Vem deleitosa primavera

Chuva. Virá breve a primavera para nos trazer de volta as andorinhas e os decotes. Ah! Os decotes... consoante os casos poderemos usá-los, olhá-los ou desviar a face. Pouc@s lhes negam a alma, alguns, algumas, buscarão fazer aí o seu ninho; nada que não esteja previsto.

Neste fim de semana elaborarei um relato mais completo sobre o Encontro de Bogues de ontem. Para que a coisa não saia exaustiva, aguardo apenas por uma triagem a ser operada pela minha selectiva memória.

Encenações delirantes

"A minha vaidade e a minha nostalgia montaram uma cena impossível"

Jorge Luís Borges

Borges, creio, falava de uma cortesia que um morto lhe havia prestado. Estes ensandeceres, habitualmente compostos quando lavamos os dentes, descalçamos um sapato na borda da cama, ou nos dedicamos a outras prosaicas demoras, são assim mesmo, por vocação nunca sobem a palco, querem-se, há que assumir, demasiado tardios, demasiado nobres para nós. No entanto, há quem diga, representam um relicário demasiado importante para não ser acarinhado como "nosso": os nossos fracassos, aqueles que inventámos e nutrimos para nos entreter - desgraçar, talvez. Um dia estive duas horas para descalçar um sapato, horas grandiloquentes. Desgraçadamente.

Despojos do dia

Chego de Lisboa, demasiado exausto para vos falar com algum cuidado do Encontro Informal de Blogues, dos seus intervenientes e temas mais suculentos. Até porque temo - por mim - que o pessoal tenha ido para os copos, pelo que, nesse caso, a minha leitura ficaria eivada de uma grave incompletude. Em duas palavras, gostei muito, de facto, o crítico musical está de parabéns pela iniciativa. No entanto, devo confessar que o meu manifesto gosto pela discussão, pela análise crítica, e pelas profecias antropológicas, não conseguiu sobrepor-se a uma curiosidade, chamemos-lhe infantil, de ver as pessoas enquanto presenças incorpóreas em acção interpessoal. Alguém falava de um encantamento tecnológico decisivamente associado à blogosfera. Até certo ponto, o encantamento pode fazer sentido, mas para mim a tecnofilia não podia ser mais residual. Assumidademente, tenho uma relação interesseira com as inovações tecnológicas, uso-as mas sei que não as poderei amar. Concedo, pois, que as pessoas e os seus enigmas, e os enigmas que as pessoas são, persistem sendo o móbil primário da sedução que as palavras exercem em mim. A estas consigo amar, mas a sua autopoeiesis, algo a que se poderia chamar literatura em sentido estrito, é qualquer coisa cuja existência me é desconhecida, talvez por uma incapacidade de centramento, por um reiterado desejo de resvalar para as minhas narrativas ou para as de outrém; às vezes as dos autores, às vezes as muitas emanações permitidas pela sua morte, a tal que Roland Barthes prenunciou referindo-se a uma proliferação não domesticada de sentido. Bem, vou dormir, não sem antes...

Encontro

Decidi, se tudo correr bem, amanhã, a partir das 15:00, irei a Lisboa espreitar o Encontro informal de blogues : Blogues, moda efémera ou meio de comunicação de futuro? Se conseguir, passarei primeiro pela Biblioteca Nacional para consultar uma requisição antiga, quero ver se espremo bem a viagem. Vamos aguardar... isto de bloggers de carne e osso deve ter o que se lhe diga, por isso. amanhã direi algo sobre o assunto. Seja como for, o tempo passado no bar do Intercidades não me costuma desiludir.

democracia, pois então!

Um post de antologia do Diabo:

"FARTO: A conversa decorria há meia hora. Começava a estar farto de tanta banalidade. Farto de tanta estupidez. De tanto sentimentalismo, verborreia, imbecilidade. Farto de frases descosidas, menores, absurdas, repetitivas. Farto de tanto aborrecimento. Assim sendo, decidi calar-me e deixar que ela enfim falasse um bocadinho."

Reflexões em torno do xoxo da amizade

O post sobre os xoxos da amizade provoca reacções. O professor angustiado oferece-nos uma preciosa leitura de outros contextos culturais: "Tendo vivido nos EUA durante quatro anos, num contexto universitário, com uma
cultura muito peculiar, tenho que concordar INTEGRALMENTE com a caracterização
do "xoxo da amizade". Inserido num grupo mais ou menos fechado e coeso de
estudantes internacionais, predominantemente europeus, eu próprio o pratiquei
regularmente com francesas, russas, americanas e americanos. Em particular,
com Diane (uma americana) e com Elena (uma russa) era quase exclusivamente a
forma de saudação. Infelizmente, como em muitas outras áreas, Portugal
encontra-se ainda bastante atrasado na adopção deste costume tão
característico dos países desenvolvidos."
Deusa do Blog mostra-se mais crítica:
"Devo dizer que essa coisa do "xoxo de amizade", a ser a sério é coisa de eunucos. Gente normal mete a língua. Mas de qualquer forma o conceito é estranho. O que teremos a seguir? "Sexo de amizade"? O tipo(a), nú, chega ao pé da tipa(o) por trás, abraça-a(o) e encosta-se a ela(o) e diz-lhe: "És a minha melhor amiga". De seguida, veste as calças e vai jantar.... hum...."
Andreia, a Borboleta, medita na sua doce experiência:
"Venho por este meio (demasiado público, é verdade) assegurar que a sua reflexão acerca deste fenómeno está correctíssima e que eu subscrevo tudo pois... já experimentei. Foi com a minha roommate e foi engraçado. Acima de tudo, um xoxo da amizade... é um acto bonito.Ter-me-ei comprometido de alguma forma?"
Adeus é peremptório
"Penso que o xoxo de amizade simboliza o contrário de uma "amizade chocha"."
O relativismo cultural poder ser apenas isto, procurar perceber como os eventos adquirem sentido nos contextos das suas práticas. Aqui valem não apenas as diferentes constelações de significado das culturas em que elas acontecem, mas também as narrativas biográficas dos intervenientes. Dois elementos que estruturam decisivamente a ideia que se faz do xoxo da amizade, a tensão entre eles fica deliciosamente expressa na pergunta final da Andreia "Ter-me-ei comprometido de alguma forma?", já Fernando, o Professor Angustiado, fala de um espaço-tempo em que os xoxos adquirem naturalidade. Uma doce naturalidade diria eu, mas, claro, sou suspeito.

Continuarei a recolher opiniões.

O que é um "xoxo da amizade"?

Respondendo a milhares de apelos, passo e explicar, tentativamente, o que se poderá querer dizer com "xoxo" da amizade.
O "xoxo da amizade" é uma instituição cultural emergente nas gerações mais novas. Numa primeira instância, o xoxo da amizade deve ser distingido do beijo amigo, este último deve o seu nome à recente linguagem belicista que vem falando do "fogo amigo" para refrir as mortes e ferimentos infligidos por um aliado no combate. Nesse sentido, o beigo amigo seria, quando muito, uma alusão irónica aos beijos que desgraçam a vida a quem os recebe, imaginemos, por exemplo, alguém que é beijado de um modo demasiado afectuososo sob o vislumbre intrigado da namorada, ou alguém que é beijado em solícita amizade e se apaixona estupidamente, temos, pois, actos involuntários, ou demasiado voluntariosos, com nefastas consequências.

