La Sagesse

Após o sorteio do europeu, o jornalista questionou o seleccionador Francês acerca das hipóteses da selecção portuguesa. Já bem bastava este paroquialismo que se vai tornando num clássico do pedantismo nacional, sempre que a nossa comunicação social entrevista alguém com um BI estrangeiro lá sai a pergunta: "Então e Portugal, o que é que acha?" E pronto, que remédio! Lá se descosem os estranjas falando do bacalhau que comeram uma vez e do primo da irmã da vizinha que tem um irmão que foi passar férias a Portugal e, claro, gostou muito. Mas, o que é mesmo interessante é a resposta do seleccionador francês. Disse ele que Porugual terá boas hipóteses porque tem um seleccionador campeão do mundo e jogadores de indesmentível qualidade internacional. agora atenção. Falou de Rui Costa, Figo, Fernado Couto e ... Vítor Baía. Para alguns esta menção a um guarda-redes tão marginal demonstra a ignorância do francês. Outros há que calam a escrita em jeito de enigma.

Become Some Body

A convenção Internacional de Fitness reuniu-se este fim-se-semana em Aveiro. Eu que até gosto de dar um chutos na bola para manter a forma, tenho a maior das repulsas à cultura de ginásio. Frequentei um dois anos por via da capoeira. Era ver os bois da musculação, as malucas* da aeróbica, do step, do body pump e do body combat para cima e para baixo. Nunca percebi porque é que afluíam em hordes com a proximidade do Verão. Certamente que muit@s usam o ginásio fazer um pouco de exercício arejando o corpo, outr@s para desanuviar, outr@s em busca de visões renascentistas da alma e do corpo (de que eu próprio ainda guardo reminiscências). Mas, sem dúvida que a motivaçao de 90% dos frequentadores de ginásios se poderá consagar ao emblemático slogan que um dia li num cartaz:
Become Some Body Está lá tudo.

* Malucas, vocês sabem que eu vos estimo

Um post sem ironia

Entre um post e outro, a Charlotte foi-se casar. Ia lá eu deixar de dar os meus parabéns à Dona Bomba? (Será que agora devo dizer Mrs. Inteligente?)

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Num súbito despertar ainda nos recebeu com um sorriso roubado à dor, mas o fim veio breve como se quisesse resgatá-lo àquele sofrimento. que dizer...?
que dizer das lágrimas que acenam ao perto. que dizer da saudade que fica?
Partiste de mão dada com os que mais amas.
Amigo, fica com Deus, que encontres paz.


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Escrevo em angústia.
Persevero na esperança, mas ressoa enorme um desespero próximo. Com a possível convicção lá dizemos: “força amigo”. Eu digo: “força amigo”; mas não lhe peço tanto. A vida apressada parece querer esvair-se ao pai do Barradas, o Barradas-pai. Ela escorrega, esmaece, tão fora de tempo, tão cheia de despropósito!
─ “Já mal fala, está fraco, só me olha doce com aqueles olhos lindos”.
Nesta hora de sábado os “ses” e os “quandos” revertem-se temerosos na iminência de uma despedida.
Amigo, meu amigo, deixa-me chamar-te Barradas, deixa-me pedir-te que fiques.



O vidente dos troléis

Quando era mais pequeno sentava-me no banco da paragem de autocarros e começava a ler o futuro. Com os olhos fixos nas linhas do eléctrico procurava antecipar a chegada do meu transporte para escola. Quando via um leve movimento balanceante, um daqueles que o vento não merece, levantava-me e esperava, confiante na concretização dos meus cálculos. ah.. Lá vinha o amarelo sobre rodas. Três minutos era o máximo que eu conseguia antecipar. Mas sabia-me bem começar o dia com uma premonição. Nunca o erro de falhar me tolheu. No entanto, nunca consegui antecipar mais do que três minutos. Para mim, a imagem de um autocarro eléctrico a virar esquina será sempre embalada de magia. Num desses dias da minha pequenice decidi não entrar no trólei, sentenciei que deveria ficar a aprimorar a minha técnica. Essa manhã, passei-a toda a olhar para os fios dependurados num jogo insólito. Deslumbrado com os meus dotes de adivinho, concluí que entrar no autocarro não era o mais importante. Depois de a minha mãe me ter convencido do contrário, voltei a deixar que os autocarros me levassem para a escola. Fiz a primária e o ciclo a resistir à tentação de ficar. Hoje sei que algo sempre fica.

Estranho inventário

Nunca paro de me surpreender com a indomesticável criatividade com que o pessoal das ciências sociais escolhe temas de tese. Deveria ser feito um inventário dos temas mais insólitos, talvez depois se pudesse fazer uma votação. Do que por aí tenho visto, temo que uma/um antropólog@ ganhasse tão insólito conurso. É incrível, mas por vezes a imaginação da escolha parece superar a própria prolixidade do real. Aceitam-se confissões anónimas.

Escândalos de segunda ordem

Por alguns tempos o caso moderna foi o escândalo que abalou o país. Ontem, creio, saiu a sentença. Pela cobertura calma, até uma certa indiferença nacional, percebe-se que a fasquia dos escândalos subiu muito com a Casa Pia.

Uma verdadeira armadilha retórica

Mostrar um certo distanciamento em relação às tecnologias emergentes é uma daquelas marcas de água dos intelectuais. Mas essa celebrada marginalidade tende também a ser um discurso adoptado por quem quer marcar a diferença em relação a práticas que, reconheça-mo-lo, se disseminam até ao vómito. O uso do telemóvel é sem dúvida uma delas. Eu próprio tenho os meus anticorpos e a tentação de os usar como demarcação identitária. Mas sempre que alguém, aproveitando um qualquer ensejo, inventaria para comigo a sua repulsa pelo telemóvel, falando da sua negligência com a bateria, do tempo que a máquina passa desligada, das chamadas perdidas feitas troféu ao fim do dia,..., eu costumo responder com simplicidade: "Sabes, esforço-me por ter sempre o meu telemóvel ligado e perto de mim; a qualquer hora um amigo pode precisar da minha ajuda por alguma razão grave. Já conteceu." Gaguejos. As respostas que recebo.

O outro Miguel Ângelo

De Lobo Antunes, no público: "Por exemplo, o homem mais fascinante que conheceu não era escritor. Era Marc Chagal, o pintor que já com os seus 80 anos pintava o tecto da Biblioteca de Nova Iorque. Era pequenino, de cabelos brancos "a la diable" e nariz torto. Exerceu uma grande sedução em Lobo Antunes. "Se eu fosse uma mulher, palavra que me despia se ele quisesse". Depois, encolheu os ombros: "Almas assim não são fáceis de encontrar".

Potlatch

No Ensaio sobre a Dádiva Marcel Mauss analisa como os grupos e os indivíduos trocam dádivas no seio de sistemas de reciprocidade, numa lógica em que a prenda engendra uma dívida simbólica em quem recebe. E é essa mesma dívida que conduz à eternização dos ciclos de dádivas em círculos socais mais ou menos fechados. (Neste mundo blogosférico a gestão dos links obedece largamente a esta lógica. No mundo real temos o Natal, os dias de anos, o dia dos namorados, etc.). Um fenómeno que está fora de alcance - e da pretensão - da leitura de Mauss, é a intrigante razão que porque muitos namoros acabam com a devolução ritual de prendas. Um fim simbólico dramático que marca a quebra de um sistema relacional.

Quando assim sucede, a partilha que se fez passado fecha-se no retorno ao nada que sempre foi - decretado a posteriori. Uma vida franqueada para o porvir tende esvair-se num pathos raivoso que por muito tempo, antes da noite finda, chamará a falta de sentido para um duelo. Saber guardar as prendas pode ser um dom. Essa dádiva suprema que os antigos dizem vir de Deus.

Palavras

Esmaecer. Para mim um dos mais belos verbos da língua portugesa.

Blogue à Esquerda

O Blogue de Esquerda em versão reforçada agora está aqui. Chama-se Blogue de Esquerda II. Faz sentido.Um dia a progresão do tempo na blogosfera será aqulilatada pelo número de pauzinhos à frente do nome dos blogues.

As fantásticas histórias de um beija pés

Défice para aqui, défice para ali, a tanguinha, cortes ao investimento, desemprego, já sabem, é o défice, incentivo ao interior do país, é má altura, o défice, venda da rede fixa da pt por tuta e meia, é o défice, perdão das dívidas fiscais para amealhar algum à pressa, o défice, as floretas, bem, havia que poupar uns tostões, orçamensto de resignação, já sabem é o défice. Um Governo, uma ideia: A contenção do défice público. Espantam-se, os nossos representantes votam para que a França e a Alemanha possam ficar livres de sanções porque optaram (e bem) por uma estratégia de investimento e disseram estou-me cagando para o défice? Toda a gente diz que o governo deu prova de uma inaceitável incoerência. Discordo.

