Nefertiti

Sem exagero esperei por ti quinze minutos,
afaguei o estômago com um bolinho de coco sob o incansável patrocínio de um chá gelado que entretanto se fez morno, paguei, e parti.
Não tinha fio para tecer nem destecer o algoz da esperança, afastava-me da esposa do herói a certeza que nenhum ciclópico desígnio nos afastou, apenas um adeus.

Acreditas que até hoje indago se chegaste? Deliberei que não. Falho no entanto em esconjurar a tortuosa suspeita de um justificado atraso, e podia bem ser a senhora das fotocópias, uma amiga que não vias há muito, ou aquele atolado autocarro que tantas vezes consentimos como não-lugar numa dedicação aos lugares do costume.

Jamais saberás o quanto padeço nessa incerteza de sustentação duvidosa nutrindo o indemne rufar do teu chamamento primordial num Outono já ido: “Vens comigo?”.
Nessa tarde soalheira escondida por aquele café mais vocacionado para os amigos dos teus pais, contei sofregamente os minutos, alojado na mesa do canto com vista para a porta, instando-me no improvável desconforto de se espelhar numas poucas almas presentes a minha dedicação servil ao minuto seguinte.

Nefertiti, “a bela chegou” segundo li algures, poderia ser o nome a ti consagrado nessa tarde, mas tu já tinhas um nome. Talvez as recurvas sentenças da etimologia me enviassem para a certeza de que partiste bela, e que afinal o adeus reúne a essência do que és e do que despertas.

Quinze minutos, o exagero foi amar-te. Nunca te perguntei porque não vieste, assenti na deriva dos sóis postos tornando-me vago, e se porventura chegaste a tempo de ver a mesa do canto vazia e triste, não era eu. Mero acaso.

Feriados

Para quando dias feriado na blogosfera portuguesa como forma de celebrar momentos marcantes? Por exemplo, o dia do primeiro post escrito por um blog português, já agora alguém sabe qual foi? Os simbolistas apreciam estas escavações, eu também.

Numa manhã de nevoeiro

O meu caro amigo João Nogueira ultima os preparativos do Socioblogue 2.0. Francisco José Viegas também deve estar a caminho. Pedro Lomba já voltou. Os regressos destes bloggers pródigos não se exigem, anseiam-se simplesmente.

Ao que parece a demolição da TSF começa amanhã.

Diz-me o teu wallpaper e eu dir-te-ei quem és

O Wallpaper de um computador é a primeira coisa que vemos quando ligamos o bicho, ele está lá também de cada vez que fechamos uma janela. Há quem deixe o wallpaper de fábrica ou opte por um dos temas do Windows, mas há também as decorações mais personalizadas. Aí começam as idiossincrasias a funcionar em pleno! Há quem ponha @s modelos sexy da praça, há quem ponha carros, há quem ponha paisagens, há quem ponha o símbolo do clube. Até aqui tudo bem. O pior é o que aconteceu com a proliferação de sanners e fotografias digitais. Pois bem, disseminou-se o hábito de pôr uns recuerdos kodak ali mesmo, no ecrã. Valha-me não-sei-que-santo! Isto raramente corre bem, como o atesta um olhar inspectivo nas duas práticas dominantes:
1- Fotografia pessoal (é raro, mas acontece. Altamente narcisista, do pior. Os donos de computadores com a sua própria fotografia no wallpaper deveriam ser denunciados e feitos sócios do clube de fans do Zé Mourinho - eu por acaso já sou, mas cheguei lá por caminhos bem mais dignificantees)
2- Fotografia d@ respectiv@ ou do casal (esta prática começa a tomar dimensões preocupantes, já não chegavam as fotos em cima da mesinha da cabeceira, surgem agora os cabelos d@ amad@ entre a janela do Word e o atalho para as celebrity Babes/site do Gael Garcia Bernal. Esta modalidade permite um click entre duas almas esteja à distância de um rato. E depois há sempre a possibilidade de mandar para a reciclagem, o amor, as relações, as fotos, o Wallpaper).

Para lá das valorações, importa assinalar que neste fenómeno, por uma vez, é a devoção amorosa que colonizar as tecnologias e não o contrário. E daí...

menos mal

O Rolling Stones tocam a 100 metros do local de onde escrevo. Sempre pensei que Coimbra precisasse de uma qualquer catástrofe para estar no centro das atenções do país. A minha profecia só se cumpriu parcialmente, ainda bem.

Debates edificantes

Recebo no meu email alguns tópicos com que Mario Oliveira, polémico autor de livros como Fátima nunca Mais, contribui para o corrente debate sobre o novo testamento. Resta-me agradecer a amabilidade deste padre muito pouco canónico:

"1 A fé cristã não se fundamenta nos livros do Novo Testamento. Fundamenta-se numa pessoa e num Acontecimento: em Jesus de Nazaré e na sua morte/ressurreição. Não houvesse Jesus de Nazaré crucificado/resssucitado e não haveria Fé cristã. Nem tão pouco haveria Novo Testamento. É a prática radicalmente libertadora e integradora e a palavra fecundamente maiêutica de Jesus, reveladoras de um Deus outro e de um Homem outro, que está na origem da Fé cristã. Por isso é que pode haver muitas pessoas que sabem tudo e mais alguma coisa sobre o Novo Testamento e não têm Fé cristã. Porque esta é encontro vivencial com a pessoa de Jesus e com o seu Espírito. Um encontro que muda o nosso ser e faz de nós novas criaturas, outros Jesus, aqui e agora.

2 Os Evangelhos canónicos são obra das comunidades cristãs da segunda geração. O mais primitivo será o de Marcos. E o mais tardio, o de João. Antes, terá havido um documento ou Fonte Q, do conhecimento da comunidade que escreve o Evangelho de Marcos e os outros dois sinópticos, mas que desapareceu. Os especialistas tentam reconstituí-lo. Há propostas concretas de texto que circulam e contam com generalizada aceitação.

3 Mas atenção: os Evangelhos canónicos não são biografias de Jesus. Nem livros de historiadores, pelo menos, como hoje nós entendemos um historiador. Nem são reportagens jornalísticas. São densos relatos teológicos. Não têm preocupação de fidelidade histórica. Por vezes, até distorcem os factos históricos, para melhor poderem ser fiéis à teologia que pretendem proclamar. Não nos apresentam Jesus histórico em directo, como numa reportagem jornalística da actualidade. São já uma interpretação do Jesus histórico. Por isso, são diferentes entre si. Todos testemunham sobre Jesus, mas em função dos problemas com que cada comunidade que escreve se vê confrontada na altura.

4 Hoje, não falta quem pretenda chegar a Jesus, ele mesmo, e às suas palavras autênticas. Não é possível. Jesus não escreveu livros. Viveu num contexto social e cultural que privilegiava a comunicação oral. E utilizou-a até ao extremo. Mas também não é necessário chegar ao Jesus histórico, ele mesmo. Muitos dos que o conheceram em directo, não só não creram nele, como até o mataram! O fundamental é a pessoa de Jesus, como tal, e o tipo de morte que sofreu. E a consequente ressurreição que, algum tempo depois, foi percebida e proclamada pelas primeiras comunidades de discípulas e de discípulos. Não há acontecimento mais revelador do que este. É a luz que este acontecimento irradia que muda a História. Ele vem dizer que Deus, afinal, não está com os agentes do poder, como sempre se pensou, mas com as suas vítimas. Esta Boa Notícia para os pobres e oprimidos do mundo (má notícia para os agentes do poder) é uma revolução. Tudo no mundo está organizado ao contrário, ainda hoje. É por isso que as Igrejas que vivem para dar força aos agentes do poder e elas próprias se tornam agentes do poder, são Igrejas que se comportam como Judas, ou ainda pior do que Judas. Em lugar de Igrejas-mártires (= Igrejas-testemunhas), são Igrejas traidoras. Matam a profecia e, depçois, para compensar, entretêm-se com actos de culto que não passam de alienação.