Esclarecidas as distinções, voltemos ao xoxo da amizade. Este consiste basicamente em beijos dados na boca entre amigos. No entanto não podemos chegar ao absurdo de pensar que sempre que dois amigos se beijam na boca estamos perante um beijo da amizade, na verdade este conceito cobre um numero de práticas bastante específicas e obedece a normativos mais ou menos precisos:

1- É uma demonstração de afecto entre amigos, usualmente restrita a um ciclo fechado de amizades fortes
2- Apenas se empregam os lábios, por breves instantes, e com a boca fechada
3- Ocorre em momentos festivos, normalmente imbuídos de algum tipo de euforia
4- Não representa uma violência simbólica - os beijos a sério têm sempre uma violência simbólica, esta poderá elidir-se, por exemplo, nos reiterados beijos de um casal ao longo dos anos, mas, mesmo aí, há uma violência simbólica fundadora
5- Pode ser dado entre pessoas de sexos diferentes ou do mesmo sexo, não havendo, portanto, uma relação necessária com o género ou a orientação sexual dos intervenientes
6- Não comporta o cunho de uma traição, uma vez que o significado em causa é a amizade e, por isso, não colide com o amor e as relações amorosas.
7- Não comporta erotismo, ou pelo menos o única carga erótica que poderá ter é a sugestão que cria a quem observa
8- Regra geral é feito em público, não apenas porque de outro modo se poderia entrar no campo de uma intimidade sensual, mas também porque um dos valores que está em causa é a demonstração pública de um afecto.
9- Nunca se usa a língua, o seu uso envia-nos para outras práticas culturalmente sancionadas, e constitui uma adulteração do espirito da coisa
10- É uma subersão domesticada porque tende a ocorrer em contextos sócio-históricos em que o seu uso é compreendido nos termos estritos da amizade. Por isso, é importante que os outros significativos não possam sobre-interpretar esta prática
11- A haver espectro de uma trangressão ele está relacionado com os valores homofóbicos dominantes que tendem a ser rigorosos nas práticas corporais sancionadas para indivíduos do mesmo sexo.
12- Poderá ter um efeito performativo nas relações, ou seja, não é apenas a demonstração de uma amizade existente, pode servir para a fortalecer alterando assim a sua natureza.

É uma decrição precária de uma prática pouco praticada na sociedade portuguesa, mas que se vai disseminando em espaços cosmopolitas associados às culturas jovens, como Barcelona, cidade onde nunca estive.

A talhante

Extravaganza premeia (ex-aequo)o meu post Momentos Chave para a categoria de humor da semana. Atrasado, queria agradecer esta atribuição à extravaganza e às funcionárias do Pingo Doce (embora não conheça a do talho, onde nunca vou, o prémio também é para ela).

Metablogue II

O Blogue Trágico: Nietzsche e Shopenhauer (o humor trágico de um clube chamado Benfica)
O Blogue do Prazer: Aviz (uma cerveja pode ser um post)
O Blogue da vergonha: Vítor Vitória (Um blogue para envergonhar quem tentou acabar com Vítor Baía)
O Blogue em profundidade: Companhia de Moçambique (memória de um império periférico)

Diplomacia inteligente

Com denodado orgulho, Durão Barroso repetiu ao longo de toda a sua visita a Angola que antes de se descobrir o petróleo, Portugal já mantinha relações estreitas com aquele país. Dr. Durão Barroso, a isso chamava-se colonialismo, havia quem não visse a coisa com bons olhos, até deu em guerra, lembra-se?

Os Blogues agonísticos

Nas reflexões que os bloggers mais antigos vão fazendo da sua actividade, noto uma transição motivacional. Explico. Ao princípio o gosto de Blogar era mormente expresso como estando associado ao desejo de feedback, de um correlato ao que se escreve e faz na arena pública, algo que na blogosfera é bem superior a outros espaços de comunicação que, inclusive, muitas vezes, atingem um público mais vasto. Ao fim de uns meses a ênfase parece ser dada à obrigação que o blogger criou para com os seus leitores, às expectativas criadas e ao desejo de não as desiludir. Chamo a isto de escrita agonística.

Frio de gretar

Eu sei que a denúncia é mais ou menos grave, portanto limito-me a deixar aqui uma pergunta que me parece mais pertinente, agora que o frio aperta. Será que os batons para o cieiro têm algum produto para criar adição? A questão ocorre-me porque sempre que tento socorer os meus lábios gretados com um desses batons entro num ciclo de vício de qual tenho dificuldade em sair. Pelo sim pelo não acho que me vou virar para a manteiga de cacau, dizem que resullta e não dá ressaca.

O melhor anjo pergunta-me o que é um xoxo da amizade. Definirei em breve este conceito que talvez merecesse ser re-baptizado.

Linka-me mucho

Cruzes Canhoto, já com uma merecida alta, apresenta uma bibliófila lista de links onde me concede a graça de Lévi-Strauss, evocando a Antropologia Estrutural. Para L.S. os escribas de mitos emulam-se porque partilham uma humanidade de onde o pensamento emana segundo lógicas inescapáveis. Ainda que equivocado por supor os mitos, as culturas e suas cosmovisões como meras matizes da psique humana, Lévi-Strauss, ao seu estlilo, foi um xamã que pôs mundos em relação celebrando a diferença. Nada mais certo. Obrigado canhotos.

Espaço do leitor da voz

Sinto-me deliciosamente atrapalhado com a simpatia do Tiago. Quando o conheci era solteiro, recordo-me do seu grande brinco na orelha, da sua irmã gémea, e de uma horde de admirador@s - da sua música e não só. O Tiago, investido de fé, há muito percebeu que "a única maneira de identificar as causas de sermos como somos seria contar uma história sobre as nossas causas numa nova linguagem" (Richard Rorty). Num estilo minimalista que convoca ao deleite de cada palavra, a voz é a expressão criativa dessa viva consciência. Um blog único, pois.

Dás-me um beijo?

Ontem, num animado jantar comemorativo, uma bela jovem apontava os ridículos da cultura masculina. Desesperada por eu concordar com tudo começou a "picar-me", consubstanciando um qualquer argumento, calei-a de estupefacção quando dei um "xoxo da amizade" a um amigo meu que entretanto se tinha juntado à conversa. Recomposta do embate, virou-se para uma rapariga que ali estava, e que não conhecia, olhou-a nos olhos e perguntou suavemente: "dás-me um beijo?". Beijaram-se. Era óbvio que se tinha entrado no campo da demagogia, não obstante, uma tal capacidade de “improviso” merece-me alta consideração.

A etnografia impossível

Profetiza Tiago: "Chegará o dia em que ao falarmos de espiritualidade não teremos de o fazer num balneário".

Balneários. A brincar ou a mais a sério, sempre joguei futebol, sempre frequentei balneários(frequentar?). Um dia escreverei uma monografia sobre a relação dos balneários com a cultura patriarcal/homofóbica. Mas deixo-vos desde já uma questão que há anos me vem intrigando.
Porque é que o pessoal antes de ir para o banho faz umas discretas festinhas ao pipi para ele ficar maior, tipo, a meio gás? Será que querem que a sua masculinidade seja bem representada, ou preparam-se para a possibilidade de uma orgia homo inconfesadamente desejada? Na verdade os rituais machos fundam-se na negação desta dúvida, portanto, é ela que os sustenta.

Sei que há um projecto que nunca realizarei, a etnografia de um balneário feminino. Um projecto epistemológico tão ambicionado que chegei a sonhar com ele na minha adolescência. Às vezes a injustica do mundo revela-se com estes requintes de malvadez.

Outra coisa que nunca poderei estudar empiricamente é a solidão de um camionista de longo curso. Mas penso nela, há aí uma qualquer metáfora que deve funcionar ontologicamente.


jinhos, jocas, bjinhos, *

As pessoas afectuosas tocam o ombro dos outros quando dão dois beijinhos. As mais doces beijam-lhes o lábios. Os trágicos nunca amam quem deviam beijar.

10

Deco é o melhor jogador português desde Eusébio.

Momentos chave

Todas as passagens são percebidas por momentos liminares que se constituem como as revelações pessoais de transformações históricas e políticas. Estes eventos angélicos que nos aparecem não constam de enciclopédias, mas sem eles o sentido da história ser-nos-ia um país estranho onde se fala outra uma língua, simultanemamente irredutível ao nosso idioma e à nossa intelegibilidade.
O cartão dominó já não dá descontos no Pingo Doce! soube-o hoje pela rapariga da caixa, nunca quis ter um, mas agora que desapareceu sinto que algo em mim se foi para sempre Este é um daqueles eventos prosaicos que nos tiram referências e nos deixam a sensação do fim de um tempo. Dou mais exemplos:
O longo século XX português terminou quando Artur Jorge cortou o bigode.
A decadência da Tv2 começou com o fim do Agora Escolha.
O "Fim da história" a la Fukuyama (em que eu não acredito) aconteceu quando o Gorbachev fez um anúncio para a Pizza Hut.
O Jogo das selecções Portugal-Angola marcou o fim da guerra do ultramar (mais uma vez o absurdo venceu).
A ida do Rui Águas para o Porto prenunciou o emergir de um Benfica que luta pela UEFA até ao fim dos tempos.
A integração europeia deu-se com a inauguração da primeira loja da Zara em Portugal
A geração de ouro acabou quando Paulo Sousa teve a primeira lesão grave.
A ocaso da democracia portuguesa deu-se com a pimeira eleição de Alberto João Jardim
O 25 de Abril morreu quando Otelo entrou num clip erótico para o programa da Elsa Raposo
A imigração do leste da europa começou quando o Befica contratou Iuran, Kulkov e Mostovoi
A sexualidade masculina começou a ficar dependente do viagra quando Otelo entrou num clip erótico para o programa da Elsa Raposo
O primeiro post do meu pipi inaugura a disjunção entre a temática do sexo e as erecções que lhe vinham sendo adstritas
Os anos 90 começam com um grito de Gabriel Alves (Ohhhhhhhhhh) e terminam com a naturalização do Deco.
Finalmente, o fim dos descontos do cartão Dominó marca a impossibilidade de comprarmos pão e leite e, ainda assim, pugnarmos pela difrença. Uma crise de identidades, pois.