Há no beatismo ao défice e no amen à França e à Alemanha uma coerência profunda
: a harmonia podre da subserviência cega. Se têm vocação para a servidão - aos Estados Unidos, aos Tratados, aos grandes da Europa - é uma opção de vida, escusam é de levar um país atrás das vossas peregrinações. Ah, já agora seria bom que se lembrassem de sábios conselhos bíblicos: "Nenhum servo pode servir dois senhores; porque, ou há de odiar um e amar o outro, ou se há de chegar a um e desprezar o outro. Não podeis servir a Deus e a Mamom".

Ver para crer

A ser verdade este blog conta com Ana Gomes, Eduardo Prado Coelho, Jorge Wemans, Luis Nazare, Luis Osorio, Maria Manuel Leitao Marques, Vicente Jorge Silva, Vital Moreira. A ser verdade: bem-vindos.

Palavras não ditas

- Alguma vez ele disse que te amava?
- Uma vez quando estávamos a fazer amor.
- Já tinham feito antes?
- Pelos vistos sim.

Tento explicar a ligeireza com que se usa a expressão fazer amor sem que o amor seja forçasamente chamado à liça:
Usa-se com leveza essa designação, porque para a narrativa romântica do arrebatamento - a nossa -o fazer amor é já uma contradição nos termos.

A arquitectura da desgraça

Agora que o Ano Europeu das Pessoas com Deficiência chega ao fim, a RTP decide dar-lhe alguma atenção com a exibição de documetários durante esta semana (o que vi hoje estava muito bem feito). É de facto impressionante... A declaração do Ano Europeu pela Comissão Europeia tinha por objectivo central dar visibilidade durante um anos à situação de marginalidade social vivida pelas pessoas com as mais diversas deficiências. No entanto, com o fantástico empenho dos poderes políticos e dos media a coisa vai saldar-se por um rotundo fracasso, uma oportunidade perdida: Pois este marasmo é o que nos espera (como sempre) e o nosso futuro é esta sombra, este torpor, esta exclusão tão antiga que nem percebemos o seu peso insuportável!...

Não serão 6 Milhões, mas, de acordo com os censos de 2001, há 634 408 pessoas neste país com alguma deficiência. O facto niguém os ver é expressivo da sociedade inclusiva que vamos criando. Quando fui à Holanda reparei no elevado número de deficientes motores que se passevam pelas ruas nas suas cadeiras eléctricas (provavelmente financiadas pelo estado). Cadê os "nossos"?

P.s. Uma coisa interessante nas organizações internacionais de pessoas com deficiência é a sua oposição à guerra. Elas sabem que quando as notícias de um conflito falam de mortos e feridos muito fica por contar. Talvez devessemos juntar aos editorias e artigos de opinião perspectivas corporalmente informadas (e psicologicamente, no caso do Post Traumatic Stress Disorder).

Descobri-a aqui! A gaja tem o seu quê de tasqueira, mas lá que tem graça...

Livros de engate

Pedro Lomba tenta perceber o que leva tanta gente a querer publicar livros. Debate a demonstração de inteligência, a expressão de bondade, o desejo de ascensão social. Conclui que não dá mesmo para perceber. Charlotte avança com o liberalismo mercantil do mercado livreiro, a que junta uma apologia da diversidade na escolha. Ainda assim, creio que um factor muito importante passa à margem deste debate. Lembro-me de ter lido algures um reputado escritor dizendo que o seu móbil primeiro para escrever foi o desejo de impressionar mulheres, afirmava mesmo que, se não fosse este disseminado ímpeto de atrair, a humanidade ainda estaria nas cavernas. A minha tese é que uma importante fatia do mercado livreiro português é a consubstanciação de ardilosas estratégias de engate. (Desta vez não estou certo de estar a brincar).
P.S. Resulta?

O flagelo do ciúme

Sábado de madrugada. Ao computador tento tratar da saúde a uma tese. A televisão ligada sem som faz gostosa companhia. A Tv Shop tarda, eu aguardo (ninguém aguarda pela Tv Shop!). A música abafa o silêncio. Eis senão quando começa a dar na TVI um programa a que eu não resisto. A Ilha da Tentação. Versão americana. Sábado de Madrugada.
Tiro som da música dou um bocado de volume à televisão, mas não largo o computador (para todos os efeitos continuo concentrado nos desvarios de Judith Butler e Merleau-Ponty).

Sempre apreciei fazer uma certa paródia analítica retirando grandes profundidades da cultura pop. O que é certo é que aquele programa é mesmo bom, é profundo em si (já está!). Ali se Fala de um estranho desejo de auto-flagelação de casais que têm 90% de hipóteses de destruir as suas relações, 10% probabilidades de passarem o resto das suas vidas a tentar não dar importância a pequenas coisas que, uma vez vistas, jamais serão pequenas. No entanto, a questão central para a narrativa de cada casal não aparece no programa, induz-se. A questão decisiva é só esta: o que os leva ali?
Bem:
1-A sede de protagonismo dele ou dela? Então alguém entrará no "espectáculo", não se pode desiludir um público ansioso por traições!
2- Um teste de confiança que é pedido por uma das partes - a parte insegura (normalmente a feminina, falo da série)? É muito provável que a insegurança de partida não saia reforçada. Au contraire.
3- A vontade de aproveitar a coisa? Até podia ser uma hipótese, pena que seja quase sempre uma agenda secreta de um (ou dos dois) dos elementos do casal. E ninguém gosta de ver no outro a pluralidade dos seus próprios desejos.
4- Um desejo de afirmação do ego perante a continuada desvalorização vivenciada dentro da relação? Aqui já é muito tarde! O ego já só consegue afirmar-se pela transgressão libertadora: Vês, há quem me dê valor! É este o tema da longa discussão que em Eyes Wide Shut Tom Cruise e Nicole Kidman tão bem encarnam. Naquele caso os charros fumados são o álibi da desejada confissão. (Aliás, este filme, se levado a sério, pode ser boa prova para casais que se alojam na segurança das costumeiras comédias românticas).

Uma coisa interessante é o estatuto d@s tentador@s. A el@s cabe aliciar @s concorrentes. Sendo que o seu objectivo primordial é fazer advir um deslize à fidelidade amorosa. O problema é que os beijos abraços (e um pouco mais) acontecem com uma certa frequência. O que faz supor que o estatuto contratual d@s tentador@s será aproximável à ideia de prostituição. Ou, para utilizar um eufemismo, el@s incorporam o papel de "garot@s de programa".

Achei intrigantes duas situações.
Uma rapariga que se esterilizou aos 25 anos, porque não queria ter filhos, foi reputada de egoísta por um dos tentadores. (Acho que em muitas circunstâncias o inexorável desejo de ter filhos pode bem mais egoísta)
Um concorrente que na noite anterior tinha "corrido" todas as tentadoras não deixou de ficar arrasado por ouvir umas palavras em que um tentador se manifestava atraído pela sua namorada. (a inconsciência e a consciência disso assomam em força)

Estes testes de elevado consumo emocional (para não falar das hormonas pulsantes) podem ajudar deslindar aquilo que os voluntariosos concorrentes querem da vida. Se se querem mesmo casar. Se querem casar numa estação de comboio. Se querem resignificar as tentações como possibilidades livres. Se querem fazer das agendas secretas um modo de vida (estranho, diria).

Para mim é muito claro. Estamos perante pessoas que avisadamente quiseram antecipar uma crise de meia-idade. Não querer esperar pela crise pode ser bom. Ou não. As novas gerações tornaram-se hábeis em fazer a ponte entre os problemas da adolescência e os da meia-idade. As relações amorosas desempenham aí o papel de estrutura de suporte.

O ascetismo pós-moderno

Lá vai longínquo o tempo em que nos meses de frio havia quem andasse com o pijama por baixo da roupa. Numa altura em que o banho diário matinal era uma excentricidade, o uso do pijama tinha duas funções: as pessoas não tinham que se despir de manhã - aproveitando o quentinho da roupa colada ao corpo há horas - e sempre ficavam com uma grossa camada de tecido de manhã à noite.
Além do ocaso do pijama diurno, também se foram as ceroulas, relíquias que agora só já se devem ver no museu do traje. Com estas transformações novos problemas se levantam. Mas as dificuldades não estão equatativamente distribuídas. Hoje, as mulheres sempre podem recorrer às meias de vidro e às meias calças; Já os homens, precários, aguentam-se com uns quantos pêlos (quando os têm) por debaixo das calças.
Pois é, estamos mais limpinhos, despidos de antiguidades, revestidos de estilo, mas, seguindo as regras, rapar frio faz parte. A autoflagelação (falo mesmo da física, as metáforas merecem-me outos posts biograficamente informados) é uma prática que nunca passará de moda.

say what?