5 Mas no Novo Testamento, temos outros livros que podem ser lidos como documentos históricos. São as cartas. Sabemos hoje que as Cartas autênticas de Paulo são anteriores aos próprios Evangelhos. Começam a ser escritas por volta do ano 50, ao passo que o Evangelho de Marcos terá sido escrito por volta do ano 70. O interessante é sabermos que Paulo nunca teria escrito estas cartas, se Jesus não tivesse existido e não se tivesse tornado a Boa Notícia de Deus, o Evangelho de Deus."


Subtilezas da Televisão Portuguesa

Nem só na má itencionada "ignorância" de Paulo portas se constrói e dissemina um ideal xenófobo. Há aí muitas subtilezas a operar. Uma delas é precisamente aquela a que Miguel Vale de Almeida fazia alusão há uns tempos. Em programas como Big Brother ou a Operação Triunfo celebrizou-se a patética frase: "Os portugueses é que decidem!" Certamente não lhes passa pela cabeça que existam brasileiros, cabo-verdianos, ucranianos, etc., a ver a televisão portuguesa. Falo dos imigrantes, mas também falo dos possíveis votantes espectadores da RTP internacional ou da RTP África. Mais custa a entender a RTP uma televisão de serviço público com horizontes extra-muros não perceba essas subtilezas excludentes. É simples: "Os espectadores é que decidem!" Agora alguém diga isso à Catarina Furtado ou à Teresa Guilherme!

Os auto-flagelados do amor

Ao que aprece a relação era inviável, já não namoram, mas ainda tomam café juntos para terem a certeza que já não sentem nada um pelo outro. (Mas sentem.) Inclusive já trocam ideias acerca de "outras pessoas". Eu proponho ao meu amigo uma outra variante de sado-masoquismo. Em alternativa aconselho-o a atirar papel higiénico molhado para o tecto, dizem que resulta. Há incertezas com que é possível a vida traficar, outras só prometem auto-flagelações duradouras.

Os cobiçadores

Nalguns lugares da noite é assim: 15 homens à porta fazendo olhinhos para o porteiro os deixar entrar: "só casais!", diz ele. Aperece um rapaz munido da sua respectiva ou rodeado de amigas e o segurança lá faz sinal para eles entrarem: "Por favor saiam do caminho!". sinceramente, não sei como há quem se sujeite, nessas circunstâncias, além da humilhação que sempre fica, a cobiça do alheio atinge valores preocupantes.

Insuspeita blogosfera

Por via do debate sobre o Novo Testamento troco mails com o Padre Mário Oliveira, o conhecido autor de Fátima Nunca Mais e Nem Adão e Eva, nem pecado Original ,entre outras afamadas obras. Aprecio o que dele já li, parece bem amável esta criatura de Deus, talvez tenhamos blogger para breve.

A nostalgia celibatária

Eduardo Prado coelho reflecte sobre as moda das despedidas de solteir@. Por vezes acho que um tal ritual (strippers, alcool, sexismo, guerra dos sexos) ainda consegue ser mais incompreensívelmente bacoco que o próprio casamento (as prendas, os cabelos vindos do cabeleireiro, os vestidos, os fatos, o cherne, o arroz de pato, as fotografias). É por isso que entendo que as duas ritualizações reunidas encerram uma qualquer coerência interna, bacoca é certo. Porque é que não levam @s Strippers para o casamento, porque é que não fazem o casório num bar de alterne? Neste particular, creio bem, a emancipação feminina imita a estupidez original desses homens machos. Não vou ao absurdo de dizer que os homens e mulheres emancipadas não se casam nem fazem despedidas de solteir@s, aí estúpido seria eu. Digo apenas que em face de modus operandi desses rituais, a nostalgia celibatária assume renovada pertinência.

Leitores Indignados

Em resposta a milhares de mails interrogativos, informo que o fim do "Romance em Formato Post" (Vide Post) era uma tentativa de desenhar um final feliz. Num dicionário de expressões latinas, que eu uso para me prevenir dos eruditos, vide post que dizer ver o que se segue.. Nos blogues a expressão é magicamente polissémica, é como dizer olha para tudo o que existe e atenta para o que vier. Boa noite car@s.

Um romance em formato post

Um dia ele disse a Lara que a amava. Aconteceu o óbvio, acabaram. Agora César diz não voltará a incorrer no mesmo erro: amar. Há quem diga que Lara ainda o quer, mas ela prefere a certeza que Flávio lhe dá, a certeza de não ser amada. Estranhamente, o pathos solitário de César faz cíume a Lara, que ainda recorda o Outono dos beijos. Embora gostasse, jamais fala com seu ex, tal seria trair Flávio, ainda assim o menor dos perigos. Flávio é o trágico, ama Sara, tanto que jamais lhe dirá. No fundo César escolheu o caminho fácil, a ausência e o amor de Lara. Dedicar-se-á escrita, chamar-lhe-ão Poeta Triste. A perda de César encontra conforto nas palavras, a de Flávio não tem redenção possível. Sara antecipou-se, jamais sabererá o que perdeu. Nenhum deles leu Paulo Coelho.

O inadaptado

O mais que sofrível repórter desportivo da sic, Nuno Luz, conhecido pela cruzada anti-portista que dava pelo nome de "donos da Bola", diz acerca da actuação pouco conseguida de Luisão (onde consta uma fífia que deu o golo à equipa La Louvière): "parece que o jogador brasileiro não se está a integrar na defesa do Benfica!". Ora bem, se formos a analisar o último jogo contra o Porto, Miguel deu um golo a Derlei, Argel marcou um na propria baliza, e o Nuno luz vem falar da falta de integração do Luisão? Ele está como peixe na água, como bem se percebe. Por ora, O único defesa inadaptado do Benfica é o Ricardo Rocha que não tem grande vocação para "enterrar" em nome do colectivo (nota: quando escrevo estas palavras o jogo não acabou!).

A Bíblia sublinhada com Stabilo Boss

Na continuação da discussão, Cruzes Canhoto escreve um longo e informado texto sobre o formação histórica do Novo Testamento. A ler. Este debate já não passa sem trabalho de casa. O Dicionário do Diabo conta uma parábola acerca da relação da Igreja Católica com a Bíblia, expressão de que o eventual estreitamento de sentido de que fala o canhoto não exorcizou a ameaça, aquela mesma que a democratização do conhecimento da Bíblia ainda constitui para muitas formas de autoridade. Será isto apenas a morte do autor a la Roland Barthes? Porque é que na tradição das missas dirigidas em latim o próprio cânone bíblico emergia como apócrifo, no sentido do seu secretismo hermético? Nesse aspecto as igrejas Protestantes marcam pontos com cada crente com a Bíblia pela mão, nesse aspecto - que não outros - consigo assumir uma identidade, biograficamente informada, de protestante.

a espera

Lembrei-me de como brincávamos na escola. Molhei um pouco de papel higiénico e atirei-o para o tecto, exactamente em cima da secretária onde ultimamente eu e um computador passamos o grosso dos dias. Já lá vão duas horas e ainda não caiu. Mesmo que a minha escrita saia cansada e monótona, a emoção e o suspense serão as notas desta noite. É nesta incerteza de uma bolinha-de-papel-higiénico-molhado-sobre-a-cabeça que que se aloja uma das mais portentosas representações mundo contemporâneo. E se há nisto pretensão a mais, a gravidade não tardará a temperá-la com um certo ridículo. bem visto, é esse o percurso da maioria das sms's.