Dogville II

Tenho lido e ouvido diversas opiniões acerca de Dogville, fico persuadido que poucos filmes têm dividido e extremado tanto as opiniões. A propósito da minha nota, Carlos Sofia escreve-me um mail em que nos oferece a sua leitura absolutamente desgostada: "O filme em que os heróis se tranformam em anti-heróis numa queda cataclísmica, num extremo inverosímil e aviltante à dignidade humana, recorrendo a um tolo “cunho intelectualóide”. Registo também a opinião de Klepsydra (Nuno Mendes): "Maldade, inteligência, talento e arrojo juntos num grande filme" Chaimite "Perante o constrangimento, perante a violência, ficamos desprotegidos"

Como muitos, Carlos vê a narrativa alegórica como um ofensa à dignidade humana, os cépticos antropológicos vêem a sua (falta de) fé na humanidade representada na queda de um Éden humanista. p.s. Mais lá para a frente procurarei fazer um lista das críticas que surjam na blogosfera, por favor dêem-me nota do que por aí anda escrito.

As babes e a lourinha de desporto

Por via de alguns programas de rádio e de televisão dirigidos às culturas jovens, popularizou-se em portugal o termo babe para referir um elemento mais crocante do sexo feminino. O recente uso da expresão babe serve a uma renovada linguagem patriarcal e falocêntrica que coisifica a mulher deíficando o desejo masculino. O termo babe é tão mais interessante porque representa uma novidade - é uma importação linguística imbuída de actualidade -, constituindo, ao mesmo tempo, uma perpetuação geracional de discursos afirmativos do maculino. Ou seja, os jovens de hoje dizem babe como os nossos avós diriam febroca. Será que nada mudou? Eu acho que sim, dá-me particular gozo concluir que o uso de babe está definiticamente ancorado à ansiedade da perda de um patriarcado que ulula "viva ao rei" no átrio da sua morte. Cada vez mais os aduladores babes têm dificuladade em conformar-se às suas próprias criações, tarde ou cedo concluirão que elas têm vida própia e antes de babe já tinham um nome. Nestes tempos há que fazer as exéquias ao rei para beijar a raínha. Estaremos já numa fase pós-babe?

p.s. Os posts de Pedro Mexia acerca da lourinha de desporto representam de modo hilariante esta passagem, vide "Cara «lourinha» de desporto":
Numa onda pós (ou não) deixo-vos com Eugénio de Andrade

Madrigal

Tu já tinhas um nome, e eu não sei
se eras fonte ou brisa ou mar ou flor.
Nos meus versos chamar-te-ei amor.



TMN patrocina a democracia em portugal

Junto-me à sugestão do anarca constipado: "e se a TSF desse em directo as escutas?". (pelo ímpeto anti-PS seria mais a sic, mas siga). Isso, sim! Acho que está na altura de o nosso sistema judicial se articular de um modo mais honesto com a democracia cognitiva. Apenas uns excertos nos jornais parece-me um pouco terceiro-mundista.

I can't argue with that

Sou não fumador - ou, melhor dizendo, não sou fumador-, convenci a minha mãe a deixar de fumar ao fim de 28 anos, evito comer fritos e tenho a mania que sou desportista. Portanto, embora avesso a processos culturais de estigmatização, tendo a ser sensível a dados semelhantes aos que o nosso médico apresenta quando alerta para as implicações do tabaco. Contudo, o argumento pró-tabagista da Maria cala-me fundo: "O cigarro faz-me companhia".

P.s. O possível efeito perverso da campanha que decorre será fazer do consumo de tabaco um acto de contestação. Ainda que possamos ter dúvidas em relação aos meios anti-tabágicos, não creio que se deva fomentar um enriquecimento simbólico da ideia de fumar como se de uma resitência subversiva se tratasse. Temo ficar tentado.

anotações partidárias

É curioso verificar que com o PS em depressão toda a esquerda fica pesarosa. Uma solidariedade ideológica? Um pragmatismo alter-direita? Um pragmatismo anti-direita? O que parece certo, é que com um gradual êxodo de apoiantes para o Bloco de esquerda, o PS começa a ter algo a ver com a Académica, cada vez é mais popular como segundo clube.

Alô, Polícia Judiciária?

É certo, aquando da prisão de Paulo Pedroso, houve pressões gravíssimas da parte da direcção do PS. No entanto, creiam que, mais do que a separação de poderes, será o cagar a reprecutir-se num juízo popular do carácter de Ferro Rodrigues Não obstante, entendo que há algo de estranhamente perverso em se fazer análise política sobre conversas privadas mantidas ao telemóvel, isto, como se fosse a coisa mais normal do mundo. Será que eles também fazem escutas às sms's? Isso precupar-me-ia, não política, mas pessoalmente.

Excertos

"Estou tranquila, ele disse-me que quando se apaixonar me manda um toque para o telemóvel, até agora nada, sabes... já lá vão dois anos! (...) Combinámos que se o toque demorar muito chegar é porque se trata de um sinal para eu descer! (...) Há dias recebi um toque não identificado, mas não vi nenhum carro lá em baixo; não sei o que pensar. Mas estou tranquila. Achas que lhe ligue?"


Dogville

Dogville. Um filme angustiante em que o minimalismo cénico depressa se torna um pormenor, não obstante, um pormenor que favorece, e muito, uma leitura alegórica da narrativa. A fé no humano sai fortemente molestada de uma qualquer sala que exiba Dogville, contudo, a ambiguidade que nos guarda a esperança é uma errância que ali se leva entre a representação do homem e a representação da América, a natureza humana ou uma realidade sócio-história específica. É esta indecisão que nos suspende a fé, mas quanto mais estas possibilidades se confundem, mais precária fica uma saída para a angústia que Lars Von Trier inflige.

Heterotopias de querer: os cemitérios como lugares de paz

Visando a supressão de Arafat no processo de Médio Oriente, Mata-mouros põe à disposição uma petição para ser entregue à administração americana. Deixo aqui um excerto do texto da petição: We urge you to rally international support and take the necessary steps to remove Arafat and uproot his terrorist organization. The continued success of the global war on terror and the future peace of the world depend on it!. Muito bem, a paz depende da eliminação da voz do subalterno (a representação simbólica desa voz). Melhor ainda, se bem traduzo, tudo em prol do " continuado sucesso da guerra global ao terror". Estou rendido!, estes homens deviam ser contratados para as produções fictícias. Onde é que eu assino?

Cabelos étnicos

Shampoo para cabelos étnicos? O Corporate Multiculturalism não tem noção de ridículo?

Acho que "shampoo" vem duma palavra hindu, assim se prova que o étnico que vende tem pouco a ver com a diferença cultural que nos subjaz.

Os perigos do "inimigo público"

Estava eu a ler o “inimigo público”, enquanto esperava na fila dos correios – na verdade estava sentado, porque eles têm aquelas fichas para marcar a vez como nas charcutarias dos hipermercados. Naturalmente, a minha leitura lá ia sendo entrecortada por uma gargalhada mais ou menos contida. Até que reparei no olhar desconfiado dos presentes, percebi então que os meus risos e sorrisos continham uma dupla provocação: a um pesaroso quotidiano, que a espera ao fim da tarde na estação dos correios tão bem representa; e ao momento da actualidade, portuguesa e não só, quem se ri nestes tempos a ler um jornal? Fosse pelo que fosse, arrumei o suplemento, e comecei a ler as notícias do Público, tomei um ar grave, numa espécie de reverência. Naqueles minutos, enquanto a funcionária não chamava o número 577, participei resignado naquela difusa dor colectiva. Não sei quando poderemos voltar a rir-nos nos correios.