É uma situação recorrente, passa um carro com matrícula estrangeira, abre o vidro, e dirige-se para o transeunte: Do you Speak english? Provavelmente esta é a primeira pergunta mais comum entre cidadãos de países diferentes. Reconheço que ela é útil, às duas primeiras palavras, sejam elas quais forem, a questão fica esclarecida. A partir daí o caminho para a auto-estrada poderá deixar de ser um enigma. Por ser redundante com a língua em que é feita, não deixa de ser uma pergunta estúpida.

Não sou nada (...) À parte isso

O caro Jaquinzinhos até pode achar que a aventada suspensão da queima das fitas não passa de propaganda. Até pode não estar muito preocupado com os comerciantes que têm aí a época alta (Só as floristas devem fazer 80% da receita anual nesa semana). Agora que me chame Sociólogo é que eu acho gravíssimo. O que me incomoda nesta subtil ratoeira é eu não poder dizer que me sinto insultado, porque aí estaria a insultar os muitos sociólogos que eu muito estimo. Ora bolas! Mais uma ordália que aguarda o meu fracasso.
Bem sei que escorrem por aí alguns debates acerca das propensões político-ideológicas dos sociólogos. Perguntou Pedro Lomba se será a sociologia uma vocação das pessoas de esquerda, ou se, por outro lado, será a esquerda o produto da formação sociológica. Apreciava eu este debate com uma distante curiosidade de alguém de esquerda, quando o Jaquinzinhos me tira da poltrona voyeurista em que estava eu confortavelmente instalado. Eu que até já tinha encontrado uma explicação para a propensão das meninas de massagens se apresentarem como sociólogas nos anúncios, sou metido ao barulho. É verdade que vivemos num tempo de interdisciplinaridade, mas, a ser alguma coisa, serei antropólogo. Esta minha precisão não resulta da necessidade de demarcação dos debates prementes acerca dos sociólogos. É algo mais sério, recuperando-me para as narrativas verifico que encontro nessa distrinça um estranho apego identitário. Trata-se de uma relação de amor que nunca esconderei dos lábios que beijo.

Os meta-escribas

O metablogue volta a acção. A Joaquim Nogueira (Respirar o mesmo ar) e João L. Nogueira (Socioblogue 2.0), juntam-se agora como colaboradores permanentes/editores Pedro Fonseca (contaFactos e Argumentos), Paulo querido (O vento lá fora) e Ferran Moreno (Un que passava). Lisonjeado pelo convite, também eu me junto a eles para estender os radares ao que por aí se diz acerca do que por aí se faz.

Para além de professores e estudantes

Sinceramente acho uma excelente ideia que se equacione a suspensão da "Queima das Fitas" em Coimbra como forma de luto académico. Mas quando leio Francisco José Viegas a exultar tão prontamente com uma tal notícia, pergunto se ele se terá uma noção do terrível impacto económico que isso terá para milhares de pessoas que nesta cidade vivem do comércio. É que para elas a notícia não podia ser mais desastrosa.

Um texto irresponsável

Porque será que quando mandamos uma sms nos devotamos tanto na escolha do texto e tão pouco na selecção do destinatário? Conheço pessoas que há anos escrevem textos lindos no telemóvel. Contam as letrinhas, buscam as palavras, enganam o dicionário automático, ensinam-no, seguem-no, tentam, apagam, procuram símbolos, inventam sorrisos. Tanta dedicação... No fim, cansadas mas contentes, olham para o maturado textinho - feito para esgotar os caracteres - e, qual reflexo condicionado, enviam-no para um número que puseram na tecla de acesso rápido, já não lembram bem porquê.

Cruzada anti-Coimbrã

Eu, que até gosto de falar mal de Coimbra, agora vejo-me obrigado a pôr na fila. Curioso, lá à frente, junto ao balcão, vejo sempre a mesma pessoa.
Pacheco Pereira voltou a fazer mira aos estudantes de Coimbra no público. Eu poderia discutir a questão dos cadeados, diria talvez que estou de acordo com os fins dos estudantes. Diria que não me apoquenta a ideia que uma ilegalidade a coberto de uma legitimidade - naturalmente debatível.

Talvez dissesse também que as portas abertas representam uma ilusão, falaria talvez dos cadeados económicos que crescentemente vedarão o acesso aos estudantes com menos recursos - sabemos que a irrisória atribuição de bolsas não contempla casos de precariedade intermédia. Talvez usasse uma frase pungente: "temo que aquelas portas fiquem passivamente abertas, pois sei que assim muitos nunca entrarão; os professores estão lá para semana, não pode ser assim tão dramático!".

(Além do mais as portas laterais estão abertas, entrei hoje por uma para ir a um colóquio na facudade de Direito).

Porventura remataria que a efectiva criação da possibilidade de todos acederem à Universidade é também constitutiva do direito de opção - para usar essa essa parte da democracia de que os neoliberais gostam, esquecendo-se voluntária e reiteradamente da democracia nos direitos económicos e sociais.
Mas não! Quero falar da estranha pulsão de JPP em relação aos estudantes de Coimbra. A verdade é que eu até compreendo os argumentos daqueles que se opõem à história dos cadeados, o que eu começo a não perceber é a obssessão de JPP! Meu Deus, o que terá acontecido no passado de tão traumático?!

JPP já deve ter falado mais dos estudantes de Coimbra nos últimos meses que a imprensa da universidade em 7 séculos. Será isto correspondente à premência desta universidade na actualidade política? JPP pôs de lado a visita de Bush ao Londres, a situação na Nassiria, o caso de Michael Jackson, tudo para debitar pela milionésima vez o asco aos provincianos estudantes de Coimbra. Domingo lá estará outra vez! Começo a pensar que JPP se afimou como um fazedor de opinão nos jornais, na rádio e na televisão, apenas para resolver uma questão antiga com a Academia de Coimbra. Será que tudo o resto é um pretexto? Oh Não!!!!! os quadros.., os livros..., a apologia da guerra contra o terror, o não à constituição europeia, a música country, as manhãs poéticas, os voos sobre as nuvens. Não posso crer, ficaria triste se assim fosse. É que, concordando ou não, prezo-o como um dos bloggers mais dedicado e generoso para com os seus leitores. Não tenho que me envergonhar de ser um deles.
Aviz começava assim um post: "Eu, que não tenho má relação com Coimbra,..."
Devo ler aqui um contraponto em relação a JPP? Talvez esteja a sobreler.

Fantasias

A Norah Jones ao piano.

Sexo para quando?

A evolução dos valores de uma sociedade, a sua preservação, a presença de normatividades rigorosas, nota-se em pormenores como este:
Convido-vos a respoderem a esta pergunta: O que é que uma liguagem indecorosamente sexualizada como a do meu pipi tem em comum com o blog da virgem (um bog fundado na ideia da virgindade até ao casamento)?

Resposta: A imperiosa necessidade de preservar o anonimato.

Por favor um pouco mais de hospitalidade para Bush!

Estou a torcer fevorosamente para que Bush tenha amanhã em Londres a recepção que os seus beneméritos préstimos à humanidade bem merecem . Gostei muito de saber que Mayor de Londres, correlegionário partidário de Blair, identificou Bush como a maior ameaça que a Paz no mundo enfrenta. Boa! não sei como Sharon se terá sentido, mas desconfio que agastado com tamanha despromoção. No entanto, há uma coisa que me incomoda nestas manifestações. É que normalmente a frase forte é "Bush go Home", ou "não-sei-quantos go home". Embora eu perceba bem a mensagem de uma demarcação forte em relação às boas vindas e às honras de Estado, sinceramente não consigo deixar de ver isto como a utilização de um discurso que, sem se dar conta, tem subjacente uma ideia xenófoba. A ideia que alguém não é bem vindo e que a sua casa é algures do outro lado do mundo. Já ouvi isto nalgum comício do PP. Não sei se este post vai a tempo para os meus amigos ingleses, mas eu proporia declarações insurgentes que não tivessem qualquer "semelhança de família" com os discursos Le Penianos. Por exemplo, mandem-no à merda. Sempre é mais polite.

Puta de bola

Não sou de dizer asneiras nem tão pouco uso a linguagem machista para desqualificar o que quer que seja. Mas tenho uma excepção. É quando jogo à bola - entenda-se futebol.
Por vezes, quando a jogada não corre do meu agrado, o remate sai ao lado, ou simplesmente fico sem bola, dou por mim a gritar um muito estranho PUTA!. Apercebi-me desta estúpida recorrência e comecei a ver que muitos jogadores têm o mesmo ímpeto perante os seus fracassos com a bola. Encontro duas explicações:
1- Chama-se puta à bola porque ela não nos é fiel e vai com quem paga melhor. Neste caso com quem tem uns pés mais jeitosinhos.
2- A emergência de expressões machistas está intimamente ligada à experiência - real ou imaginada - do fracasso de quem as enuncia.