O fim do hipócrita

Hipócrita (hupocritês) era o actor grego que representava sozinho todos os papéis de uma peça, até que Ésquilo, num movimento revolucionário, trouxe um segundo actor. Daí ao canal 18 foi um saltinho, com variantes e mais actores/actrizes, tudo ao mesmo tempo. Mas, na verdade, o original hipócrita ainda existe, senta-se agora no sofá e representa todos os papéis a partir de projecções imaginativas corpóreas. A sua arte é clássica, mas nenhum mito o libertará do peso da codificação do canal 18. Morreu no sofá muitos séculos depois de Ésquilo. Para mim, que não tenho tv cabo, o fim do canal 18 não deixará saudades. Mas se fizesse um filme sobre a morte derradeira do hupocritês, gostaria de o imaginar membro da coligação governamental.

Laetitia e as flores

À minha pergunta - ilustrada com umas fotos da Laetitia - "Seios e flores irmanam-se na beleza?" Lérias responde com acutilante mail: "Pensei nas flores e só me lembrei de dizer que a fazem mais casta, quando o que preferia era ver mais casta, mais Casta." Laetitia é pois este fenómeno dilemático entre um simulacro da castidade e o desejo desperto nas sua versão estética e libidinal. Na verdade, só a língua portuguesa apreende completamente os contornos paradoxais da beleza de Casta/casta. Hoje sabemos que as flores nada lhe acrecentam, há milénios que a imitam no eterno fracasso.
Dedicarei um post a um exemplar da beleza masculina, sugestões?

Voz do Deserto:"Daí a Bíblia não se tratar de inspiração emancipatória. Antes, tenta que todos comam pela mesma medida." Pois bem, transposto para os nossos dias, esse singelo propósito implica, não tenhamos dúvidas, uma transformação radical do status quo desta arena que nos habituámos a conhecer pelo melhor lado, dos que comem. - Não há logística que salve as "viúvas gregas" de hoje.- Quando se chama ao horizonte dessa radical mudança, "emancipação", coloca-se o ónus da esperança naqueles que precisam da justiça social e nos que acreditam que ela é importante, e não na amável condescendência dos ajuntadores de tesouros. Eu leio que a mensagem de Jesus se dirige aos primeiros: "O Espírito do Senhor é sobre mim, pois que me ungiu para evangelizar os pobres. Enviou-me a curar os quebrantados do coração, a pregar liberdade aos cativos, e restauração da vista aos cegos, a pôr em liberdade os oprimidos, a anunciar o ano aceitável do Senhor". (Lucas 4: 18, 19)" Haverá certamente outras leituras possíveis, a interpretação depende sempre do que nos move. Dizem eles que em tempos cinco pães e dois peixes davam para muitos. Reconheça-se que pelas escala e alcance a mão invisível do mercado que Adam Smith deificou é bem mais eficaz, ao contrário, claro.

A princesa mártir

Stephanie (Estefania para os espanhóis), ao casar com um guarda-costas, primeiro, e um domador de elefantes, depois, provou que o amor não olha a classes sociais. Agora, após casar com um português, prova-se que ela é mais do que a encarnação feminina e erotizada de Robespierre, na verdade, ela surge na linha de João Baptista, Estêvão, Thomas Becket, Joana D'arc, entre outr@s, ela representa o martírio em versão matrimonial - a mais atroz, consta. A provação derradeira está consumada.

A baliza é nossa e os golos contam para eles?!

Nietzsche & Schopenhauer: a companhia de dois benfiquistas que toda a gente gostaria de ter para o jogo de hoje. Aposto que eles não abandonam o estádio nem desligam a televisão quando o Benfica começa a perder, eu sei, e eles sabem-no: é daí que esse um singular génio trágico assoma. Eles dependem deste Benfica incapaz de vitórias como Sófocles dependeu da desgraça de Édipo. Quem aprecia o espraiar da genialidade tens duas razões para torcer hoje pelo Porto: o Deco, e os deliciosos comentários do blogue N&S. Poderia ser preococupante pensar que tanta criatividade se encontra dependente de eventos aleatórios como os fracassos desportivos do Benfica, no entanto, fica a peculiar convicção de que aquele blogue tem matéria prima para muitas décadas. Chamo a atenção para a apologia de futebol espectáculo que Artur (posta: automatismos) formula citando Eduardo Galeano. Uma amiga minha brasileira publicou um artigo sobre futebol numa edição - Futebol, paixão e Política - em que Salman Rushdie e Eduardo Galeano também participam. Desde então ela converteu-me à desmecanização do futebol defendida por Galeano, eu converti-a ao F.C.P. Se o Benfica ganhar trazendo a magia do futebol eu aplaudo, mas, como dizia a Inês nas discussões políticas: "Bruninho, fala sério!"

Haja coerência

Recebo uma amável carta da Universidade Católica convidando-me para uma palestra a ser proferida por um americano (aperentemente famoso) intitulada "Competition as a Principle for good Govenment . No fim da missiva, aconselham a todos fato escuro para o jantar.

Estudantes de Coimbra

Não é de hoje, a palavra Coimbra tira JPP do sério. Em tempos acusou de provinciana a base social dos estudantes de coimbra, tirando partido de um preconceito estabelecido na nossa sociedade em relação a tudo que fica de fora das orlas das grandes cidades. Não foi bonito, não para esse país vasto e heterogéneo, como não é bonita a desqualificação do outro a partir de melhor apologia do itinerário biográfico burguês e citadino (de Porto ou Lisboa, entenda-se). Ah Miguel Torga! Nesse ido artigo do público começou por se referir a uma situação indecorosa em Macedo de Caveleiros, dissertou sobre todos os males estudantis do país e acabou em... Coimbra, naturalmente feita o repositório dos dos podres colhidos por aí afora, ainda que a causalidade da crónica não tivesse nada a ver com a cidade do Mondego. No que concerne ao ensino superior, a estratégia de Pacheco Pereira é 1 Upgrade: as insanidades no ensino superior português e a denúncia de uma geração geração de bêbados e 2 Downgrade: Coimbra, a semente do mal. Não me parece correcto que lutas antigas e rivalidades semeados na vida associativa se vistam de análise críticas preocupadas para os dias de hoje. Há aí um ancronismo, não? Para quem anda por aqui não fica claro porque é que os estudantes de coimbra são eleitos como representantes das perdições de uma geração. Estudei nos liceus de Coimbra e para mim a grande degradação era essa profusa geração bem posta (os ditos coimbrinhas) cuja lógica de relações era refém das possessões e estatutos dos pais (os drs. da praça), das marcas de roupa envergadas, do meio de transporte utilizado, da residência em zona nobre, etc. Essa é Coimbra citadina digna dos palcos do mundo, engajada com futuro?!..fiquem com ela! A entrada na Universidade (por mim falo: a praxe foi o festivo conhecer gente nova, até porque o meu "orgulho" não se compadeceria com outra coisa), foi, na verdade, a entrada num regime democrático de relações horizontais, provavelmente, pela primeira vez na minha vida- reles praxe dirão alguns! Irónico, não? o "provincianismo" educou-me noutra lógica: democrática e meritocrática. É verdade, há que dizê-lo, que por aqui copos e livros sempre se misturaram, sou testemunha das maratonas bibliotecárias de muitos bebedor@s de shots, confessesso que as performances nas bibliotecas sempre me impressionaram mais. Biblioteca Geral das 9.00 às 22:45, ainda hoje muitos "bêbado@s" por ali passam. Escrevo por essta impressão: há certas ligações que parecem forçadas, Coimbra só pode aspirar a representar as suas próprias virtudes e defeitos, Coimbra é demasiado humilde para ser consagrada de origem mítica da (duvidosa) queda do Eden de uma geração. Também os males merecem ser democraticamente distribuídos. Quanto ao papel higiénico, JPP já mostrou que pode ser uma pessoa bem humorada -uma descoberta no abrupto-, por isso, não é bem por aí, pois não?

...

"Pode ser que se abram novas portas e outros mundos assomem…" O último post de Fernando Cameira, no seu blogue fica a despedida da esposa. Do Fernando ficam as palavras.