Olhos nos olhos

Os casais de apresentadores estão na moda. Quando o parzinho está virado para a câmara falam alternadamente. Engraçado, não consigo deixar de vigiar o sorriso forçado daquel@ que fixa o ecrã enquanto espera que o outr@ acabe de falar. Acreditem, com esta perspectiva, os programas de entretenimento são investidos de uma insuspeita tensão.

Preconceitos na toponímia blogosférica

Corrigindo uma gravosa negligência histórica acrescento o desejo casar aos meus links permanentes. Ao fim destes meses já devia ter aprendido que nenhum blogue se apreende pelo nome que o designa. Em todo o caso, é admirável o modo como el@s têm sobrevivido à minha descuidada omissão.

Relatório de uma não ocorrência

No outro dia, estava eu a conduzir tranquilamente numa das sossegadas ruas de Coimbra, quando vejo alguém estendido na passadeira. Assustado, encostei a minha 4l, e aproximei-me do local onde estava prostrado o acidentado. Perguntei-lhe se estava bem, pelo modo como respondeu percebi apenas que estava podre de bêbedo. Chamei o 112 de imediato, enquanto esperava, começaram a surgir curiosos, entre eles, algumas vizinhas que se apressaram a contar-me a história dele: "sabe, é muito boa pesssoa, o mal dele é o alcool, costuma estar sempre ali no café em baixo a beber, é muito educado, nunca incomoda ninguém".

Chegou a polícia, o serviço de emergência, e fez-se ali um fórum, alguns discorriam sobre a vileza de alguém que atropela e foge, outros defendiam que o grau alcoólico deveria ter sido responsavel pelo embate, outros falavam de uma filha distante. Nisto, e dado que já não fazia ali nada, peguei no carro e parti. Fui pensando na solidão, a atroz solidão que leva alguém ao alcoolismo, ou que dele resulta, a cruel solidão que faz com que alguém se deite na passadeira, no meio da estrada, apenas para chamar à atenção de gente. Percebi cedo que ele não tinha sido atropelado, curiosamente valeu-me um conto de Mia Couto, onde ele evoca um homem que se atirava para a frente dos carros, apenas para poder ficar alguns minutos a falar com o "seus" condutores. O modus operandi deste era diferente, o risco de morte semelhante. Imaginei o meu "acidentado" como alguém que um dia terá tido quem lhe afagasse os lençóis, beijando-o de boa noite, imaginei-o deitando-se segredo na passadeira, aconchegando-se enfim com o burburinho anunciado pela chegada da minha 4l.

O clubismo exacerbado

No meio de uma polémica, Pinto da Costa afirmou que considera o Papa João Paulo II a mais importante personagem do século XX. Eu quero anunciar que discordo. Apenas digo isto porque não podia desperdiçar esta oportunidade rara para mostrar que o meu espírito crítico ainda resiste a um clubismo que sei exacerbado.

Já agora, como dizia há dias a uma amiga, devo explicar que ser portista em Coimbra, implica resistir, resistir arduamente à hegemonia de Benfica e Sporting - em número de adeptos claro. Logo, o ardor do meu portismo, é o ardor de um grupo minoritário que procura com argumentos e vitórias resistir à evidência sociológica da sua infeririodade numérica. Ser apenas postista nunca foi uma opção para mim.

Obrigado!

poder-se-á dizer que recusar um elogio é querer ouvi-lo pela segunda vez. Por outro lado, quem sabe sempre como aceitar elogios é alguém que tem já um habitus de gratidão que apenas residualmente interfere com o sentido daquilo que se faz. Por isso, os elogios significativos nunca poderão encontar que os "saiba" receber. É obviamente alojado nesta "incapacidade" que me enuncio embevecido com a apreciação do José Mário. Sem dúvida que ela ecoa em mim com ressonância: já tinha ouvido falar do Blog de Esquerda antes mesmo de saber o que era um blogue. Descobri depois que esse era um dos poucos blogues cuja conteúdo nunca seguiu a notoriedade; ainda hoje o inverso se passa.

Blogar como um relógio suíço

Alguém me referia há tempos que admirava o modo quase religioso com que eu debito um post diariamente. Na verdade, há uma coisa que eu estou a tentar fazer há muito tempo com este Blogue, algo que não tenho conseguido: ficar um dia sem escrever qualquer linha. Devo confessar que o facto de estar por estes meses agrilhoado a um computador constitui uma forte escusa para esse meu insuceso. Portanto, não sei se a regularidade das minhas postas (um termo que des-sacraliza a solenidade de "escrever") resulta de uma férrea disciplina, ou da falta que ela sempre nos faz. Ao lastro dessa tensão chamo blogue.

Meta-Post I

Inicio, sem qualquer priodicidade fixa, a entronização de alguns blogues que registam algum tipo de singularidade que me ocorra destacar. Começarei pelas categorias O Blog-de-Culto, O Blogue-da-fina-ironia e
E O Blogue-da-experiência.
O Blogue de culto vai para O Meu pipi
O Blogue-da-fina-ironia vai para O Homem a Dias
Blogue-da-experiência vai para Buba (à laia de de introdução, direi apenas que este blogger tem um neto que também é blogger)

Como se percebe, as categorias serão escandalosamente aleatórias. Os escolhidos estão sujeitos à contingência do que me é possível conhecer, por isso, outras sugestões de "blogues esquecidos" nestas atribuições são bem vindas.

O Masturbador envergonhado II

Há dias publiquei um post em que falava dos dois tipos de pessoas que passavam mais de 20 minutos num clube de vídeo: os casais com gostos diferentes e os tais masturbadores que aguardam o esvaziamento da loja para se aproximarem da secção porno. Para Mim Tanto Faz e Adeus, não contentes com a trascendência do observador, assinalam, acutilatemente, que eu teria que permaner 20 minutos no videoclube para o saber. Esta pergunta poderia representar o delicioso ocaso das instâncias positivistas de verdade. Direi apenas que os clubes de vídeo com Sport Tv convidam a hesitações fingidas até que o árbitro aponte o caminho dos balneários. A vida do masturdor envergonhado ficou mais difícil desde que surgiu a Sport Tv.

A salsicha solitária

Uma das melhores expressões da ganância humana, emerge junto junto às barracas de cahorros. É incrível a quantidade de items que tentamos pôr entre o pão e a salsicha, apenas porque o preço é o mesmo. O chão cheio de despojos é a prova última desse descontrolo.

O elevador perfumado

O espaço delimitado pelo elevador é um raro locus para a fruição de cheiros. Nem sempre a coisa corre bem, às vezes apanhamos com prefumes enjoativos e intensos, outras vezes deparamo-nos com a certeza de que alguém no prédio não usa desodorizante. Mas o mais interessante é o facto de as essências se conjugarem continuamente com a entrada e saída de pessoas, ali, em movimentos ascendentes e descendentes. Por exemplo, ao domingo pelas três horas, o elevador é o compósito de todas as refeições que foram cozinhadas no prédio, sem dúvida, um caldeirada odorífera. sabem, o que gosto mesmo, é sentir o lastro dos prefumes que ali permanecem, assevero-vos, acontecem eventos odoríferos absolutamnete únicos e singulares. Escrevo-vos estas linhas porque ontem descobri a essência sublime no elevador do meu prédio, qual personagem de Patrick Suskind. Nâo sei quem foi - a vizinha do segundo direito deve ter contribuído, a pele dela é uma mais valia para qualquer mistura-, nem sequer sei se seriam apenas perfumes femininos, o que é certo é que descobri uma melodia aromática que me fez andar para cima e para baixo a gastar a luz ao condomínio. Eles que me perdoem, mas não resisti. Hoje fui lá, já tinha desaparecido, naturalmente; é duvidoso que volte a encontrar uma tal colectânea de prazer sensual. Mas agora, para mim, andar de elevador representa uma esperança.

Bragança, o novo red light district da europa

Estive este verão em Amesterdão, acidentalmente hospedei-me no próprio red light district, mesme em frente a um "salão" de sexo ao vivo. Estive há uns anos em Bragança, segundo a Times, a nova zona vermelha de europa. Socorrendo-me da memória para esboçar um um comparativo, só posso chegar a uma conclusão: Bragança deve ter mudado mesmo muito!