De toda a maneira vou ver se substituo a expressão "puta". Não gosto. Além do mais, para ser totalmente corente com a lógica patriarcal teria que gritar "AMO-te" de cada vez que marcasse um golo. Sinceramente já me chega o ridículo de os falhar.

castidade hardcore

Sempre apreciei a estetização do celibato por terras mexianas. Talvez seja verdade que a castidade também pode ser hardcore , no fundo a sua narrativização carrega a marca de uma subversão por relação à narrativa masculina dominante. Em tempos reflecti sobre a disseminada omissão dos bloggers em relação aos seus parceiros - hoje verifico que esse silêncio está menos rigoroso, talvez por ter me ter tornado leitor de mais bloggers mullheres. Nessa altura assinalei o dicionário como um curioso enclave discursivo acerca dos afectos e da sexualidade. Isto porque, não havendo (à excepção do Pipi) um espaço em que as conquistas sejam triunfalmente celebradas, são as "condições de impossibilidade" que Mexia desvela que mais saborosamente quebram com deferência em relação a uma dimensão que, embora central à vida de todos nós, faz notar a sua singularidade pela ausência dos ecrãs (dos computadores).
De facto, a auto-ironia de Mexia é feita depender largamente da aceitação de uma justiça transcendente, em que as particularidades da alma e do corpo assomam como a legitimação de um status quo celibatário presente ao nível dos discursos (naturalmente as práticas não são para aqui chamadas.)
O meu caro JMF - por estes dias um dos meus blogs de eleição - apela à indignação em relação ao relato de inocentes histórias sociais com senhoras casadoiras trazidas em tom tágico-cómico. Eu acho que o simples facto de esses relatos surgirem é garante suficiente de probidade do "delator" na situação em causa. De facto, nestas e outras matérias, gravosos serão os silêncios e os anonimatos. Eu adultero Wittgenstein: acerca daquilo que se pode falar, tudo pode ser dito.

Um remetente indesejado

Tirei uma carta registada do correio, mal lhe liguei. Há pouco dei-lhe alguma atenção e verifiquei que o remetente é a PSP. Suponho que seja uma multa por estacionamento indevido: a minha primeira. Ou melhor, com estas histórias das cabalas espero que seja uma multa por estacionamento indevido. Acho que tenho que pôr um autocolante no meu correio: "Multas, não obrigado! Esta caixa só aceita cartas de amor".

Derrida Live

Na conferência de abertura Jacques Derrida desconstruiu deliciosamente a relação entre bestialidade e soberania, falando de um fascínio que irmana a besta, o criminoso e o soberano. Pelo meio ficaram umas farpas aos Estados Unidos, que tomaram por base a asserção de uma similitude entre um Estado Criminoso e um Estado Soberano que desrespeita a lei Internacional. Creio que a reflexão forte que Derrida deixou naquela sala nos remete para o imperativo de se amestrar o ímpeto de bestialidade que subjaz o exercício da soberania. Não a negação desta.

À noite foi apresentado um excelente filme sobre Jaques Derrida, um registo filosófico e auto-flexivo, que acaba com a questão da ipseidade, a plurivocidade existente em cada sujeito. Aí Derrida finaliza com a impossibilidade da afirmação: "Eu assino". De novo emerge o Eu convulso, o Eu que não existe. Com esta delclaração a película termina com uma questão que entrevejo como sendo próxima à que Michel Foucault coloca em O Pensamento do Exterior: "A verdade grega tremeu, outrora, nesta simples afirmação: “eu minto”. “Eu falo” põe à provo toda a ficção moderna". Na frase de Derrida é a irresolúvel ansiedade na constitução do Eu, quem assina quando eu assino? Na afirmção de Foucault acrecenta-se o insólito de alguém falar a sua fala e não a fala que lhe é exterior. Afinal a fala - a linguagem, o discurso- que, segundo Foucault, nos constitui enquanto sujeitos. Essa soberana ficção.

Disseram-se muitas mais coisas, mas como devem calcular, por hoje já tive a minha dose.
Na verdade, a coisa mais importante foi o Derrida ter-se sentado à minha frente para ver o filme.


Revista cor de rosa

Acho que por esta altura já se impunha um blogue que tratasse os temas das revistas sociais. Um dos atractivos que encontro em ir ao barbeiro ou ao dentista é o facto de ficar obrigado a fazer tempo lendo a Nova Gente, a Caras, a Lux, a Maria, a Ana + Atrevida, etc.
Na verdade, tenho dois alibis para esta dedicação:
1- Deformação Profissional: Talvez a antropologia tenha feito de mim um cusco de formação
2- Desconstrução de discursos: Tenho lido bons artigos ao nível dos Cultural Studies em que se empreendem brilhantes ánálises críticas das revistas femininas. Aquilo dá pano para mangas.

Ainda assim temo pela veracidade de uma terceira hipótese: a minha curiosidade não deverá ser muito diferente de uma qualquer dona de casa - para utilizar o estereótipo.
No entanto, sou incapaz de recorrer a essas leituras deliberadamente, sobretudo porque o tempo é precioso e não me estou a ver a comprar uma tal literatura. Mas... não sei, se fosse num blogue... era diferente.
Penso. A resposta é simples, nesse caso a leitura seria mais descomplexada porque então beneficiaríamos do "branqueamento" conferido por um formato intelectualizante.

Soutiens e suas contiguidades

34-c é tida como uma combinação mágico-poética em várias mitologias ocidentais. Algumas/alguns escribas dizem que esta articulação entre a largura das costas e o tamanho das copas cria um busto merecedor de molde a gesso. Para muit@s isto será sempre uma especulação generalista. Para outros uma invenção das empresas de lingerie. As etnógrafas recusam-se a discutir o assunto.Os etnógrafos ainda hoje ignoram que a medida do Soutien obedece a duas variáveis.
É assim que um enigma ganha formas.

P.s. mais lá para a frente um post sobre o 32 (a,b,c,d) e sobre as poéticas do exagero (>36c).
(Estou certo que este post vai dar algum trabalho à equipa de desencriptação da CIA)

Metablogue III

1-O socioblogue põe fim à mitologia sebastiânica em torno do seu regresso. Pois é, ele volta hoje.

2- Abram os olhos, o título pode parecer pretensioso, os textos são muito bons.

Petição em linha

Uma leitora considerou a seriedade de um texto que aqui escrevi sobre o fim dos intervalos no cinema. E, com o meu assentimento, decidiu dar corpo a uma petição a ser entregue às empresas detentoras das salas de espectáculo. Portanto, se acham que por esses cinemas afora faz falta uma pausa para o enamoramento, para ir à casa de banho ou para fumar um cigarro, passem por aqui.

Este surpreendente aporte não deixa de me suscitar algumas reflexões:
Será que a proliferação de pequenas causas compromete as grandes causas ou fomenta a participação democrática nas mais diversas arenas das nossas vidas? E o humor? Deverá ser exorcizado da intervenção social?

Doces declarações de afecto

Uma amiga contou-me que esteve a actualizar as suas leituras deste blogue acompanhada por uma prima. Segundo me foi dado a saber, após uma leitura extensiva das coisas por aqui escritas, a tal prima esboçou algumas possibilidades reflexivas acerca da pessoa que as escreve. Foi então que a minha amiga procurou repor a verdade defendendo o carácter prosaico da sua amizade: "A sério, se tu o conhecesses dirias que ele nunca escreveu uma linha na vida!"

Será que era para eu agradecer?

Protolinguísmo ou a prótese da origem

Amanhã [dia 17] Jacques Derrida vem a Coimbra. Eu devo aparecer lá assim que acordar. Será que o miniscente e o reflexos de azul eléctrico vão faltar a esta?

No fundo, o imperativo que me insta a ir assistir ao Derrida, é recapitulação deferida do imaginário presente na fantástica música das amarguinhas:

Pois os meus pais nao me querem deixar sair
Logo hoje que eu tenho mesmo de ir
Ah industria ha uma festa, nao posso faltar a esta
Pois eu tenho, quero e devo mesmo la ir


Já estou a sentir o ritual da dança.

Outros Magustos

Catanhas e jeropiga?
Prefiro castanhas de caju e champanhe. Eu, que até cultivo uma estética taberneira, tenho pena que não haja uma época do ano em que me convidem para uma tal ementa (as castanhas de caju compram-se a bom preço no Lidl, não me importo de trocar chamapagne por um espumoso).
Entretanto lá vou aparecendo nuns simpáticos magustos.