A confissão que o amor não faz

Cretcheu, julgo, é a palavra crioula para dizer amor. Assim, nha cretcheu é meu amor. Literalmente cretcheu quer dizer quero-te muito (cre-tcheu). Os meus parcos conhecimentos de crioulo cabo-verdiano permitem-me dizer que esta doce e central palavra, Cretcheu, é bem sábia e transparente. Não deixa dúvidas, não dá lugar a lirismos de desapego, ali, nas suas 7 letras, o amor é querer. Quem diz Cretcheu confessa o querer do amor, e, diga-se, confessa-o docemente.

O resvalar do olhar para o peito alheio

É sempre difí­cil saber onde é que pomos os olhos quando estamos a falar com alguém, podemos olhar para a boca, para os olhos, podemos fazer um olhar difuso para evitar enfocar o que quer que seja, podemos olhar para o lado e pôr uma pose reflexiva, mas há outra hipótese que tem tanto de indiscrecta como de recorrente. Já lá vão uns anos, uma amiga minha, detentora de um consistente 36c, confessou-me o quanto a incomodava que todos os rapazes deixassem descair os olhos para os seus seios quando estava a falar com ela. Isto causava nela a estranha sensação de a conversa em si ser relegada para segundo plano. Foi o ponto de partida para uma aturada investigação por conta própria. Primeiro falei com diversas amigas e colegas que me referiram que, perante interlocutores do sexo masculino, de facto, esse fenómeno acontece quase invariavelmente, e o pior é que, mesmo que bem disfarçados, os tais olhares indecorosos notam-se de um modo gritante. Foi o nascer para uma nova realidade que tinha estado ali todo o tempo. Comecei a "etnografar" as minhas próprias conversas e percebi que a tendência para cumprimentar "toda a famí­lia" com o olhar é difícil de combater, mas passei a ter mais cuidado, parecia sempre que pressentia um sinal de aviso da minha interlocutora: hei, huuu, estou aqui em cima!! Falei também com alguns elementos do sexo masculino que se dirigiram mormente para duas posições: 1- sou capaz de olhar sem querer, mas não deixo que se note! (o que é falso porqe se nota mesmo!) 2-Eu até posso tentar evitar, mas perante certos tops eu posso muito pouco. Não sei em que medida estes factores interferem nas vossas conversas.(?) Indago se o alerta da minha amiga resgata uma importante realidade social de que poucas vezes se tem falado olhos-nos-olhos?

apontamentos de uma madrugada

Opinion Desmaker escreve um texto inspirado sobre a fé - há quem diga que inspirado pelo Espírito Santo - está li uma excelente contribuição para a discussão suscitada pelos canhotos. Almocreve das Petas joga xadrez com a vida e obra de Marcel Duchamp, a arte mora ali. O Gato Fedorento reflecte com pertinência sobre a realidade das “pessoas de passo mais lento que têm a audácia de se colocarem no meio dos passeios”. Tema a merecer leitura e legislação.

Entra Borges, sai a Raínha

A partir do xadrez, aDeus acolhe a antinomia existencial entre jogador e peça. Eu meto Borges no lugar da raínha para começar bem do princípio, em Deus, ou antes disso:

Deus move o jogador que move a peça,
Que Deus atrás de Deus o ardil começa
De pó e tempo e sonho e agonias?

Jorge Luís Borges

A paz das unhas

Aqueles recordistas do Guiness que vivem de deixar crescer as unhas, alcançam uma forma de nirvana que nos será sempre estranha. Para eles cada dia que passa é uma vitória, sem equívocos, um simples milimetro por dia é já garante da importância de estar vivo. Ah! como não os invejar?!

Para quando esse luto da dor?

Fui convidado para um jantar onde, entre muit@s outr@s, estaria um caro amigo com quem frequentemente travo discussões políticas. Apesar da seu historial dar conta de uma ligação estreita à linha do PSD, eu vinha notando nele um distanciamento partidário a par com o emergir de espírito crítico forte em relação à coligação que agora nos governa. Era ouvi-lo falar mal do Paulo Portas, a denunciar a subserviência de Barroso a Bush, a indignar-se com o fim do acontece, bem, no fundo, "uma alma a ser paulatinamente resgatada às trevas da direita neoliberal", pensei. Pois bem. Chego ao jantar, atrasado praí uma garrafa de vinho e uns quantos whiskys, apanho o meu amigo já na sua curva descendente - estava mesmo encostado à boxe. (Bem vistas as coisas, quem se atrasou fui eu!) Coisa curiosa, depois de cumprimentar os presentes e de me sentar, não é que eu começo a ouvir da boca do tal um trautear deveras suspeito? Pois bem, abismei, ele estava a cantar o Hino do PSD: "paz, pão e liberdade..." Como não há wisky que o justifique, apoiando-em em Freud indaguei de mim para mim: Será isto o "regresso do reprimido", aquele que volta sempre nos tortuosos sonhos. A confiar nas urnas o trauma é colectivo, até quando?
P.S. 1-Com a sua pertinente crítica a Portas, Pacheco Pereira é por estes dias o líder da oposição.
2. Ferro Rodrigues, não estará na altura de avançar com um blogue?

Jesus, Novo Testamento, Religião e Política

Tarde, as usual, respondo ao desafio da Janela para o Rio a partir de um Diálogo entre os canhotos e a Voz.
Cruzes Canhoto (post: AND THE GOSPELS ARE...)discorre sobre a contingência sócio-politica que assitiu à formação do cânone do Novo Testamento. Voz do Deserto mostra como uma fé crítica é já formada na sempre precária relação entre as palavras e as coisas. No canhoto discordo - não de agora - de uma certa leitura que inscreve a fé como esse resíduo de que o evagelismo Moderno da Razão já se deveria ter encarregado de elidir. Há ali também um discurso clássico da uma certa esquerda que equaciona a fé a determinadas elaborações opiácias (pese embora a excepção da Teologia da Libertação). Da Voz do deserto, em que encontro uma fé que não me é estranha, separa-me mais uma questão sócio-política, ou melhor, distancia-me a identificação forte que eu faço das biografias de Jesus com a pregação da liberdade dos cativos o resgate dos oprimidos (leia-se, transformação social). Mundanidades, no fundo.
Diz o arguto pensador Ernesto Laclau:
"A discourse of radical emancipation emerged for the first time with Christianity, and its specific form was salvation."
Laclau tem razão na primeira parte, mas fracassa em perceber em que medida a messagem da salvação não faz da salvação um fim em si mesmo, ou seja, não adia este mundo, mas antes clama por uma metafórico nascer de novo do homem (discurso patriacal bíblico) nas arenas onde o pão, vinho, apredajamentos e samaritanos jogam.
Diz ainda o mesmo autor:
"Emancipation means at one and the same time a radical foundation and a radical exclusion." Concedamos então na leitura de Canhoto, descortinando a formação do Novo Testamento enquanto um processo altamente contingente. Havendo uma mensagem de um tal J.C. que a nós chegasse contaminada pela pujante exclusão e selecção, aquela afinal que sempre assistisse à formação de um cânone, será assim tão irracional elaborar uma fé que se exige crítica entre esses ditos e desditos que os séculos nos trouxeram? Como o Tiago afirma, se a ideia era domesticar, homegeneizar e limar arestas nas escrituras, o trabalho foi bem reles. Vejamos, não foi preciso chegar um tipo (Martin Bernal) a falar de uma Atenas Negra para revolucionar a história da Grécia Antiga? Não é toda a história, como dizia Walter Benjamin, o contingente relato dos vencedores? Porque é que a contingência que nos trouxe aquilo que que de "fundador" se reconhece do Novo Testamento, o despiria de todo o significado? Enfim, porque é que os canhotos carecem desta "radical exclusão" na sua razão engajada com o mundo?
Agora, quanto ao imperial fechamento de sentido operado pelas instituições eclesiásticas - deveras mais grave onde os fíéis não têm relação directa com as escrituras e as recebem por delegação - concordo inteiramente com os Canhotos. Digo mais: Amen.
Espero, depois disto, poder continuar a figurar no "pacto dos canhotos", aquele que o outro template levou. Contingências que não apagam o sincero agrado que tenho em lá estar, ainda que espectralmente.
Laclau, Ernesto, 1996, Emancipations, Verso, Londres.

