores de 23, solteiros, também sabem que o amor é um exagero, um excesso que a qualquer momento faz a sua história sem complacências com a memória.

Os editoriais que merecemos

No editorial de hoje José Manuel Fernandes, o sofista, faz uma tortuosa (termo gentil) interpretação de uma sondagem Pub/Rtp , onde se oferece uma avaliação negativa da intervenção americana do Iraque. Depois das suas sentidas lágrimas ao ver os americanos serem recebidos com ramos de oliveira (faltou um jumento para a reposição cénica da entrada do salvador em Jerusalém), há um perverso ridículo que volta a visitar as suas linhas. Se algum investigador se dedicasse a ler apenas os editoriais dos nossos jornais ficaria com uma percepção evangélica do admirável novo que o sacrífício americano vai construindo. Diz-nos a Bíblia que as profecias de Isaías se cumpriram na vida de Jesus. Hoje são os editoriais que se esforçam em provar em que medida as suas próprias profecias se cumprem. No meio de tanta argumentaria a Palavra mentira ainda faz algum sentido? Para mim, sim. São bombas senhor, são massivas!

Liga a solfagem!

Poucas palavras são mais diversamente traduzidas do que aquela que designa o sistema de aquecimento dos carros: chauffage.

A celebração da Sociedade

Francisco José Viegas responde-me que os comerciantes de coimbra bem podem ficar descansados. Segundo diz, asseveram-nos os interesses da AAC, das cervejeiras, e de hordes estudantis sequiosas por Quim Barreiros, que a hipótese de anulação da Quiema das Fitas nunca será mais que um ardiloso bluff político. Temo que o tempo lhe venha a dar razão. Lamentarei se assim for.

É que eu tinha imaginado uma cena linda. Nela as cervejeiras uniam-se às floristas de Coimbra para contestar a anulação da queima, deliberavam num conciliábulo que o protesto simbólico deveria consistir na tomada das ruas de Coimbra, através da oferta de barris jorrantes e flores vistosas. O sindicato das floristas chamaria a si a organização assim como a escolha dos grupos musicais. A cidade apoiava, os estudantes também, juntos, todos beberiam cerveja revoltos em rosas. Pelas áleas entoariam cânticos de nostalgia e esperança. No fundo, era uma Queima com uma causa: o regresso da festa antiga. Lutar-se-ia no perpétuo fracasso, Maio acolheria a festa das flores e da cerveja. A Queima das fitas, a desejada, essa, não voltaria nunca.

A questão grave é que Coimbra que não tem tradição de santos festivos, e carece, por isso, de um ritual social agregador de paixões. Papel que, mal ou bem, vem sendo desempenhado pela Queima das Fitas.
Como nos mostra Victor Turner, os rituais sociais não apenas desempenham um papel na representação do que é a sociedade (estrutura) ou na reversão momentânea das lógicas que a regem (anti-estrutura, e.g. o carnaval).
Na verdade, eles participam enquanto elementos constitutivos do nosso tecido de relações, ora como traves de conservação do status quo, ora como momentos críticos da sua transformação. É em face desta leitura que eu acredito que Coimbra carece de um ritual cíclico de adesão massiva, sob pena de se desestruturarem equilíbrios sedimentados (falo dos comerciantes, mas poderia referir o facto de quase todos os meus amigos de Coimbra fazerem anos de namoro na semana da queima). Sinceramente acho que seria grave que não houvesse Queima. Por outro lado, também retiro da perspectiva de Turner a imperiosa necessidade da Queima das Fitas se transformar noutra coisa.

O lastro, pois então!

Leio no miniscente: "..,a diferença entre quem acredita que tudo fica irremediavelmente dito (no princípio ou no fim) e quem acredita que o dito não é o mesmo que o definitivamente revelado, mas tão-só uma modesta parte do não-dito."
Enfim, o melhor é mesmo ler tudo.