O comentador delirante

Grabiel Alves podia ter sido um filósofo desconstrucionista. Podia ter sido um reputado crítico da ballet clássico. Podia ter sido um geómetra. Podia ter sido a voz off do circo Cardinalli. Entre tantas vocações verteu-se num comentador de futebol. A sua vocação plurovical jamais poderá ser completamente apreendida em alguma expressão cultural. Mas será o futebol a ficar com a marca do seu desassossego infantil.
Lembro um resumo do futebol inglês em que, de repente, ele se calou durante 30 segundos. Durante esse silêncio mostrava-se uma jogada longamente entretecida que desembocou em golo. O Grabriel aguardou pelo fim dos festejos e suspirou em tom grave. Talvez apocalíptico: Meus senhores, isto é futebol.



Morde-me

Há momentos em que é impossível beijar - falo dos beijos a sério - sem moder o lábio inferior do interlocutor. Quando isto acontece é porque o beijo já não basta, nele se inscreve o prenúncio de algo deveras substancial. Quem morde o lábio inferior de outrem não beija, antes faz cessar beijo para ensaiar um querer, para estender a economia derridiana do signo escrito como quem diz: quero-te (por vezes empregue como sinónimo de amo-te).
Há quem não perceba estas subtilezas e dê o seu lábio a morder como se uma tal "técnica do corpo" fosse uma mera variação do modo de ser do desejo. Nada mais errado. Aquele que morde em primeiro lugar baixa a guarda por devoção. Pessoas há que nunca encontraram um lábio que merecesse ser mordido.

Sistemas classificatórios

Durante algum tempo procurei classificar as minhas leituras entre as suscitadas pela Antropologia e o resto. Farto desta distinção grosseira, até porque a Antropologia tende a se aproveitar de tudo o que mexe, optei por uma outra mais precisa: as coisas que se podem ler na casa de banho e as outras. Nesta última categoria, são muitos os livros e revistas que se juntam aos rótulos dos detergentes.

Responsabilidade partilhada?

Murmúros do silêncio faz bem em evocar uma frase que, como muitos, me lembro de ter gritado bem alto no ido dia 15 de Fevereiro de 2003: Não em nosso nome! Agora dizem que a responsabilidade é de todos. Talvez seja, afinal não conseguimos evitar a guerra. O debate entre a Bloguítica e as Terras de Nunca representa bem o dilema, devemos ser construtivos ou colocar as questões difíceis?

Reproduzo as palvras de Paula A escrita, tal como o sonho e a masturbação, não exclui à partida companhia, mas pode viver muito bem sem ela.

Generosidade transnacional

A propósito do envio dos soldados portugueses para o iraque, a ideia agora propalada de que Portugal cumpre um acto de solidariedade com o povo iraquiano é, sem dúvida, generosa. Pelo modo como os nossos meios de comunicação falaram verifiquei assombrado que a morte dos soldados italianos na Nassíria não emana qualquer valor afectivo, não representa sequer uma perda humana. A morte deles foi evocada como um mero texto, a descida de mercúrio à terra, uma mensagem que nos alerta para o perigo de mortes a sério, a morte dos "nossos". Solidariedade entre os povos? Gostaria de pensar que sim.

Um vislumbre da europa dos povos

Começou ontem em Paris o II Fórum Social Europeu. O blog Social Português vai estar acompanhar as incidências de um evento que irá contar com mais de 25 000 pessoas.
Engraçado, porque é que não falam destas coisas na televisão? Talvez estejam numa ansiosa expectativa para o caso de se partir alguma montra.
Vá, agora chamem-me panfletário que eu não importo:

Um outro mundo é possível!

Pijamas e outros mitos

Ofereceram-me em tempos um belo pijama de cetim. Complexas itinerâncias fizeram que me restasse apenas a parte de cima. Não sei se o mito platónico das metades desencontradas trafica com pijamas. Seja de que forma for, para mim é claro que as vestes de duas peças "se fazem ao mito" na busca de algum protagonismo emocional.

O tarzan na versão terno e gravata

O debate do Orçamento de Estado passou. Muito se falou de contenção de despesas e do défice, o que me surpreendeu foi o despudorado silêncio perante a questão da evasão fiscal. Será que uma atitude condescendente em relação à evasão fiscal toma parte da lógica de incentivo ao investimento privado? Este é o subtexto que fica.

Armadilhas palavrosas

A propósito de um recente post, colocaram-me aqui uma questão acerca da profundidade da pergunta "estás apaixonad@?" A pertinência da perspicaz interpelação parte desta ideia: " Apaixonar vêm de paixão. É paixão a mesma coisa que amor?"

Não acho que sejam a mesma coisa, portanto, tomemos essa distinção clásssica como ponto de partida. De facto é verdade que apaixonar vem de paixão, mas eu penso que o lastro simbólico e afectivo de uma "pessoa apaixonada" não corresponde à ideia de paixão em sentido estrito. Contra qualquer possibilidade de pureza etimológica, a palavra "apaixonad@", no meu entender, encontra-se já permeada pela invasão do amor. É um étimo andrajoso, saiu de casa, contaminou-se nas suas apropriações. Enfim, apaixonou-se pela palavra "amor". A "paixão" está mais circunscrita, cálida, mas empedernida na ideia de arrebatamento fugaz.

Acredito, por isso, que a resposta positiva à pergunta "estás apaixonad@?" nos compromete para além da assunção de uma paixão.

Paz

Paz na estrada. É o persuasivo nome do novíssimo blogue da Associação Portuguesa de cidadãos Auto-Mobilizados.

Perfumaria

Gosto de visitar perfumarias como quem visita museus. Entro, pego naquelas tiras de papel e ponho-me a saborear as cheirosas prateleiras. Se alguma assistente de loja se aproxima logo digo, visualisticamente, "estou só a ver"! Nunca cheiro mais de 10 odores de cada vez, por isso volto sempre com algo novo para descobrir. Além do mais, os cheiros de um mesmo perfume mudam à medida que nós acompanhamos as águas de Heraclito. Uma pequena perfumaria pode ter uma dimensão afectiva aproximada à do museu do Louvre.
Fico sempre com a ideia de que prefiro os perfumes colocados do lado dos "para homem" . A bem dizer, não creio que essa distinção faça grande sentido. Os museus procuram ser criativos na forma de expôr as peças, não obedecem a um só critério. Gostaria de uma perfumaria em que os perfumes para homem e para mulher, lado a lado, se acotevelassem à espera da minha visita. Eu cheiraria indiscrimindamente, @s provador@s-comprador@s fariam o mesmo. Que sentido faz um perfume unisexo (tipo CK one), não o são todos!? . Não são todos feitos com os cheiros do mundo?
Fora dos meus museus, fora das tiras de papel, a cumplicidade dos perfumes com pescoços (não gosto do som desta palavra) merece toda uma diversa reflexão, desvelo apenas um desejo.

Os perfumes são amargos, sei-o porque quando beijo um pescoço perfumado sinto esse travo, um travo menorizado pelo primazia odorífica que me conduz, em todo o caso, seria bom que a indústria dos perfumes inventasse perfumes libertos de um tão amargo gosto. Logo eu que normalmente beijo pessoas doces!

Notas suaves

Muito obrigado a Mata Mouros e a Extravaganza pela menção deste blogue nas atribuições semanais.
Quero também agradecer ao adufe pelo seu generoso post. As suas reflexões acerca da compulsão para blogar deveriam ser publicitadas em outdoors para que os futuros aderentes não possam vir a alegar desconhecimento. Agora existe uma associação de serviço público: os Blogólicos Anónimos. As fileiras desta instigante associação deverão engrossar: muitos dos não inscritos ainda estão na fase de negação.

Humilha-te e serás exaltado

Hoje em dia é valorizada toda e qualquer expressão de humildade, gostamos da humildade demagógica. Ainda que muitas vezes não se possa acreditar nela, a verdade é que fica bem. Para mim, a verdadeira humildade é oferecer uma vasectomia ao pai pelos anos e pedir desculpa por a prenda chegar tão tardiamente.

Perdoem

Para quem aprecia este blogue com excepção para os meus assomos de clubismo, devo pedir desculpas por este interlúdio.

Após um frustrante mundial o país mergulhou numa tristeza. Não foi uma melancolia, mas antes uma dolorosa raiva agreste, um disseminado desejo de agredir a derrota, gerou-se uma sede de mártires - uma sede selectiva, até se esqueceram da estúpida expulsão do João Pinto - à luz da qual o valor de Vítor Baía foi negado até ao limite. Hoje, congratulado, vejo que a blogosfera começa a empreender uma reescrição da história nos termos sustentados por Walter Benjamin: aqui, aqui, aqui, aqui. Não será bem a clássica história dos vencidos, mas é certamente uma das suas modalidades mais insidiosas: a história dos vencedores silenciados. Baía é um deles (repare-se como, perante tanto ódio e desamor, ele tem sabido gerir o silêncio com uma contenção admirável).
Tento ser ponderado: Na minha análise Ricardo será ligeiramente melhor do que Baía entre os postes; Baía é muito melhor do que o Ricardo a sair aos cruzamentos. Baía é, na minha opinião, o melhor guarda-redes Português.