A semi-deusa

Hoje, tal como a Charlotte, também fui ao dentista (fui pelas escadas). Ando nisto de curandeiros da boca já há algum tempo, tenho um problema persistente, uma inibição, uma fobia. É que nestas coisas de brocas e dentes, estranho deveras a presença da assistente do dentista. Para o dentista, a dor do paciente é um epifenómeno ou, quando muito, uma fonte de informação acerca da temática central da sua líbido profissional: o meu dente. Já com a assistente a coisa não rola assim. Ela está lá a observar tudo, cumpre tarefas esporádicas, caminha atrás de mim - passos leves mas audíveis - olha-me inspectivamente... sei lá! a atenção dela pesa-me!, temo-a como a uma deusa. O pior de tudo é que a sua figura quebra com o costumeiro recato do meu pathos, incomoda-me a suspeita forte, quase certeza, que ela é, desde há muito, a única testemunha terrena da minha dor. Há muitas formas de nos tornarmos semi-divinos, ser assistente de dentista é certamente uma delas.

O estado da arte dos links

A minha list de links permanentes está a ser feita como se comem cerejas! Dantes percorria-a diariamente, agora tenho que me adaptar a um caos, ou seja, um universo em expansão. Ainda assim, destino-me algumas leituras diárias. Ás vezes uso o avatares como palca giratória, numa espécie de eterno retorno, outras vezes vou saltando de link em link por aí fora.

O martírio obrigatório

Durao Barroso afirma que até 2007 as escolas com menos de 10 alunos vão ficar para lagares. Para além de assim se cavar a despopulação do interior (desertificação é para a ecologia), esta visão do ensino gratuito e universal vai implicar que muitas crianças e jovens acordem de madrugada pra chegar a casa à hora do jantar. Seria interessante fazer uma estatística do rendimento dos alunos, por exemplo, que todos os dias têm que ir para Bragança vindos das aldeias circundantes. Adivinha-se, pois claro, o insucesso escolar, os dias passados em salões de jogos, os deveres por fazer, a reclamada falta que dois braços fazem todo o dia fora de casa, etc. Pode-se dizer a estes alunos e às suas famílias que o ensino é obrigatório, mas, vá lá ver senhores políticos, o martírio não é!. Devo elogiar a acutilante análise que JPP fez ao discurso de Paulo Portas, é pena Durão Barroso la vá democratizando impunenemente a (sua) falta de saber.

Quem é que queres enganar?

Há dias, num contexto que já não lembro, perguntaram-me: "qual foi a coisa mais importante que já perdeste?" Respondi de pronto: "20 contos". Preferi pensar que o meu inquiridor estava num registo materialista, é que, de outro modo, a resposta poderia levar o tempo de uma vida.

Insuspeito legado de Amsterdão

Apesar de para mim ser difícil lidar com os aparatos turísticos que nos encarreiram atrás de uma qualquer singularidade local, devo confessar que a impressão mais forte que me ficou de Amsterdão este Verão foi, espante-se, a visita que fiz à casa de Anne Frank. Nunca a tinha lido, sempre mantive alguma distância em relação a uma "moda adolescente" que consistia em ler o "Diário de Anne Frank, mas, ao tomar contacto com os lugares de esconderijo, com os manuscritos e, finalmente, com a ficha do campo de concentração onde constava o seu nome, submergi num excesso de real: passei-me! Percebi também como Roterdão ficou em ruínas após a invasão do III Reich, inclusive, preservam por lá uma ponte que já não funciona, têm-na como símbolo da resistência. Às vezes diz-se em graça que os problemas aquitectónicos das cidades portuguesas resultam do lamentável facto de não terem sido bombardeadas na Segunda Guerra Mundial. Creio que por aqui nunca pereceberemos completamente a ignomínia da dor das cidades feitas "arejadas" pelo nazismo. Ainda bem.

Ele não esquece

O Dono da loja de ferragens aqui ao lado, o Sr. Rodrigues, tem no vidro da sua carrinha um autocolante que diz "Carnaval do Lobito 1967" (? a data exacta escapa-me). Ainda hoje me intriga a complexidade desse estranho sentimento que Renato Rosaldo tão bem descreve como Nostalgia Imperial.

Questões Mágicas

Que fazes logo à noite?

A Queda de Ícaro

. nota prévia: os dois primeiros links referem-se a uma imagem que pode ferir sensibilidades
O dia 11 de Setembro une dois momentos tão fortes quanto simbólicos do fraticídio humano: o Chile há 30 anos e Nova Iorque há 3 anos. O sofrimento de pessoas irmana-os. Pressente-se um murmúrio, uma frase que pede voz? "...O 11 de Setembro é todos os dias..."; soa a banal, pudera! Mas é real, infelizmente é silenciosamente real, todos os dias. um dia será banal, assim não espero. A imagem deste link é forte, demasiado forte, hesitei em pô-la aqui. Vê quem quiser. Esta foto faz-me sempre lembrar a Queda de Ícaro pintada por Brueghel. Aí se repesenta a queda e sofrimento do homem-pássaro, enquanto o agricultor e o pastor, de costas voltadas, lavram mansamente as suas vidas.

W. H. Auden escreve um poema sobre o quadro Brueghel. Reflecte como nele se articulam sofrimento e indiferença

Musee des beax arts (The fall of Icarus)

About suffering they were never wrong,
The old Masters: how well they understood
Its human position: how it takes place
While someone else is eating or opening a window or just walking dully along;
How, when the aged are reverently, passionately waiting
For the miraculous birth, there always must be
Children who did not specially want it to happen, skating
On a pond at the edge of the wood:
They never forgot
That even the dreadful martyrdom must run its course
Anyhow !n a corner, some untidy spot
Where the dogs go on with their doggy life and the torturer's horse
Scratches its innocent behind on a tree.
In Breughel's Icarus, for instance: how everything turns away
Quite leisurely from the disaster; the ploughman may
Have heard the splash, the forsaken cry,
But for him it was not an important failure; the sun shone
As it had to on the white legs disappearing into the green
Water, and the expensive delicate ship that must have seen
Something amazing, a boy falling out of the sky,
Had somewhere to get to and sailed calmly on.

Um susto do diabo!

Ainda há pouco, assustei-me com a possibilidade do Dicionário do Diabo fechar a loja. Eis a etnografia de um susto.

Enquanto leitor, sempre tive uma relação ambígua com o Dicionário do Diabo Naturalmente que essa intranquilidade de um gosto deve algo a uma demarcação para com as opiniões sócio-políticas de Pedro Mexia. Mas, na verdade, uma tal ambiguidade não segue necessariamente a fronteira entre o político e o pessoal, embora seja tentador encontrar aí o conforto de uma separação das águas onde pudesse repousar um deleite selectivo. A impossibilidade dessa destrinça, obriga-me a julgar as minhas diárias visitas ao dicionário por uma outra perspectiva. Simplesmente, acho que aquele um dos espaços onde melhor se joga aquilo que eu gosto num blogue, ou seja, o discorrer bem palavroso de uma honestidade tensa. Esse jogo de ocultação e revelação a que a linguagem se oferece. Um jogo feito, claro, assim seja a meu gosto, de um certo despudor que, sem ser revelador da intimidade, revela algo das contradições que toda a intimidade engendra
Mesmo quando a politica é o tema, não há proselitismo possível no estilo de Mexia , seja há esquerda, seja à direita, o dicionário lê-se pela alteridade que representa. Há ali, isso sim, um registo que se oferece à discussão forte e, sobretudo, à necessidade de distanciamento crítico de muitos, que é também uma necessidade de definição identitária do leitor, perante a ansiedade do que não concorda, mas gosta de ler (nem que seja pelo voyeurismo da polémica, e aí a política vai deixar saudades). É por referência a essa tensa honestidade que o Dicionário tão bem articula, que se torna natural que os elementos que Mexia mais ressinta, por via do blogue, sejam a o desgaste das discussões e polémicas e o desagrado por se poder pensar que a sua vida intima se encontra formatada em posts diários.
Para a consolidação do meu susto, haverá que acrescentar uma certa precedência que eu atribuo a alguns blogues, os que já cá estavam e que eu li quando cheguei: O próprio dicionário, a voz do deserto, o socioblogue, o cruzes canhoto, a flor de obsessão, o blogue de esquerda, o abrupto, Bomba Inteligente, o gato fedorento, o blogue dos marretas, entre outros que acrescentarei depois a este texto. Devo-lhes, não sei bem o quê, mas devo.