Nostalgia da rádio

Cibertúlia e JPH voltam à carga com o tema TSF, eu, que já aqui andei a tentar catalisar indignações, acompanho-os! Desde que a TSF estreou a sua nova identidade musical, há uma só música que eu associo à estação. Refiro-me à música do despertador do meu telemóvel. eu explico. Agora, quando eu quero ouvir algum noticiário ou programa da minha (ainda) estação de rádio preferida, não tenho paciência para esperar com a antena ligada, por isso, marco a hora no meu telemóvel bem a tempo do programa visado. Outra solução é ir buscar os programas que quero à net sem passar pelas cantilenas que o meu transmissor insiste em trautear Aqui se nota que a nova identidade musical da TSF instiga a criatividade dos apreciadores da estação. Não sei onde isto vai parar, mas para mim a Rádio-nostalgia começa a fazer renovado sentido.

Lancamento promete polémica

Para quem se lembra da polémicas suscitada pelo livro O Discurso Pós-Moderno Contra a Ciência: Obscurantismo e Irresponsabilidade, de António Manuel Baptista, prometem-se novos desenvolvimentos. Refiro-me ao livro Um Conhecimento Prudente para uma Vida Decente: «Um Discurso sobre as Ciências» Revisitado, organizado por Boaventura de Sousa Santos, que será lançado amanhã amanhã, 14 de Outubro, terça-feira, pelas 18.30 horas, no Fórum da Fnac, Colombo, em Lisboa. Este livro conta com 37 artigos de investigadores de todas as áreas da ciência, que comungam das ideias do Sociólogo acerca da produção de conhecimento. Algo me diz que António Manuel Baptista tem trabalho de casa para as próximos decénios.

Cadê o Petróleo?!

Jaquinzinhos mostra-nos um interessante contador com os milhões que os Estados Unidos gastam a cada minuto no Iraque. Estranho, pelo seu argumento as avultadas somas e o custo da não re-eleição de Bush parecem assomar como o custo do altruísmo e do amor ao outro. Para mim é muito óbvio, a pulsão belicista tolda o discernimentos acerca das consequências humanas, culturais, religiosas e, aparentemente, também mitiga a capacidade de calcular petróleo. Talvez estejamos perante uma filia em relação ao petróleo que distorce a noção do objecto desejado. Seria a suprema ironia que fosse o balanço económico a decretar que a guerra foi uma má opção, sem dúvida, um grave revés para o capilatismo-militar-legitimado-por-uma-apropriação-minimalista-do-discurso-dos-direitos-humanos.

Ana Gomes

Ana Gomes desconcerta os apreciadores de políticos demagogos e dados a falinhas mansas. Como Terras de Nunca assinala, os primeiros a estranhar a diferença de estilo são os jornalistas que optam por trocar a entrevista por um debate, alternando a advocacia do diabo pela incorporação do próprio e investindo-se de uma agressividade por demais libidinal. Mas, o mais interesente, é que noto o quanto o estilo de Ana Gomes me incomoda, enerva, cria ansiedade! Esta asserção pessoal faz-me temer estar demasiado formatado ao modus operandi dos polítiquices que nos habituámos, neste sentido, este desconforto liberta-me. Quando leio as críticas às aparições de Ana Gomes, entrevejo o desespero dos apreciadores da retórica per si. Não tenho dúvidas, o ímpeto discursivo de Ana Gomes faz dela um alvo fácil, mas é sempre com um sorriso que eu observo os atiradores de serviço. São eles os guardiões da democracia de cartilha, os mesmo que se escandalizam com as excentricidades das lutas dos estudantes. Como suariam eles de ortodoxia democrática se há uns anos passassem pelas redondezas da praça de Tianamen! Ao ouvir as explicaçãos que a Procuradoria Geral da República deu para não investigar o caso de pedofilia do Le Point, alegadamente envolvendo ministros portugueses, percebo que o lastro de incúrias sobre abusos sexuais ameaça tornar-se uma sequela. E tudo porque a notícia é demasiado vaga! Mas digam-me, neste clima de arrebatamento nacional pelas vítimas não seria avisado investigar tudo que viesse a lume sobre abusos sexuais de menores?! De facto, Ana Gomes ou está certa ou está errada, não é como os comentadores bem falantes que acertam sempre! Ou Paulo Pedroso é vitima de uma armação ou é culpado. Ou há dois ministros envolvidos numa trama pedófila ou não! mas isto nunca o saberemos... é demasiado vago.

A invenção do amor

Mulheres apaixonadas soa-me a pleonasmo. Eu sei, a frase é provocatória. Perdoem-me, mas não estou aqui a fazer um qualquer julgamento sexista e essencialista do sexo feminino. Mas tenho a sensação que a novela se poderia chamar apenas mulheres, estava tudo dito! Poderei explicar melhor, identifico um imperativo a que alguns chamam a invenção do amor, processo que nas mulheres urbanas e escolarizadas se torna mais premente a partir dos 23. refiro-me, pois, a uma pressão cultural para casar e uma pulsão biocultural para ter filhos. O mesmo acontecia quando o jovem-adulto chegava à idade de sair de casa dos pais, mais ano menos ano, apaixonava-se conveniente e perdidamente. É assim desde que o Ocidente se funda numa narrativa de amor romântico para justificar casamentos, o amor tornou-se um imperativo biográfico com hora mais ou menos marcada. Convém que surja em tempo próprio. Há quem se apaixone pelas suas invenções, há que nunca acredite nelas realmente. Há quem ame, simples e romanticamente.

Consagrações

estou grato ao mata-mouros por me premiar com a melhor proposta da semana. Naturalmente, não posso deixar de fazer a alusão à inspiração que recebi de José Mourinho, Pinto da Costa, Baía, Paulo Ferreira, Ricardo carvalho, Jorge Costa, Nuno Valente, Costinha, Maniche, Ricardo Fernandes, Deco, Derlei e Postiga. Já agora não posso deixar de referir Bruno Vale, Pedro Emanuel, Ricardo Costa, Secretário, Jankauskas, Nuno, Alenitchev, César Peixoto, Bosingwa, Pedro Mendes, Bruno Moraes, Hugo Almeida, Mário Silva, Tiago e McCarthy. Para eles vai o meu muito obrigado.

Mulheres apaixonadas com legendas

Depois de aqui ter atirado tomates podres à repórter-parlamento da SIC, mudo o registo.
Devo dizer que a sic está de parabéns, a tv privada teve uma iniciativa que não apenas a dignifica, como devia envergonhar profundamente a televisão do Estado. Refiro-me à colocação de legendagem teletexto nas Mulheres Apaixonadas e à utilização de um intérprete de língua gestual no programa da manhã. A RTP, com as responsabilidades que se lhe reconhecem, apenas usa o sistema de legendagem para alguns documentários, e serve-se do intérprete na repetição do jornal da Tarde que passa na RTP2. Com este passo, a Sic mostra que os instrumentos que concorrem para a inclusão mediática das pessoas surdas poderão estar acessíveis a um leque muito mais abrangente de programas. De facto, não são precisos empreendimentos grandiosos para universalizar o acesso ao património de entretenimento e informação que a televisão pode constituir. É lamentável que a RTP ainda receba tão básicas lições de serviço público. Os incrementos de audiência poderão não ser assim tão significativos que se venham a reflectir nos ganhos da publicidade, mas representam muito acerca da sociedade que elaborámos.

Em todo o caso, convem referir: segundo os censos de 2001, portugal tem 634 408 pessoas com deficiência.

Para quê inventar?

FINALMENTE GANHEI CORAGEM PARA DIZER O QUE MUITA GENTE PENSA E VAI MURMURANDO EM SEGREDO!
Cada vez se torna mais agonizante o pouco tempo que vou aguentando ver espraiar-se aquele matagal de jogadores a que chamam selecção nacional, além disso o mau futebol faz mal à saúde, pelo menos à minha. Não aguento mais guardar para mim esta questão tão politicamente incorrecta como óbvia: Porque é que não se põe a equipa do Porto a jogar de verde e vermelho?!?! Era tão mais fácil!... Naturalizavam o Derlei e punham o Postiga no lugar do McCarthy, e mais nada! um onze de luxo! Sinceramente, sem clubismos, alguém tem dúvidas que melhoraríamos abismalmente de produção? É claro que ao princípio seria um choque ver a selecção jogar como equipa, mas depois uma pessoa ia-se habituando.
Jogos com esta selecção só se for para comer leitão e vir embora antes do início do jogo, mas compreende-se que o Jaquinzinho tenha ficado a ver a partida para fazer a digestão.

códigos...