Uma coisa é certa, não é certamente o quarto melhor como pensa Scolari, esse vidente amigo de Roberto Leal! É claro que fico triste pelo saneamento de talento que Scolari vem fazendo na selecção, cujo sucesso está à vista. Mas depois penso neste portugal futeblístico cheio de ódio e inveja, predisposto a falar mal do pentedo, do equipamento de Baía, apenas porque sim, e concluo que não é de todo mau que ele fique pelo Porto a segurar bolas com a costumeira elegância e segurança. A outros, por certo mais dignos, caberá a honra de vestir as cores da nação. É que há mãos predestinadas para defender bolas de futebol, outras são imbuídas de uma vocação que acolhe bolas e taças com a mesma maestria. São raras. Em Portugal conheço duas.

Ouvi e gostei

Fui jogar à bola e no fim, já em plenos balneários, ouvi uma expressão deliciosa: tenho ali uma literatura para a tua mãe! Quem falava era um moço, delegado da propaganda médica, para outro cuja mãe é médica. Referia-se, pois, a alguns escritos da indústria farmacêutica chamando-os pelo carinhoso nome de "literatura". Lindo.

Pornografia e política

A pornografia é hiper-real. O conceito de hiper-realidade de Baudrillard encontra na diferença entre o sexo e a pornografia um dos seus exemplos mais didáticos. Diz-nos Baudrillard que a pornografia é uma linguagem do exagero, um excesso de real que anula o próprio real, uma emanação da mediática sociedade do espectáculo A pornografia representa um sexo mais do que real, um sexo hiper-real que, em bom rigor, não existe. Em jeito de analogia, diria que em político que não consiga aceder a este registo porno está condenado à não existência das suas ideias. Por definição, a lealdade aos termos próprios das coisas não compensa em política. O mesmo acontece na indústria pornográfica.

O Cinema e o amor dos tímidos perante o capitalismo tardio

Desde a adolescência, uma das mais viáveis formas de uma pessoa manifestar o interesse por outra, concretizando o desejo de uma partilha pré-sexual, é convidando-a para ir ao cinema. Apesar de poder ser entendida como uma abordagem algo iniciática, esta proposta apresenta alguns méritos, sobretudo para as pessoas tímidas:

1- A exibição de um filme obedece a um ritual pré-estabelecido em que a acção dos espectadores é mínima, portanto, minoram-se os constrangimentos que possam surgir entre duas pessoas que não se conheçam muito bem. Constrangimentos que, dependendo da arte dos intervenientes, poderão ser mais notórios num jantar, pelo menos enquanto o vinho não comece a fazer o esperado efeito.
2- A situação física no cinema sanciona uma proximidade entre os corpos exercendo um efeito de sugestão (erótica talvez), efeito que é agravado pela escuridão que nos envia para o imaginário de um conforto íntimo. Mesmo que haja uma lotação esgotada e que do outro lado, igualmente próximo, esteja alguém a comer pipocas, durante cerca de duas horas as duas pessoas socorrem-se uma da outra, criando um laço simbólico que as salva da desconfortável ideia de ir sozinh@ ao cinema -sobretudo se for à noite - ou de partilhar a sala com personagens menos desejáveis
3- Por mais envolvente que seja um filme, as duas pessoas encontrarão sempre momentos para reflectir acerca da sua companhia, e essa reflexão é singular porque pode ser feita, descontraidamente, ao lado do ser que está a ser pensado. Por isso, quem convida tem a certeza que, entre um acidente e uma cena de sexo, a sua companhia irá meditar sobre quem a convidou. Por outro lado, a oportunidade de pensar em alguém ouvindo a sua respiração pode ser uma dádiva concedida por antecipação.
4- O facto de duas pessoas verem um filme juntas cria uma cumplicidade, e essa cumplicidade será tão mais forte quanto mais marcante for o filme. Imaginemos na irreversibilidade que existe para os nossos pais quando hoje lembram quando e com quem viram o Casablanca pela primeira vez! Se o filme for mau essa cumplicidade, embora menos forte, também é passível de ser activada para outras conversas e outras tentativas cinematográficas (as apresentações do início podem ser uma pista).

A indecibilidade adolescente:
Posto isto, dirijo-me à questão que queria abordar: nesta tensão entre o desejo de estabelecer uma cumplicidade e evitar o constrangimento de duas pessoas que não se conhecem bem, surge um facto novo, um facto que em Portugal tem uma década. Falo do fim dos intervalos no cinema! Eles eram importantes porque nos permitiam ir á casa de banho, algo que com filmes de 3 horas, agora na moda, vai fazendo falta. Mas também tinham um precioso efeito na partilha para o casal circunstancial, por assim dizer, o intervalo era um momento central na construção erótico-afectiva.

A questão é que sem o intervalo uma noite poderá reduzir-se a um nivel mínimo de comunicação, prejudicando gravemente os objectivos do encontro. Portanto, esta tranformação ajuda à ausência de constrangimento comunicacional, mas molesta, e muito, a possibilidade de se estabelecer uma empatia capaz de criar enamoramento. Posso dizê-lo: hoje o enamoramento - que não o cinéfilo - escasseia nas salas de cinema portuguesas.

Porque as pessoas tímidas existem em todas as gerações, creio que seria importante criar-se um movimento social de base capaz de reivindicar a reposição dos intervalos nos cinemas. Afinal, os tímidos também têm direito ao amor. Pensem nisto.

A solenidade do papel

Leio alusões a este blogue na revista Ler e no DNa. O primeiro caso devo-o à simpatia de Nuno Ramos de Almeida, no segundo apenas posso indiciar um forte suspeito. Agradeço-lhes deveras, afinal nestas lides os retornos são o nosso ordenado, o nosso pão simbólico (mails, links, citações, apreciações de amigos, impropérios, spam,..).
Nestes tempos leio mais blogs do que imprensa, as razões são muitas. Mas, queiramos ou não, há algo de mágico no papel que o ecrã não oferece. Por exemplo, podemos ler um trabalho nosso 20 vezes no computador, mas quando o imprimimos algo de novo se abate sobre as palavras. Às vezes contristamo-nos com o efeito, outras vezes nem por isso. Em última instância é esse "nem por isso" que nos auto-certifica. Nunca entrego um trabalho sem o ler em papel, a tinta é sempre o teste derradeiro. Também por isso blogar é fazer acrobacia sem rede. Como se fora um compromisso solene.

Europa contra o terrorismo de Estado

Miguel Sousa Tavares reflecte sobre a sondagem feita pela comissão europeia. Nela os Europeus apontam para Israel e para os Estados Unidos como as maiores ameças à paz mundial. E se nos tivessem feito a mesma pergunta? Eu apenas acho triste que as autoridades israelitas venham bradar ofensas com o discurso do anti-semitismo, acima de tudo, é uma falta de respeito para aquel@s que foram as suaa vítimas.

Orgasmos solares

Poucos de nós alguma vez viram o sol a nascer do mar. Um evento tão rotineiro - diário, segundo parece -, tão acessível, e, no entanto, ausente de tantas biografias...
São constatações simples como esta que nos instam a quebrar com o paroquialismo da origem.

Alguém lhe explique carinhosamente

Estou certo que João soares deve ter muitos amigos, certamente alguns se contarão como os íntimos. Amigos, claro. É a estes que eu gostaria de deixar uma palavra:

Como por certo saberão, o vosso estimado amigo João Soares, após perder a Câmara Municipal de Lisboa, vem acalentando o projecto de liderar o maior partido da oposição, o PS. Acontece que a sua manifesta falta de vocação para exercer política em termos mais mediáticos, assoma como um óbice deveras importante para as funções que, denodamente, ele deseja assumir. Mesmo que houvesse um sistema de sucessão nas lideranças partidárias, estou certo que o seu pai - alguém que deseja o melhor para o socialismo - arranjaria maneira de inventar um filho ilegítimo com um perfiil mais adequado, para depois eliminar o vosso amigo da linhagem de poder e, quiçá, da família socialista. Não sendo esse o caso, mais confrangedor se torna dar conta dos mirabolantes intentos do João. Pedia-vos que, na qualidade de amigos próximos, o chamassem a vós, e, num tom carinhoso, fraterno, mas assertivo, lhe dissessem algo como isto: É assim João... tu não tens quaisquer hipóteses!!!!!Desiste Estou certo que ele vos irá ficar agradecido no futuro, ademais, o país passa bem sem mais novelas escabrosas.