Sem ambiguidades, fico contente que o dicionário não feche a loja. Não deveria ser tão custoso dizê-lo!

A peregrina

Assinalo a linguagem religiosa desta letra. A devoção, a espera... momentos de uma qualquer fé.

Eu queria que você viesse
Penso tanto que quase acontece
Porém se eu decidir não me enganar assim
Talvez o meu pranto tenha fim
Se você ouvisse minha prece
Não quisesse me ver tão aflita
Sonhar não custa nada
Eu quero tanto ainda
Grato te daria uma saliva
Junto com você a vida inteira
Nosso 3/4 na carteira,
Vendo a meia luz, a luz e meia,
Rogo que me faça uma visita
Eu sonho tanto porque tanto lhe amo assim
O sonho é santo porque traz você pra mim
Onde caminhando se passou
Sigo a minha estrada, sigo o amor
Justo com você a vida espera
Na sala, no quarto, na cadeira
...
Maria Bethania

A pajem

Esse despropósito de uma música estúpida que insiste em escorregar pelos olhos! Poderá ser estúpida uma canção que nos pede lágrimas?
Porventura será mais uma combinação possível da prolixidade do real.
Quando estes eventos absurdos me convocam, chamo estúpida à música que trota ou a aparelhagem que a segrega Depois, já sem forças para verborrar revoltas, devagarinho, vou-me rendendo ao sublime da estupidez. é doce. depois da luta, é doce.
Vejo a estupidez como a pajem que dorme a nossos pés, a servil dedicada que fracassa em vigiar as cruzadas de um desejo, o murmúrio incapaz de suster auto-flagelações que nos querem resgatar. Porque, sabê-mo-lo, o play é uma profecia que se quer cumprida. O repeat, o repeat é estupidez. Sublime, claro.

Duas ruínas que falam de uma Ruína

O dia 11 de Setembro, creio, evoca, antes de mais, uma certa ideia de ruína humana. Por isso, acho que deve ser guardado para chorar a vitimas, as de Nova Iorque, as do Chile, as vítimas da guerra e, as mais silenciosas de todas, as vítimas da fome e da pobreza. Utilizando as palavras de Foucault, diria que este é um bom dia para lembrar o malogro de um mundo soterrado nos seus monumentos: Fascismos, Totolitarismos, Fundamentalismos, Imperialismos, Colonialismos, Belicismos, Capatilismos Predatórios, e outras edificações mais.

Bebamos

O sempre mui simpático Opiniondesmaker, clama pela fronteira e faz corar um mulato, a mim. Beberemos certamente essa cerveja!

P.s. A designação mulato tem origem em "mula". Este insuspeito parentesco envia-nos para um debate que foi muito aceso na Europa, acicatado pelo colonialismo, entre os que defendiam que a diferentes raças correspondiam diferentes espécies, e os que viam apenas uma espécie entre colonizados e colonizadores.

Young, Robert, 1995, Colonial Desire, Routledge, LondresSobre as relações entre sexualidade e racismo no colonialismo inglês

El Pibe e o Papa

Quando foi ao vaticano, Maradona ficou chocado os tectos de ouro do Papa. Maradona não é certamente um exegeta do Novo Testamento, mas conseguiu ver a contradição que há muito paira sobre a cabeça dos mais cultos teólogos. Eu leio que Jesus não moraria ali.

forçadinho...

Depois que JPP intentou formular as "semelhanças de família" entre o Bloco de Esquerda e o nazismo a partir do site do PSR, a apologia conceptual das mamas da Laetitia, à luz de uma crítica ao pensamento cartesiasno, adquire renovada credibilidade.

Afinal ela já o sabia

Pergunto se uma apreciação estética de matriz libidinal é qualitativamente diferente das restantes. Seios e flores irmanam-se na beleza?

p.s. As respostas ao Manual do Blogger contuinuam a ser actualizadas no post abaixo: "Apócrifos"

Deus ex machina

O meu "consultor" informático é cego. Um sintetizador de voz rapidamente instalado num qualquer computador e é assistir à irmandade estre as suas mãos e a máquina anuente. Quando tenho alguma questão ou problema, telefono-lhe e ele vai-me debitando os comandos. Chega a todos os recantos, discirnindo a particularidade de qualquer versão do windows do outro lado do telemóvel; resolve problemas complexos, formata computadores de memória, investiga sites, pirateia programas, etc. Sei que ele é muito bom, e é sempre surpreendente ouvi-lo falar de coisas que eu não sabia que o meu computador tinha. Mas, como tenho muit@s amig@s cegos sei que ele é apenas isso, muito bom.

Não consigo!

Não foram os três golos da Espanha que afastaram da selecção potuguesa. Eu tento, tenho tentado torcer por aquela equipa, apesar de ter uma relação ambígua com os senadores da bola que por ali se espraiam. Esta distância que não vingo em superar tem um número, o número 2, as duas palavras que insistem numa dor meio calada: Vitor e Baía. Não acho que merecesse ser titular, tenho a certeza absoluta que há muito merece ser convocado. Por certo é uma questão afectiva, mas o suficiente para marcar a minha opinião em relação aos destinos da nossa selecção. O Ricardo não teve culpa nos golos, no entanto, reparem num pormenor: quando o Baía sofre um golo, mesmo que seja um penalti ao cantinho, os realizadores demoram sempre uns largos segundos num grande plano da sua face, porque será? Com o Ricardo isso não aconteceu, apreciações estéticas? De facto o Baía é mais bonito que o Ricardo, mas não e por aí!

Evitei reagir à derrota contra a Espanha porque detectei em mim esta vontade do contra independentemente do que acontecesse. Nestas coisas as minhas causas são pessoais, torci contra o Porto quando o Octávio mandou o Jorge Costa embora, custou-me... Custa-me não conseguir ser um ferrenho desta selecção. E se eu tenho tentado...
Tal como não esperem nada de mim, eu gostava de uma selecção à imagem de José Mourinho, mas depois indago como reagiria Portugal quando José Mourinho dissesse: Tenho a certeza que vou ganhar o campeonato da europa. Medito e penso que merecemos Scolari.

Foda-se...

A natureza do mal elege o meu post, "Ironias erótico-amorosas", como o mais influente da semana. Agradeço ao Luís, mas é aqui que essas ironias realmente se fazem poiesis. É aí que as palavras e as coisas realmente fodem. De facto, há posts que não são posts. É a esse não post que devo, a um tempo, a simpática menção da natureza do mal e uma imprecisa gratidão.

Províncias finitas de sentido

Só hoje fui ver A Cidade de Deus . Só hoje me apercebi da verdadeira dimensão do meu atraso. Costuma ser assim, no cinema como na vida. Não é grave, apesar de tudo tranquiliza-me ir sabendo do que é que estou perdido.