Apontar é feio, linkar não.

Palavra de honra

Às vezes existe a perversa tentação de cobrar os colunistas pelos temas que elegem. o mesmo acontece na blogosfera, já aqui vi acusar muitos silêncios, sobretudo a bloggers com algum protagonismo social. Parece definir-se uma espécie de corelação positiva entre mediatismo e responsabilidade temática. E isto nota-se também, no lado inverso, nos blogues mais confessionais, fala-se do que se quer, ninguém cobra nada, chega-se a menos gente: um preço justo. Posto este preâmbulo, atrevo-me apenas a dizer que, em face dos novos desenvolvimentos no caso da filha de Martins da Cruz, a questão da "palavra de honra" parece abater-se como um eco pesado no blog de onde emanou, refiro-me obviamente à reflexão de JPP. De facto, o ministro deu a sua palavra de honra em como não tinha falado do assundo a Pedro Lynce. Não duvido. Mas, talvez se tenha provado que para além de um um compromisso com a verdade, a palavra de honra pode ser uma arma estratégica num jogo de ocultação, tudo, claro, sem mentiras! E nisto este caso ensinou-nos. Imaginemos, ilustrativamente, alguém que diz: "palavra de honra que não dormi com a tua mulher!", esse alguém pode estar a dizer a verdade, e no entanto... apenas disse que não dormiu com a dita. Não creio que a honra seja um valor antiquado, mas dispensam-se sofismos.

Realizações metafóricas

Insasatez, na singela doçura a que nos vai habituando, mostra a configuração possível de um inferno almofadado. Quase sem palavras, um post que diz tudo.

avatares...Bruno Avatares

Já não é a primeira vez que me apresentam a alguém nestes termos: "esta/e e cicrana/o, e este é Bruno, o Avatares!" Isto merece-me uma reflexão identitária, não sei qual, mas acho que devia protestar. O que é certo é que se queimam logo ali muitos minutos de aquecimento convivial.

João paulo II: esse excluído

Muito se tem falado da acerca avançada idade do Papa, e do modo como estes factores condicionariam a sua continuidade à frente da Igreja Católica. Onde muitos vêem o martírio vivido na dedicação a uma causa, evocando, porventura, a lealdade custosa de Job, outros têm visto a materialização corpórea da narrativa da Igreja, a decadente história de uma estagnação, o anacronismo levado ao seu limite. Neste confronto ideológico e simbólico, Aviz e Janela para o Rio referem algo que considero muito importante, uma certa perversidade que nutre de uma representação cultural de fundo da nossa cultura: a ideia que as pessoas idosas nada têm para dar e que a sua vida não é mais do que antecâmara da morte. Em causa está a negação das pessoas idosas, sujeitos que em outras culturas são considerados como sages, na nossa cultura são tiradas do espaço e tempo. Joahanes Fabian cunhou o conceito da negação da coevidade (denial of coevalness) para referir o facto de a modernidade ocidental ter apropriado o tempo presente, associando outras culturas e outros valores à ideia de resquícios do passado, entendidas como anacronismos na lógica triunfal do progresso. Do mesmo modo, Michel Foucault refere como os cemitérios começaram, a partir do século XIX, a ser construídos fora da orla das cidades, deixando morar no seu centro simbólico. Esta transformação geográfica deriva das medidas hieginistas em relação ao assinalado perigo de contaminação dos cadáveres, mas também de toda uma transformação em relação à convivência afectica e cultural com a morte. Hoje, os lares representam essa deslocalização, os idosos são retirados das casas das suas familias e exilados numa relação de distanciamento, que é também um distanciamento para com a morte que já ali se entrevê. Perante este quadro de valores, a adscrição da figura de João Paulo II como alguém que só por equívoco participa no tempo presente, ou o desejo da sua periferização na cultura mediática, são sintomas desse traço cultural moderno que vinga em retirar a velhice do tempo e do espaço. Isto numa articulação com o fenómeno mais recente,que é a celebração da juventude e das culturas juvenis, enquanto representações mais verdadeiras da vida. No entanto, esta denúncia, que reputo de pertinente, não pode cair no risco de, insidiosamente, negar o anacronismo, não o do Papa e do seu corpo, mas o de determinados valores que Igreja católica sustém. Alguém me dizia que o efeito do discurso católico em relação ao uso do preservativo, em áfrica, deveria mesmo ser considerado como uma modalidade de terrorismo. Penso, de facto, que a vida do Papa não poderá ser perversamente desqualificada à luz dos exílios a que costumamos condenar os nossos "velhos". Acho que se mantém importante denunciar as exclusões que o seu ministério suporta, falo dos mortos de sida, das exclusões das mulheres cristãs e dos gays e lésbicas deste mundo, por exemplo. Num certo sentido, João Paulo II partilha com elas uma experiência de exclusão cultural. Irónico, não?

infernos almofadados

Séculos de experiência, acolhidos como lastro, consagraram a ideia, agora hegemónica, de que nós só sabemos o que temos quando o perdemos. É história gasta, feita senso comum, presente na filosofia, na música pop, nas humanas angústias, aí, onde o querer do presente não passa, muitas vezes, de uma experimentação repetida do espectro da perda futura. Esta mitologia pertence ao nosso cânone, na verdade, é um alinhavado útil e avisado . Mas por ela, muitos vivem infernos almofadados, agarrando-se ao que têm, sem quererem saber o que perdem. Não é uma apologia do desapego em que me invisto, nem num qualquer esvaziamento, como o proposto pelo sunyata budista, apenas sugiro que há sempre mais do que uma versão do mesmo mito.

Ele há espíritos criativos, este vê a libertação de Paulo Pedroso como uma concessão governamental para apagar o escândalo da filha do ex-ministro. Genial.

Igualmente surpreendente, é ler um sportinguista a fazer poesia com a vitórias do Porto, eu sabia que era uma questão de tempo!

Porque é que se fala tanto de sexo?

É deveras impressionante o lugar que o sexo ocupa na televisão- veja-se o Big Brother e a freudiana Teresa Guilherme -, no humor, nas conversas entre amigos, na criação artística, etc.

Uma questão forte é saber se esta prolixidade de conversas onde o sexo comparece, se deve à importância que ele tem, ou devia ter, nas nossas vivências, ou se, por outro lado, é o produto de nele residir ainda o cunho de uma transgressão, eterna talvez.
Michel Foucault, falando nos anos 70, sustenta esta hipótese, que, a meu ver, permanece actual. É, portanto, a minha hipótese primeira:

"Se o sexo é reprimido, quer dizer, votado à proibição, à inexistência e ao mutismo, o simples facto de se falar dele, tem como que um aspecto de transgressão deliberada. Quem assume essa linguagem coloca-se até certo ponto à margem do poder; empurra a lei; antecipa, mesmo que pouco, a liberdade futura. Daí a solenidade com que hoje se fala de sexo." (Foucault, 1976)

Que me dizem? Falemos então de sexo!


não percebo

É estranho o número de pessoas que vêm ter a este blog, via google, à procura de Serenela+Andrade. A histórica questão de João Jardim num ido congresso do PSD mostra-se oportuna: "está tudo grosso?"

A algoz de Paulo Pedroso

Está visto que a recente contratação de comentadores que a sic fez é redundante em relação aos seus quadros. Senão, repare-se no comportamento de Anabela Neves, a repórter que cobriu a chegada de Paulo Pedroso ao parlamento: enquanto os colegas entrevistavam os protagonistas, ela, qual Marcelo rebelo de Sousa irado, discorria em frente à câmara, revoltada, nervosa pelo facto de a sua segunda casa, o parlamento, ter acolhido Paulo pedroso como herói, quando o processo ainda está a meio. E depois, lá dizia: "desculpem, mas há coisas que não podem deixar de se dizer". Não discuto a razão que ela pudesse ter, mas a raiva desta repórter, o histerismo, e falta de noção das funções que ocupa, deixou uma triste imagem à cobertura da sic nesta tarde-noite. Desculpem, mas há coisas que não podem deixar de se dizer.
p.s. A fúria da jormlista, que parecia ter feito uma aposta de uma pizza pela não saída de paulo Pedroso, também não passou despercebida aqui.