Obrigado

Saborosos registos de uma blogsfera mais intimista

Queria que voltasses, para te matares dentro de mim.

sozinha, é isto que faço de mim. que vergonha.

Preciso de ti, amiga, e tu estás longe. Cada vez mais longe.

são 3h37. já bebi uns 5 shots, mais um vodka. tenho que olhar duas vezes este texto antes de o publicar

Ai como eu precisava de uma massagem demorada e uma coçadela na cabeça para adormecer já!


Sábi@s urbanos, jovens sages

Todas as pessoas profundamente sábias que eu conheço têm um problema estrutural nas suas vidas. A sério! Isto confunde-me, porque vai contra a ideia feita de que a sabedoria consiste em superar e evitar os problemas. Por outro lado também não sigo com facilidade a resposta possível, a ideia que todas as grandes lições vêm da descida ao inferno, e que todos os sages tiveram que passar por lá.

Queiramos ou não, o desejo de retirar ensinos de um evento terrível, confunde-se, muitas vezes, com o desespero de saber que não há nada para aprender. Quem percebe isto evita muitas agonias narrativas, segue em frente. Vazio. Se tiver que ser. Erro nestas diletâncias, e questiono: porque é que todas as pessoas sábias que eu conheço são, estruturalmente, mal resolvidas, ou então o são as suas vidas por elas.

Poetas trágicos

Reconheço uma estranha irmandade entre as convocatórias do Scolari e os editoriais de José Manuel Fenandes. Elaborações de uma genial criatividade que nunca serão reconhecidas pelos seus contemporâneos. Caros, não se preocupem, segundo dizem, Van Gogh e Artaud passaram pelo mesmo.

A pátria da democracia

Parece que nos vamos habituando à trivialidade destes números, leio no Cruzes Canhoto: o 1% de americanos mais ricos, detêm agora mais de 40% da riqueza do país. A menos que sustentemos uma concepção resolutamente estreita de democracia - um simulacro, no fundo - vêmo-nos obrigados a pôr esta pungente questão: "É isto um país democrático?"

Evasões pós-laborais

Observo que, para muitos, o blogue constitui uma continuidade para com as actividades centrais dos seus autores, espectro de luz que normalmente se conflui com a designação de blogue temático. No entanto, estou convencido que a grande maioria dos bloggers usa o seu espaço como escape onde apetece falar de tudo menos daquilo que normalmente lhes pagam para falar/fazer; vislumbro, pois, a operacionalidade de uma analogia. "A do heróico ginecologista que no fim do trabalho é assediado por uma bela mulher."

A Ameaça Comum da Humanidade

Nas últimas décadas a ideia do património comum da humanidade vem sendo crescentemente acarinhada, servindo como um hábil instrumento no sentido de proteger e valorizar elementos reconhecidos como fazendo parte do bem comum da humanidade. Produto de árduas candidaturas, Portugal já tem classificados: o Convento de Cristo em Tomar, o Mosteiro dos Jerónimos, o Douro vinhateiro, o Centro histórico do Porto, o de Guimarães, o de Évora, a arte rupreste do vale do côa, etc. . Normalmente estas importante atribuições recaem sobre bens culturais, históricos e ambientais. É obvio que eu teria outras sugestões a propor às argutas avaliações da unesco, por exemplo: o pé esquerdo do Maradona, a bola insuflável da nívea, as mamas da Laetitia, a voz da Mariah carey, (estou a brincar, mas só em relação à Mariah Carey). A questão é que tais classificações iriam colidir com a propriedade que cada que cada indivíduo tem em relação ao seu próprio corpo, mas pensemos bem, Maradona e Laetita ofereceram os seus corpos à humanidade, e, creio bem, há algo de irreversibilidade nessa dádiva. (há jogadas de Maradona que ninguém me tira, ..) Mas, como não quero entrar em tortuosas questões jurídicas, limito-me apenas a aproveitar o espaço que este blogue me confere para propor uma outra instituição passível de actuar em prol da graça comum: a Ameaça Comum da Humanidade. Imaginemos, essa ampla miríade que alguns quiseram decantar com a designação de eixo do mal, tantas candidaturas, tantos cadidatos... No fervor destes tempos ocorre-me nomear o terorismo e o seu contrário como minhas propostas primeiras. Piedosa, a encarecida história dos homens ajuda-nos na largueza da escolha.

Gosto da natureza do mal
Aprendo com as petas do Almocreve

Invenções precárias: o amor?

Já aqui tinha falado d'a invenção do amor, enquanto um insidioso forjar de sentimentos, suscitado pelas pressões (sociais e emocionais, as coisas misturam-se) para casar e/ou ter filhos, pressões essas que se tornam mais significativas a patir de certa idade. E isto, aplica-se tanto para os descendentes das monarquias vizinhas, como para o mais comum dos mortais. Desde há uns tempos venho notando outra coisa, a assombrosa capacidade das pessoas para viverem com invenções que sabem ser precárias, elaborações de sentido em que nunca acreditarão. É assim: quando uma amiga ou um amigo me conta que começou a namorar, é normal que me saia a pergunta, talvez indiscreta: estás apaixond@?

Pois é, pelo silêncio que se instala ou pelas respostas evasivas, hesitantes e contristadas: "é boa pessoa", "é gira","é simpático", venho percebendo que estamos perante uma pergunta demasiado perigosa para se colocar. Acho que vou abdicar dela, não tenho esse direito! A verdade é bem esta: há pessoas que "necessitam" de sustentar relações, amem ou não! O que é estranho é que mesmo essas se invistam em forçar o ideário romântico, cuja concepção convive mal com a própria ideia de aprender a amar. Seria bem mais fácil, penso eu, retorquirem com uma pergunta: "É preciso amar para namorar/ casar?". Mas não, embrulham-se, incapazes de deslindar o que as move, e, pior, sentindo-se desconfortáveis com isso.
AH!, caso me perguntassem, obviamente, iria ficar bem calado, é que perguntas difíceis de colocar, merecem respostas que às vezes podem levar uma vida a ser encontradas.

Walk Away

No sábado, um querido amigo ofereceu-me uma prenda cuja forma que se vai tornando proverbial desde a era dos telemóveis: uma chamada em directo do concerto de Ben Harper. A inveja, quando articulada com um certo pathos, pode tornar-se num sentimento muito belo.

O poder de um tribuno

Américo do Retórica e persuasão responde ao meu desafio e reflecte acerca das distintas capacidades discursivas de Francisco Louçã e Marcelo Rebelo de Sousa. A ler.

O Rescaldo Prometido

Como prometido dedicarei as próximas linhas para falar do Encontro Informal de Blogues ─ na verdade foi mais um encontro de bloggers ─ decorrido na passada quita feira na Sociedade de Geografia. Aviso: não levei caderno de apontamentos.
Embora o ambiente fosse bem descontraído, a informalidade não foi total, para isso contribuíram diversos factores:
Um espaço físico austero, marcado pelas estátuas dos nosso navegadores, convidando à solenidade de um museu.
Um programa que embora fosse flexível estava mais ou menos estruturado com apresentações.
O facto de a disposição não ser a de uma mesa redonda, mas a de uma plateia que às vezes assumia uma formação mais circular
A circunstância de, pelo menos aparentemente, todos intervenientes estarem sóbrios. A rever.
Conclusão: o carácter semi-informal favoreceu a reflexão e a discussão, quiçá molestando um pouco convívio.

Embora havendo mais rapazes, penso que a proporção de sexos estava mais ou menos equilibrada, certamente mais do que aquela que vigora na própria blogosfera. Ao princípio a composição geral era mais sénior do que seria de esperar, mas com o evoluir da tarde houve um gradual processo de juvenilização.

Começo pelas impressões pessoais, no fundo as pessoas que falei e/ou consegui associar aos respectivos blogues. A certa altura, quando foi preciso queimar um tempo para chegar alguém, propus que todos se apresentassem, como é óbvio não consegui associar todos as pessoas aos seus blogues, mas, pelo menos, assim posso falar dos que me lembro. A minha cusquice saiu beneficiada.
Finalmente conheci o socioblogue, um dos primeiros interlocutores que tive nesta blogosfera, é mais novo do que a sua erudição sociológica poderá fazer suspeitar. O crítico mostrou ser um anfitrião entusiasmado, simpático e divertido, algo diferente do que o seu blogue, comedido e dedicado à música clássica, sugere. Lá estava o Mário do Retorta, ao princípio pensei que era o fotógrafo de serviço depois percebi que era um blogger com uma irresistível pulsão para a imagem. A bela Luísa de Macedo de cavaleiros confessou-se leitora do avatares, lá lhe consegui pedir a sua morada. Cumprimentei o Tiago do melhor anjo, a quem perguntei se havia ficado contente com a minha réplica às questões que ele colocou em torno do xoxo da amizade. Bebi um galão com o Paulo Pereira do Blogo Social Português, trocámos algumas impressões sobre os fóruns sociais que aí vêm. JCD (Jaquinzinhos) chegou mais tarde, sentou-se num lugar do fundo, e revelou-se na apresentação, é verdade, ele e o crítico estiveram na mesma sala, naquilo que já é um dos mais épicos confrontos da blogosfera. No fim falei com o Pedro Mexia e com o Zé Mário, sou leitor dos seus blogues há algum tempo, por isso, é com desvelado agrado que registo a sua simpatia para comigo. Troquei também amistosas palavras com Paulo Querido (O vento lá fora), Joaquim Nogueira (Respirar o Mesmo ar) e Pedrof (Contra factos e argumentos). A catarina do 100 nada também me pareceu bastante simpática. É um facto, havia por lá muita gente simpática e bonita, portanto a tese de que os bloggers se escondem atrás de um computador por falta de desenvoltura social saiu bastante beliscada.