Apócrifos: os Blogues do mar Morto

Os manuais católicos para a prática do exorcismo nunca eram/são estritamente cumpridos, o que é certo é que a arte para tráfico das almas e demónios se tornou uma evidência histórica. Se @s bloggers não cumprem todas as 17 regras do Manual do blogger (abaixo) é porque nel@s já habita o espírito da lei". A isto se chama o "sacerdócio criativo" ao jeito de Santo Agostinho e São Tomás de Aquino, ou então talvez o cânone mereça mesmo ser reformulado (talvez lá volte). Registo desde já algumas dolorosas confissões, adendas e transacções de almas: jaquinzinhos, Anarca Constipado, Janela para o Rio, A Matriz, Cruzes canhoto, a-Deus, Extravaganza. Microcosmos, Dicionário do diabo, El coronel, Eu vou mas volto, Virtualidades, A origem do amor, Lérias , Crónicas matinais, 3tesas não pagam dívidas, Mata mouros Serra-Mãe deslizar no sonho Água Tónica Papoila Consulta Blog-notas janela indiscreta eu é mais bolos atípico work in progress

Aí está a regra 1!

Excelente artigo Miguel Sousa Tavares no Público de hoje: "Há sempre um exército de crentes disponíveis para legitimar as grandes mentiras da história"

Manual do blogger/blogador(?uu)

1- Ler a coluna de opinião do público e do Dn
2- Usar o google com perícia para se armar nas discussões em curso
3- Conhecer a biografia de pelo menos um destes famosos: JPP, FJV, PM
4- Utilizar o Pedro Rolo Duarte como o anto-cristo local
5- Ter um clube de afeição para poder postar às segundas-feiras (Conselho pessoal:o porto permite saír sempre por cima)
6- Ter um poema de reserva para citar quando o site-meter der mostras de fragilidade
7- Tratar por "tu" a vida e obra de Tolstoi
8- Fingir ardor nas discussões mesmo que o tema seja indiferente
9- Saber onde é que o Iraque fica no mapa
10- Falar d@s respectiv@s apenas quando já se tem uma reputação consolidada ou mais de 30 anos
11- Fazer periodicamente a ode de um cineasta de que ninguém ouviu falar
12- fazer alusão à fnac uma vez em cada 15 dias
13- tentar juntar copos e livros no mesmo post para dar prova de excentricidade
14- dizer uma asneira de vez em quando (mostra inconformismo)
15- Utilizar o dicionário online para apoiar a escrita
16- Inventar mails recebidos para dar um ar de interactividade ao blogue
17- Dar algumas gralhas ara mostrar um certo negligé

tenho-me esforçado, mas devo admitir que é um regulamento exigente

Ironias erótico-amorosas

Há uma certa ironia quando se usa a expressão "Não Fode Nem Sai De Cima" para falar de alguém que nos rouba o coração mas não nos ama.

Inevitável: Relativismo, Excisão do Clítoris...Petroleiros

A partir das palavras de Lévi-Strauss, distingo dois momentos consensuais na discussão em curso. 1- A defesa do fechamento das culturas e da sua auto-exaltação, ao não se articular claramente com as relações de poder, incorre no risco de "fazer o jogo” dos imperialismos, dos colonialismos e das atitudes xenófobas. Tema para onde se dirigiram as minhas preocupações e as da Companhia de Moçambique. 2- A apologia da diversidade das culturas pode constituir uma forma de suspensão crítica passível de permitir a justificação de tudo, inclusive, práticas como a excisão ritual do clítoris. Nisto se centraram Aviz e Daedalus
Eu acho que o problema do relativismo se resolve se a sua defesa for
a) articulada com o reconhecimento da heterogeneidade das culturas
b)
articulada com a advocacia da aprendizagem intercultural.


Isto nos sugere Mahanaz Afkhami quando argumenta que se o relativismo é avançado para defender a diversidade, e se suporta a livre escolha e a paridade no acesso, então não pode ser cúmplice do modo como estes elementos são muitas vezes negados no seio das formações culturais. Ou seja, a defesa da livre escolha equivale a perceber que dentro de uma cultura nunca há apenas um perspectiva. O relativismo que eu defendo concilia-se com a potencial de transformação a advir do efectivo reconhecimento de vozes silenciadas. Nesta leitura, tomar uma posição relativista perante uma cultura islâmica, por exemplo, não é legitimar um status quo, mas perceber que a riqueza de uma cultura não se esgota naqueles que são os seus valores hegemónicos.

Assim, resgato a ideia do multiculturalismo, não apenas como uma ideia acerca da convivência harmoniosa das culturas, mas para falar do carácter multicultural de todas as formações culturais. Recupero a aprendizagem inter-cultural como fonte da criatividade cultural. Assim investido, 1 o facto das culturas serem heterogéneas, faz supor que no seu seio há fracturas epistemológicas e visões do mundo que são dominantes em relação a outras. 2 Numa cultura onde se pratica a excisão cultural haverá sempre perspectivas dissonantes em relação a uma prática que se constituiu como hegemónica. 3 A possibilidade das vozes silenciadas numa cultura poderem articular uma luta, uma voz, muito depende da relação com outras vivências e outros significados capazes de alargar horizontes e reconfigurar vivências. (Isto tanto vale para a excisão do clítoris em determinados contextos como, por exemplo, para o enterramento em vida que fazemos dos nossos “velhos”).

No entanto, essa possibilidade de troca de valores fica comprometida quando determinadas culturas se sentem ameaçadas ou feridas, como diz Amin Maalouf: "o mundo está coberto de comunidades feridas, que sofrem ainda hoje perseguições ou que ainda guardam a lembrança de sofrimentos antigos; e que sonham conseguir vingança.” Reconheçamos: não ajuda o facto de valores capazes de servir de plataforma transformativa, virem do mesmo lado das bombas, do colonialismo ou do neoliberalismo predatório. Para ser concreto, acho que a cultura Ocidental tem muita coisa boa "para a troca", por exemplo, o ideal da democracia e o ideal da igualdade entre homens e mulheres. Mas estas dádivas/dons epistemológicas e socais ficarão sempre comprometidas equanto o mundo ocidental não for capaz de perceber o ressentimento que o colonialismo e a continuada exploração semearam (e semeiam) no mundo.

Muitas mulheres sujeitas à excisão cultural poderão reconhecer a existência de elementos opressivos na sua cultura, mas o muito que as lutas feministas ocidentais poderiam contribuir para uma tranformativa expansão de horizontes, entra em conflito com o vislumbre do Ocidente como O Opressor, uma ideia que, convinhamos, encontra muitos correlatos no real. É pena que o ruído da força militar e da predação económica nos impeça de aprender com o Outro, e tanto que tínhamos a aprender... Mas também tínhamos muito a ensinar! Irónico, Irónico é quando os "ensinos" vão com as bombas à frente e os petroleiros atrás.

O fetichismo das sms´s

sms´s poéticas? sms´s significativas? Recebo algumas. Guardo algumas. O meu telemóvel é o mais próximo que eu tenho de um livro de bolso. Acho que seria possível fazer uma história decente sobre os últimos anos da minha vida a partir das mensagens que já dormiram no meu telemóvel. Provavelmente mais uma história sentimental. Há uma ou outra mensagem que eu nunca apagaria, há uma que um dia perdi com o telemóvel, assevero-vos, nesse caso o telemóvel foi o pormenor. Poderá ser que as mensagens e mensageir@s tendam a imitar-se na partida. Ou então, talvez estes eventos nos alertem para os perigos do fetichismo electrónico, para a inevitável erosão dos fósseis de caracteres, para a contingência e durabilidade da alma que somos.

Os pagadores de promessas

Feito o rescaldo, devo concordar as as considerações que não esperem nada de mim faz à equipa do Sporting, a análise é honesta e talentosa, saliento esta nota: "Fernando Santos inventou o primeiro 4.3.3 do Mundo sem alas." Devo lamentar a atitude estúpida do McCarthy ao agredir o Beto. Custou-me não ouvir Mourinho no fim do jogo. Acho que o resultado pecou por escasso.