Estranho mundo

a) No clube de vídeo, já não é a primeira vez que dou conta do surgimento de uma piada mais ou menos com estes ingredientes: "veja lá, não se esqueça de rebobinar o DVD!" ou "Acho que me esqueci de rebobinar o DVD, há mal?". Ora bem, como devem supor, evoco este gracejo não por o achar particularmente hilariante. Não acho. O que me atrai nele é a certeza de que compõe um registo que depressa deixará de fazer sentido. Quando ninguém se lembrar das cassetes de vídeo, esta será uma das piadas mais secas alguma vez criadas pela humanidade.

b) Quando alguém entra num clube de vídeo e ao fim de 20 min. ainda lá está, deduzo logo duas hipóteses teóricas:
1- Trata-se de um casal que só no clube de vídeo percebe o engano que é a relação:: "gostas disso?", "vais ver essas lamechices sozinha!", "Ehrrr, mas isso é europeu!", "Eram esses filmes que vias com a teu ex?" "Aposto que só queres ver a Jennifer Connelly!", "Saíste-me cá uma pseudo-intelectual", "Esse Lynch é conhecido?", "Nãe estás à espera que eu vá ver um filme de gays!", "Há algum filme que tu gostes?".
2- Estamos perante um masturbador envergonhado que aguarda que a loja fique vazia para se abeirar da secção porno.
Assim, o masturbador também pode ser identificado pelo asco com que olha os casais desavindos.

Lábios que não se tocam

Há quem só consiga beijar virado para sul, haverá devoção mais trágica que esta?

Blog ou Blogue? As poetas ou os poetas?

Simplificando ao limite, nas ciências sociais é assim: lê-se em Inglês (há excepções, claro), escreve-se em Português (ainda bem!). Por isso, a refexão sócio-antropológica ganha este irónico cunho de uma permanente tradução, de conceitos, de ideias, de palavras, não de uma qualquer língua exótica, mas do inglês, pois. As dificuldades que daqui advêm devem algo ao facto de a língua portuguesa estar muito cristalizada, é lenta a acompanhar a teoria crítica que se vai fazendo por ai afora, e está tradicionalmente pouca aberta a neologismos - nesse aspecto, os brasileiros estão mais à vontade, são mais descomplexados a fazer todo o tipo de incorporações e aproprições criativas. Mas nem tudo se prende com o ritmo de evolução da língua. Por exemplo, irrita-me solenemente quando tenho uma frase ou ideia bem estruturada (digo eu) e me falta uma destas palavras: pervasiveness, self, empowerment, intractability, queer (há mais!). Como emenda, lá dou a volta ao texto como um Camacho que põe o Ricardo Rocha a jogar na esquerda, como se sabe, a coisa tende a sair um pouco sofrível. Ás vezes mais vale pôr o original em Itálico. Para além disso, acho dramático que argumentos baseados em trocadilhos brilhantes como o routes/roots do James Clifford, se traduzam para raízes e rotas, ficando literariamente esfrangalhados. Conclusão, ser purista dá trabalho e poucas recompensas. Por outro lado, também não gosto de textos bilingues. Lá está, como diz o Clifford, estamos estre as roots e as routes. Ah! depois há a questão do género na linguagem! Na verdade, é muito difícil assumir uma escrita feminista em português, já no inglês, é mais fácil negar a primordalidade do masculino, várias autoras o fazem (e aqui refiro-me a mulheres e homens).

Êxodo e Morte?

Afinal o reflexos de azul eléctrico não acabou. Agora está aqui. Já actualizei o link aqui ao lado, por isso o Rae continuará a ser um vizinho para mim. Daqueles que visitamos para trazemos na volta tupperwares cheias. De algo impreciso, é certo, mas cheias.

Uma vez que o ritmo ditado por um blogue foi uma das razões da partida do Reflexos, é de perguntar: poderão os blogues de post diário resistir muito tempo? Zé Mário do Blog de Esquerda reflecte interessantemente sobre o exemplo dos maratonistas da blogosfera.

A ansiedade do escritor perante a folha em branco

Eu devia ler mais livros
Eu devia ir para um ginásio
Eu devia aprender uma língua estrangeira
Eu devia arranjar uma namorada

Desejos manifestos com que começa o filme Adaptation (Inadaptado), obra em que Nicholas Cage surge no papel principal. Uma narrativa soberba, entrecortada por laivos de índole literária, pena é que na parte final ceda à tentação Holyoodesca de uns tiros. Ainda assim, um filme que reputo de excelente.

Perplexidades

Há quem beije sem fechar os olhos, será que não têm medo?!

Sábado à noite

1- As ventoínha já não se justifica. Justifica-a o hábito, até que venha o aquecedor.
2- Decidi não falar no Sporting, iria ser obrigado a fazer paralelismos estapafúrdios entre o Real Madrid e o Marítimo, e isso sería rídiculo. Além do mais, até acho que o resultado foi injusto.
3- Ele não lhe telefona há dois dias, ela desespera, surge uma mensagem por fim. Era a mãe a lembrar dos cominhos. Está visto, vai-se esquecer!

pelo baloiço universal

Nalguns jardins públicos aparece uma placa afixada a dizer que a utilização dos baloiços, cavalinhos e escorregas é vedada a maiores de 12 anos. Ora bem, eu acho isto uma forma de discriminação chocante. É assim que se forma uma geração de nostálgicos.

vade retro Solari

Já não chegava o Solari (jogador do Real Madrid) ter marcado três golos ao Porto nos últimos anos, e agora a Charlotte, para cúmulo, vem-nos dizer que ele é materialização moderna do ideal renascentista (ou seria mesmo Nietzschiano?), bom de bola, bonito, e interessado pelas letras. Sem dúvida uma figura demoníaca para qualquer (homem) portista.

"Il n'ya pas d'hors text"

Postos que estão os Rolling Stones, o senhor que se segue dá pelo nome de Jacques Derrida. Por estes meses coimbra torna-se uma cidade um pouco esquizóide, mas por certo que o príncípio do real será dolorosamnete recuperado no ano de 2004. Tenho andado um pouco no contra em relação à actividade cultural que por aqui tem passado, quem sabe, como forma de justificar a minha estrutural falta de atenção. O que é certo é que a vinda do Derrida calou-me, e lá vou estar para poder contar aos netos dos meus amigos que estive na mesma sala do espectro/espírito do teórico da différance. As inscrições para o colóquio de Jacques derrida, A soberania, são até 31 de Outubro. Agora chamam a Coimbra cidade-refúgio, não liguem, venham à mesma! É possível que nos encontremos a desconstruir qualquer coisa no coffee break. Tal como o café, o pós-estruturalismo pode ser muito benéfiico, desde que não ultrapasadas as doses recomendadas.

Somos todos corruptos?

Cunha=Corrupção. A organização estatal burocrática portuguesa encontra-se profundamente permeada por relações de parentesco, amizade, compadrio, que levam a costumeiras situações de favorecimento mútuo. E isto não acontece só com os poderosos, mas torna-se mais escandaloso porque estes têm mais poder, mais responsabilidades e porque a legitimação do seu lugar passa por uma ética do "serviço à coisa publica". A verdade é que a cunha é uma instituição social portuguesa, e quem se escapa a essa lógica é logo catalogado de mau amigo, desleal, pessoa que esquece os seus. Acredito que um tecido social que confere grande valor às relações da afecto e de família não deverá submergir às instituições seculares, mas acredito que deve ficar fora delas: é tio que trabalha na polícia e tira a multa, é um amigo do pai que mexe uns cordelinhos para o emprego, é a mãe que conseque arranjar uma consulta, etc. O caso da filha de Martins da Cruz é assombroso, sobretudo porque mostra algo: como o poder se alimenta num ciclo vicioso de reciprocidade. Quando vi as imagens do casamento da filha de Dias Loureiro com o filho de Ferro Rodrigues não pensei como alguns "o amor suprime barreiras ideológicas". Entre gel e vestidos de gala, percebi naquela plateia de convidados os representantes dessas pesssoas que alternadamente usam a cartilha do poder, investindo-a de nuances, mas sem nunca a pôr efectivamnete em causa. Talvez esteja a ser injusto para muitos... Quanto ao caso na agenda: Deviam demitir-se os dois ministros e a Cunha devia ser exonerada de funções em nome da luta contra a corrupção.

psicanálise via wallpaper

Há uns posts atrás, numa leitura crítica das fotos-d@-namorado@-no-Wallpaper", esbocei um desafio: "Diz-me o teu Wallpaper e eu dir-te-ei quem és" (ver abaixo). E não é que Microcosmos, Insensatez, 40 à sombra , Lugar da incerteza , Absurdo, sopa de pedra (in progress) mostram mesmo as suas imagens de fundo?!

