José Mourino ou o fado da vitoria

José Mourinho volta a fazer cintilar uma conferência de Imprensa. Além de asseverar os Jornalistas que nenhum clube português está em condições de fazer exibições à altura da que o porto fez contra o Milão, voltou a repetir as declarações que muit@s temiam ouvir. Há mais de um ano disse: “tenho a certeza eu para o ano vamos ser campeões”, desta feita foi mais subtil: “ainda não disse que vamos ser campeões, mas penso.” Pronto, estava dito!

Chamam-lhe arrogante, até dizem às vezes que é bom treinador, pena a sua sobranceria. Nada mais errado, a qualidade de Mourinho enquanto treinador resulta tanto do enorme saber técnico que detém (Uma licenciatura em educação física, dois “doutoramentos”, um com Bobby Robson e outro com Van Gaal), como da sua estrondosa capacidade de liderança; é sem dúvida um líder carismático ao jeito de Max Weber. Lembremo-nos, Mourinho estabelece grupos muito fortes no balneário, quando saiu do Leiria criou-se um vazio tal que Mário Reis só conseguiu estar lá uma semana com jogadores que se agrediam no intervalo dos jogos. Nesse sentido, o discurso auto-assertivo a que alguns chamam arrogante não é separável da tremenda capacidade mobilizadora e motivadora de José Mourinho, ele é um grande treinador porque estas declarações fortes são constitutivas da sua forma de trabalhar e criar “regimes de verdade”.

Acho particularmente curioso que, perante o discurso inovador, arrojado, explicativo do futebol, apresentado por José Mourinho, surjam os nostálgicos das conferências de imprensa clássicas: “vamos trabalhar domingo a domingo… os caçadores das taipas são uma grande equipa… temos que ser humildes…é um adversário que tem feito uma boa época… temos treinado bem…” Não há paciência! O apreço pela mediocridade low profile tem mais a ver com o ego dos “apreciadores” do que com qualquer outra coisa Mas quando faço esta elegia ao estilo de Mourinho não posso esquecer que ele se enganou uma vez, foi quando no jogo em casa contra a Lázio disse: “eu não acredito que entres estas equipas haja um resultado dilatado”. O Porto ganhou 4-1. A autoconfiança que Mourinho costuma exibir não lhe permite um plano B - “ e se nós não ganharmos o campeonato?”-, é porque essa alternativa não é pensável, que a vitória se torna o irrevogável fado composto por entre os labirintos das conferências de imprensa.

Propostas

No outro dia foi fazer uma visita à noite, vodka laranja em vez de vodka limão, por causa de uma pequena gastrite, e lá dou em encontrar um blogger cuja existência não virtual já me era longínqua. Assunto: óbvio: aquele blogue é muito redondo... x joga muito à defesa... y já conseguiu um registo próprio... z tem uma textura excelente... daqui a bocado Israel é a ocupada... k faz falta...TSF ameaçará Rádio Cidade...O reino da Bactária já teve melhores dias... , e por ali fomos...
Foi então que me fez uma proposta decente: se me pagares um fino amanhã cito-te. Era uma piada, mas a partir desse momento o espectro da mercadorização da blogosfera passou a fazer parte das minhas preocupações. Já chega o mundo lá fora!

Ardilosos reflexos

Normalmente interrompo o "trabalho" para vaguear pelos blogues. O lazer volta a ser interrompido se me meto pelo reflexos de azul eléctrico a dentro. O meu tempo nesses matizes tem que ser bem racionado, é que se me dá para ler dois posts seguidos tenho que tirar o dia! Ali o toque mais biográfico tarda, ou talvez nunca venha, uma coisa é certa, vale bem a pena!

O erro de Lévi-Strauss

Uma intervenção realizada em 1971 pelo antropólogo francês, Claude Lévi-Strauss, a convite da UNESCO na conferência de abertura do Ano Internacional de Combate ao Racismo e à Discriminação racial, suscitou um inesperado clima de celeuma que o próprio viria a mais tarde a designar, não sem ironia, como: “um belo escândalo”(1983:14). Na verdade, tal foi o desconcerto que os organizadores tentaram por várias vezes interromper a palvra ao palestrante, sem sucesso, ele falou até ao fim.

O intento da UNESCO ao dar a palavra ao reputado antropólogo naquele contexto havia sido, fundamentalmente, o de recuperar as ideias que este tinha apresentado vinte anos antes num texto célebre intitulado Race et Histoire (1952), enunciação cujo teor se viria a tornar uma referência incontornável nas lutas contra racismo e diferentes formas de subalternização da diferença cultural. Nessa obra emblemática o autor sustentava como ponto forte a necessidade de se respeitar e valorizar a diversidade cultural no mundo, sublinhando o efeito deletério resultante dos centrismos vigentes na base das assunções de superioridade clamadas por determinadas formações culturais.