A democratização do génio

Dizia A-deus: "existem catorze palavras que juntas fazem com que qualquer mulher se apaixone por ti." Não sei em que mitologia se inspira essa fórmula mágica. O que eu sei é que no dia-a-dia de todos os dias o proletariado da poesia se bate com os 160 caracteres de um telemóvel para converter corações. São estas as virilhas suadas que prometem a virgindade de um tempo, o nosso.

O Porto hoje vai ganhar.

Seio-o. Mas se assim não for, este post ficará como a mais do que dolorosa prova de que este blogue é escrito a tinta permanente. Não creio.

Lévi-Strauss, paixão e multiculturalismo

Agora mais em jeito de conversa, para já com Aviz e Companhia de Moçambique, exponho a minha opinião:

Creio ser importante, antes de mais, ler as afirmações feitas em 1971 por Lévi-Strauss, resgatando o seu iminente cariz nostálgico em relação a um mundo pontuado de formas puras, registo poeticamente epitomizado em Tristes Tropiques (1955), obra onde o autor derrama a sua desolação, lamentando, qual Colombo atrasado, a “contaminação cultural” que já então marcava a vida dos grupos de Índios amazónicos. É por referência a este desencanto fundador com a “universalização do ocidente”, que Lévi-Strauss, na polémica conferência de 1971, vem articular um hino à criatividade das culturas com a sanção do desejo do seu fechamento e auto-exaltação. No entanto, se é defensável, ou pelo menos compreensível, que perante influências predatórias os grupos estabeleçam lógicas defensivas que se alimentam de amor-próprio, já a sanção de posturas etnocêntricas operada pelo antropólogo, constitui, em abstracto, um registo onde não é difícil pressentir algumas lacunas.
Em primeiro lugar, há que notar o facto da argumentação não se articular de um modo mais efectivo com a história e com as assimetrias nas relações de poder, com os imperialismos e seus epistemicídios, não estabelecendo um suporte conceptual distinto, susceptível de avaliar diferentemente movimentos opressivos das suas resistências (instigadas a apelar e a exagerar a tradição). A referida análise crítica do antropólogo, construída numa espécie de espectralidade em relação às realidades históricas e políticas, permitiu, por exemplo, que as suas ideias fossem apropriadas por grupos xenófobos dos países europeus, como suporte para a expulsão dos imigrantes sob o insólito pretexto da defesa da diversidade cultural dos povos. É aqui, creio, que Lévi-Strauss dorme com o inimigo.
Como Rui M. P. assinala, há um pudor em Lévi-Strauss para falar das relações de poder e das condições sócio-politicas que permitiram a empreitada antropológica. No entanto, são essas mesmas relações que subjazem o discurso de um Lévi-Strauss agastado com a permeabilidade do mundo ao projecto “evangélico” da modernidade ocidental (ironizo), de que o colonialismo é um dos seus dispositivos.
Assim, ao colocar em abstracto o vislumbre de um mundo de culturas irredutíveis, apaixonadas por si próprias, glorificando os seus heróis e constituindo inimigos em redor, Lévi-Strauss pouco mais pode do que augurar a promessa tantas vezes cumprida de antagonismos destrutivos e de tensões irresolúveis. Neste sentido, creio, a "paixão" recupera o sentido etimológico do confronto com a finitude.

Em segundo lugar, e isto coloca-me num registo levemente utópico, entendo que o esvaziamento da diversidade e da criatividade cultural do mundo não é a consequência necessária do encontro de diferentes formações culturais. E se é verdade que Lévi-Strauss tem subjacente a vocação epistemicida da modernidade ocidental, esquece-se que foi exactamente a paixão desta por ela própria, articulada com um sistema de exploração económica, que conduziu à mais violenta depuração da criatividade dos povos. O ressentimento histórico, as assimetrias económicas e militares, e a continuada exploração, vigiam as possibilidades para que o multiculturalismo seja bem mais de que um “corporate multiculturalism”, ou seja, a proliferação da diferença num “circuito do mesmo”. Não é a pureza intacta das culturas que garante a diversidade cultural, seria, isso sim, o interculturalismo feito de uma disposição para a aprendizagem com o outro, fora de relações de antagonismo.

Na verdade, as culturas nunca foram puras, quando muito híbridos estabilizados, atente-se no mais que polémico livro de Martin Bernal, Black Athena, onde o erudito autor fala das origens africanas da cultura grega e do processo de branqueamento da cultura helénica na construção de uma purificação ocidental. Nesse sentido, antes de celebrar o multiculturalismo importa perceber a multiculturalidade das nossas raízes/rotas, assim, creio, a paixão das formações culturais por elas mesmas poderá emular a paixão pelo híbrido criativo a advir encontro de culturas.

P.S. O facto da análise de Lévi-Strauss não se deter nas relações de colonialismo que permitiram a emergência da antropologia, como assinala Rui P.M., faz lembrar o paradoxo do fim da antropologia conforme desenhou Baudrillard. O filósofo evoca um episódio em que alguns antropólogos lutavam pela preservação de um grupo étnico isolado, os Tadasay, mas, ao quererem preservá-los do mundo ocidental, estavam a defendê-los a sua própria intromissão. Criando o sublime simulacro do fim da Antropologia. De facto, a antropologia alojou-se no colonialismo e na historicidade ocidental, mas, como diz Foucault em As palavras e as coisas, lá acabou por se libertar dos jogos históricos que a viram nascer para fazer o caminho inverso.

p.s. umbiguista: mais uma vez vou adormecer ao som de autocarros amanhecidos

O regresso do lince

Tinha pensado continuar o texto sobre Lévi-Strauss se alguma alma caridosa, uma que fosse, manifestasse interesse pelas questões ali presentes. Francisco José Viegas foi a gentil alma, obrigado! Logo pela madrugada a coisa segue.

A próxima pago eu!

Não esperam nada de mim compara a minha reacção à oferta de um fino por uma citação à "indignação daquele oficial da alfândega americana perante o comissário francês que simulou uma pistola com os dedos." A preocupação que expressei, obviamente, não é a negação do fino humor do blogger em causa (cujo endereço jamais revelarei), nem sequer se segue necessariamente à proposta. Simplesmente socorri-me da metáfora proporcionada por tal dialogo etílico, para ficionar o futuro da blogosfera quando fosse tomada pelas lógicas que imperam na sociedade que a germe. Uma ficção que, no fundo, já estava na irónica proposta.

O que Ana Sá Lopes (glória Fácil) denuncia bem a propósito, é a inocência roussena que assiste ao meu temor profético. De facto, a blogosfera não é nenhuma comunidade idílica sob o perigo de uma contaminação transformadora, nem nós os "bons selvagens", as "lógicas do mundo lá fora" estão já bem presentes nesta plataforma virtual. Portanto, o que ASL diz é que, em última instância, "O mundo lá fora", enquanto tal, não existe, como, aliás, não seria esperável que fosse de outra forma.
Infelizmente concordo com ASL. Penso, no entanto, que há por aqui algumas singularidades que importa assinalar. Começaria por exaltar uma disposição democrática que permite debates entre agentes inesperados. Apesar da rede assentar nalguns nódulos - as figuras publicas - ou até por causa da postura deles, gera-se aqui algo próximo de uma horizontalidade. Escritor@s e leitor@s confundem-se numa saborosa promiscuidade. No entanto, e como referia JPP, há aqui uma triagem dos agentes e dos interesses dessa democracia, é por isso se fala mais da Silly Season do que do desemprego, por isso se fala mais da Fnac do que do Pingo Doce. Em todo o caso, a tensão entre as singularidades da blogosfera (se as há) e suas as suas continuidades com a nossa sociedade, é, a meu ver, "a questão".