Edward Said (1935-2003) O Oriente e a Morte

Já o tinha citado aqui, dizia ele: "Enquanto escrevo este texto a ocupação imperial ilegal do Iraque pelos Estados Unidos e a Grã-Bretanha continua. E continuará verdadeiramente a ser algo horroroso de contemplar."
Edward Said, nascido em Jerusálem, afamado estudioso do "Oriente", defensor da causa palestiniana. Morreu longe da terra prometida: uma Terra de paz. Dedico-lhe umas palavras.

“Orientalism is a style of thought based upon ontological and epistemological distinction made between "the Orient" and (most of the time) "the Occident."
Edward Said, em Orientalism, a sua mais portentosa empreitada analítica e crítica, analisa o nexo de poder/conhecimento sobre o qual a Modernidade Ocidental fez sustentar a dominação colonialista do Oriente (Ásia e mundo árabe).

No projecto colonial, a formação discursiva a que se chama Oriente, faz parte desse Cosmos que Europa criou para sua Modernidade poder habitar. Surge aí desejo da construção de todo um conjunto de saberes que pudessem dar forma àquela parte do mundo onde as grandes civilizações do passado se estabeleceram, um projecto a que subjaz a ansiedade engendrada pela destabilizadora ideia de que o Oriente não existe. Uma suspeita só superada pela receio calado de que um Ocidente dono do tempo presente, investido de uma missão histórica de reformar o outro, infundido das luzes do humanismo e da ciência, enfim, "O Ocidente", se rebelasse contra o aparatus discursivo que o cria. Nesta lógica, o Oriente erige-se como o necessário contraponto ontológico para a emergência triunfante da Civilização Ocidental, a entrada épica pela porta da Modernidade. É preciso um Oriente, por certo decadente, que faça de alter desse tal mundo europeu encarnado pelo esplendor guardado de séculos de história. É esta passagem de que a narrativa Moderna precisa, mesmo que o poder económico e militar para a provar fale mais alto de que crença na sua efectividade. Como diz Michel Foucault a verdade é um regime, um regime de verdade. É o caminho da estrela do Oriente ─ aquela que vem de longe e ensina o caminho aos Reis Magos ─ que se quer para representar a direcção do legado das prestigiadas civilizações Orientais, a passagem do testemunho para onde as estrelas correm e o sol se põe. O Orientalismo enquanto disciplina académica e enquanto campo de trabalho para os estudiosos ocidentais, partiu dessa necessidade de resgatar a história, os costumes e os valores Orientais, na persuasão de que a riqueza do seu passado merece ser conhecida, tarefa que, obviamente, os seus sucessores jamais poderiam levar a cabo. Surge então aquela que é uma das ideias fortes do Orientalismo enquanto destino, a ideia de que o Oriente decadente não se pode representar a si próprio. Assim, também faz parte da missão histórica que o colonialismo cumpre, o imperativo de representar o outro, de lhe dar uma história, uma cultura. E tudo isso se fez. Através do Orientalismo o Ocidente inventou o Oriente para se inventar.
Ficou célebre a pergunta de Gayatri Spivak: “Can the subaltern speak?” Quando escolhemos os interlocutores da diferença matamo-la.
Quem nega ao outro a capacidade de se representar, nega-o sumariamente. Said ensinou-nos isto e muito mais. Não morreu em paz, aliás, há muito tempo que ninguém morre paz. Mas lutou por ela, uma paz feita de histórias de todos aqueles que sofrem a sentença da história. Homi Bhabha fa-lo ressoar: "it is from those who have suffered the sentence of history– subjugation, domination, diaspora, displacement – That we learn our most enduring lessons for living and thinking".
Adeus Edward Said

catarse da bola

Às vezes a autopoeisis do futebol esmaga-me. O ano passado assisti nas Antas ao jogo mais dramático da época, uma derrota contra o panatinaikos depois de 90 minutos a atacar, para muitos aquele era o fim da taça uefa. Coisa surpreendente, debaixo de chuva, esmagado pela derrota, frustrado, o público aplaudiu de pé a saída para o balneário de Mourinho e seus jogadores. Quinze dias depois o Porto iria ganhar à Grécia num jogo épico. Hoje tive pena de não estar nas Antas, queria-me ter juntado aquelas justas palmas. Como nos provará o Aviz - é certo que tem tido poucas oportunidades - o luto de uma derrota do Porto não dura dois dias, mas apenas o tempo que decorre entre o apito derradeiro e essa ovação final de onde emana já um estranho sabor a vitória.

Notas Espúrias

1 Por estes dias quase toda a gente que eu conheço - homens, entenda-se - usa Acqua Di Gio. Tenho quase a certeza que fui a primeiro a fidelizar-se no uso desse perfume, uma relação que ia bem para lá dos ditames consumistas, a que até sou pouco atreito. Perante estes factos temo ter que mudar, não sei se confio assim tanto na singularidade criativa a advir da interacção do Gio com as minhas carnes.
2 acho que já era altura de se fazer uma homenagem ao sabonete líquido Fa fresh, uma geração de mulheres e homens deve à publicidade daquele produto o primeiro vislumbre de seios desnudos em horário nobre. Só muito mais tarde viria a Dona Beija e o Pantanal.


onde chover?

um assomo narcísico diz-lhe que a chuva lá fora espera por um beijo, ela ouve e consente em abraços de encontro à janela. Ocupado, desenha no vidro embaciado: "hoje não posso", mas teme que ela fique a noite toda chovendo ao frio à sua espera. Estranhamente acordará triste se lhe faltar o gotejar choroso do seu nome. (A chuva chama-se M.)

Antes que partas eterniza-te. Outra vez.

Nunca confiei tanto num treinador como no José Mourinho à frente do Porto. Sempre lhe apreciei o estilo, lembro quando foi entrevistado para os Donos da Bola no fim da sua jornada em Barcelona, dizia então: "Eu sei como é que este Benfica deve jogar!" Riam-se alguns. Hoje ninguém duvida que ele sabia mesmo, na altura eu já não duvidava. Vilarinho não lhe quis prolongar o contrato, Mourinho saiu do Benfica, provavelmente, para não mais voltar. Luís Duque teve medo da Juve Leo, desistiu de o contratrar, Ah temeroso dirigente! Pinto da Costa corrigiu o maior erro da sua vida, contratar Octávio (não me lembrem), com a sua decisão mais acertada: contratar Mourinho. Confio nele mais do que confiava em Robson, mais do que em António Oliveira, nunca confiei em Artur Jorge, mas acreditava na sua equipa. Sei que para o ano Mourinho vai partir, certamente levará Deco consigo, por isso, para mim, esta época divide-se entre o costumeiro deleite pela vitória e uma atroz nostalgia vivida em antecipação. Se o Porto ganhar ao Real Madrid hoje, a nostalgia na sua forma pré-vivida atingirá um auge. Resta-me acreditar que certas façanhas se eternizam. Dizem que ninguém no futebol é insubstituível, a mim... que já vi jogar Maradona, que já vi um Porto à Mourinho. Eis, pois, as duas equipas que me levaram a alma: a Argentina de Maradona, o Porto de Sempre. Esse Porto à Mourinho é a sublime representação, a metonímia do Porto da minha alma.

Pipi Codificado?!

A propósito de um fino, debati há tempos com Ana Sá Lopes (Glória Fácil) acerca do espectro mercantil que paira sobre a blogosfera. Inspirado, Daniel Oliveira do Barnabé faz o filme todo. O estilo é o de uma visionária tragi-comédia: pipi codificado, abrupto vendido aos espanhóis, o fecho dos pequenos blogues, fusões e acesso pago a blogues de referência. Um post incontornável para a ficção nacional.