Discorro agora umas palavras sobre as intervenções feitas a partir da mesas, falo, claro, do que me recordo:
1-A representante do sapo falou acerca da nova plataforma portuguesa para blogues a entrar em funcionamento a partir de 03/11/2003- A discussão centrou-se nos limites que o sapo iria estabelecer ao gerir a liberdade de expressão dos seus utilizadores
2-Paulo Querido narrou da sua experiência com a sua plataforma de blogues e das crises de crescimento que ela tem tido. Brindou-nos com ma miríade de aspectos técnicos menos conhecidos e partilhou descobertas insuspeitas acerca do uso dos blogues.
3-Pedro Lomba, num estilo négligée que lhe fica bem, deixou algumas reflexões, muito interessantes, sobretudo pelo cunho pessoal que lhes imprimiu: o blogue como um necessário exercício de disciplina; a apetecível descoberta de interesses comuns: “É que eu tenho poucos amigos como eu”; o confesso carácter narcisista da sua escrita no blogue; a inédita oportunidade criada pela blogosfera para que quem escreve bem possa mostrar o que vale e tirar daí ganhos pessoais. Antes de terminar defendeu ainda que a escrita num blogue se encontra eivada de uma liberdade muito superior àquela que é oferecida pelo espaço de um jornal
4-O José Mário discorreu deliciosa e generosamente sobre as incidências da sua já longa actividade enquanto blogger (de esquerda). Iniciou com uma provocação (penso que foi ele), dizendo que uma das diferenças visíveis entres a direita e a esquerda na blogosfera são as caixas de comentários, a esmagadora maioria da esquerda tem, a direita nem por isso. (Pedro lomba respondeu que não sabia pôr). Contou um episódio expressivo do quanto é possível uma pessoa expor-se no blogue, em termos pessoais, sem ter disso a exacta noção: o leitor continuado de um blogue mais intimista pode reter muitos aspectos significativos acerca da vida do seu autor (oops!). Fez um comparativo com os jornais, onde salientou a existência temas e abordagens a que só é possível aceder na blogosfera (falou do avatares, eu juro que ouvi!).
5-O Pedro (do farol das artes) apresentou uma análise divertida e pontuada por uma arguta ironia acerca da relação dos blogues com os valores e instituições da nossa sociedade
6-O Mário (Retorta) falou acerca das comunhões que é possível estabelecer na blogosfera, tendo manifestado o seu desejo de que, por exemplo, a fotografia pudesse catalisar mais interesse e atenção. (A propósito o Mário deixa-nos belos fragmentos fotográficos do espaço onde decorreu o encontro.)
7-O Tiago (melhor anjo) apresentou um belo texto de cariz poético onde se expõem as ansiedades, desejos e realizações que a marcam o percurso de quem se dedica a ser blogger por lealdade a uma busca que se quer incerta.
8-Guilherme Statter, o sociólogo de serviço, fez um apanhado sobre os conteúdos tratados até então. Introduziu alguns conceitos, destaco: o capital social incrementado por um espaço de comunicação, debate e informação, como a blogosfera; o encanatamento tecnológico suscitado pela gostosa simplicidade com que podemos construir um blogue.
9-A Pedro Mexia foi a atribuída a ciclópica empreitada de lançar o debate. Não vacilou. Num discorrer diletante que cativa, Mexia referiu-se ao alargamento do espectro político-ideológico permitido pela blosgosfera, claramente mais vasto do que o circunspecto mundo partidário que surge na comunicação social. Biografou-se constatando que num ano com o Blogue fez mais inimigos dos que nas primeira décadas da sua vida, uma inevitabilidade que não o incomoda por demais, disse; sustentou que a blogosfera emerge mormente como um espaço de afirmação pessoal: “quem escreve é quem julga que em algo para dizer”, portanto, embora muitos digam o contrário, todos querem ser lidos e por quantos mais melhor (estava dao o mote).
Registo agora alguns dos momentos dos debates e das discussões.
Quem se apresentou com particular estilo foi uma blogger do Desejo casar que, após dizer o seu nome (não recordo), revelou epíteto do blogue, deixando desejosa toda um plateia que nunca tinha pensado tão seriamente no matrimónio. O João Nogueira do Socioblogue pôs em causa a meritocracia que Pedro Lomba afirmava entrever na blogosfera, assinalou a existência de Blogues muito bons que ninguém lê, colocando a hipótese de que, mais do que uma rede totalmente aberta. temos sistema que se regula por alguns nodos que conferem ou não notoriedade aos demais. Uma linha em que foi acompanhado por Joaquim Nogueira que nos trouxe também alguns dados do congresso sobre blogues decorrido em Braga. A Mónica (B20b) defendeu que os blogues não podem ser estigmatizados apenas como um hobby, sob o perigo de se descurarem as suas potencialidades enquanto uma extensão do trabalho científico. Rui (do Adufe) falou acerca de uma proverbial falta de uniformidade nas traduções realizadas em portugal de termos estrangeiros, algo que se nota no mundo dos bolgues, mas que também já sentiu na pela na sua vida profissional. Pedrof do contrafactos e argumentos brindou-nos com a sua erudição acerca de aspectos mais técnicos da blogosfera, das dificuldades e possibilidades para a organização de informação. Eu também mandei para lá umas postas reflexivas e analíticas, perdoarão mas tinha que justificar a viagem!

Creio que não me lembro mais nada, deixo-vos pois este texto pontuado de omissões e selectividades pelas quais desde já me sentencio. As incorrecções ou difamações aqui achadas têm direito de resposta.

profecias bogosféricas

"Acredita, nunca pensei em prostituir-me, mas Bruno, tu sabes que aquele link era importante para mim! Espero que compense, ela deve linkar-me hoje..."

Os decotes e o ar condicionado

Milhares de mails curiosos perguntam-me se no meu entender a primavera deveria ser um fazer de ninhos em decotes alheios. Respondo: os decotes existem para promover essa aspiração - tão só-, o simples facto de ela poder ser pensada é já, segundo algumas escolas de pensamento, parte constitutiva de uma qualquer ideia mediterrânica de primavera. Nela participam mulheres e homens com igual dedicação.

Um dos elementos estruturantes da evolução humana foi a progressiva libertação do desejo sexual de uma matriz marcadamemte sazonal ou periódca, a disseminação de ar condicionado pelas bibliotecas, escolas e serviços, será o passo último nessa longa caminhada.

A ler

Miniscente explica, numa prosa que apetece, o que lhe dizem os desilusinismos.

Olivença é vossa e o resto também

As sondagens da TSF põem Louçã na liderança da oposição. Na minha opinião, Francisco Louçã é, desde há muito, o melhor parlamentar português a discursar. Não sei que opinião faz disto o retórica e persuasão. (O Marcelo Rebelo de Sousa tabém daria um bom tribuno). O que é certo é que no quadro actual da política portuguesa, em que estamos perante um clara crise geracional de políticos com qualidade e carisma, ele vai consolidando um capital de credibilidade, seriedade e notoriedade comum a poucos dentro da vida político-partidária. Algo que é tão mais interessante quando sabemos que o Bloco vem estando colado à ideia de um radicalismo inconsequente. No entanto, isto também pode ser um problema para o Bloco de Esquerda, que, embora querendo impôr uma lógica de protagonismo partilhado, se vê claramente dependente do carisma de Louçã. Onde uns pecam por excesso outros pecam por defeito, o marasmo é a regra, Louçã, na minha perspectica, a excepção. Por este andar o dia da restauração da independência será decretado dia de luto nacional.

Desilusionismos

O nosso romancista, Miniscente, resgata uma frase feliz neste blogue. Eu gosto muito de uma palavra que ele tem no subtítulo do blogue: desilusionismos.. Serão os desilusionistas os Houdinis da escrita?