No entanto, não estava nos propósito de Lévi-Strauss reafirmar ideias que o tempo havia lhe havia tornado menos certas e que tão bem haviam sido acolhidas. Nesse sentido, a sua comunicação investiu-se em larga medida contra “o abuso de linguagem com que [no seu entender] se confunde cada vez mais o racismo, definido no seu sentido estrito, com atitudes normais, mesmo legítimas e, em qualquer caso, inevitáveis” (1983:15). O autor procurou, no fundo, alegar que as lealdades culturais, mesmo que sob a forma de etnocentrismos susceptíveis de promover indiferença ou sentimento de superioridade em relação a outros valores, não só não eram necessariamente reprováveis, como correspondiam a um desejo intrínseco e legítimo das culturas, no intuito de afirmarem a sua singularidade. Deste modo, a paixão pela própria cultura deveria ser sancionada como uma compreensível forma de preservação de valores que, de outro modo, seriam expostos à empobrecedora relação com outros sistemas culturais, merecendo, portanto, na visão do antropólogo, ser pensadas fora das considerações condenatórias do racismo.

Onde é que Lévi-Strauss errou? (Continua- em princípio)
Lévi-Strauss, Claude, 1983, O Olhar Distanciado

A dissensão anunciada

Agradeço à Charlotte por se prestar às minhas dúvidas etimológicas. Talvez a Bomba pudesse abrir um consultório. Tento conciliar dentro de mim a simpatia da Dona Bomba com a sua leadade aos Blogues Livres. Insondáveis mistérios que nem os sentidos das profundezas vingam em esclarecer...

Amor nesses Blogues

Tenho percebido por esses blogues alguns posts intrigantes pelo estilo murmurante, esquivo e ambíguo. Falo de algumas linhas onde suspeito encontrar o ensejo de declarações de um amor.

Uma perpectiva possível, é entender que aspectos tão íntimos e tão pessoais não deveriam ser sujeitos à exposição que um blogue lhes concede. Discordo. Julgo que se inscreve no fragor do amor esse grito lancinante que o revela. As palavras dedicadas de surdina mais não são que um simulacro desse grito apaixonado. E se é verdade que as praias desertas são o cenário para a concretização última do amado encanto , é porque nelas existe a imensidão necessária para câmaras dos filmes, sejam elas reais ou imaginárias.

Num certo sentido, a estação de metro na hora de ponta é o cenário hiper-real do encontro fulgurante do amor, ele aí é mais tangível porque vivido no desejo realizado que todo o mundo o testemunhe.
As praias desertas, as palavras escritas na areia, nos vidros embaciados, as fotografias espalhadas no quarto, as mensagens guardadas no telemóvel, tudo, tudo isto vive de um secreto desejo que clama por testemunhas, ainda que negando a sua relevância.

Paris é a cidade entronizada pelo romantismo que se lhe adscreve. O ideário romântico que Paris suscita é, na verdade, o legado de Le Corbusier. Paris não é a cidade do amor, é a cidade da declaração sublime do amor. Por isso Paris é a cidade do amor. São as largas avenidas e ruas que prometem a dois seres de mãos dadas a perpetuação possível de um laço, um laço que a um tempo se completa e carece dos olhares que o confirmam, asserções só possíveis nos amplos espaços que todos associam à geografia do amor.

O amor dito nos blogues não nega o imperativo de uma partilha fechada. Ao contrário, afirma aquela que é uma das matrizes secretamente fundadoras desse amor Creio.

Fascio

Daedalus acresceta às minhas especulações uma hipótese preocupante para justificar a empatia dos Super Dragões com a equipa da Lázio. Gostaria de pensar que não faz sentido.

A partir de hoje, Marte e a liga dos campeões ficam mais longe.

Um estranho encanto

Pus-me a ver o atletismo e lentifiquei o meu olhar: ela é rápida, doce doce, e doce. Ah! chama-se Marion Jones

O meu maninho

Luntando contra a alergia ao pó, lá remexia eu nuns papeis, até que, por acaso, me surgiu um fotografia antiga do meu irmão, hoje como então, 11 anos mais novo que eu.
Abismei!, compreendi, não sem assombro, que o inevitável crecimento de uma criança implica algo próximo de um luto estranhamente cruel. Uma saudade, uma nostalgia atroz, uma perdição tão resolutamente incapaz de se socorrer na óbvia descendência desse infante!

Sei-o:Hoje, finalmente, percebi nas vísceras de um estranho sentir: os rituais de iniciação acontecidos noutros vales são, antes de mais, um óbvio luto, um imperioso coalhado de dor. À falta desses marcos, não temos senão um silencioso resvalar da infância, de uma ou outra lembramça, até que..., até que uma memória nos apanhe num qualquer tarde demais. Bolas David! podias ter avisado!
bem, vou dormir

7 dias depois

As identidades assassinas nascem da humilhação.
Amin Maalouf

Não diz tudo mas deixa pistas

Edward Said: "Enquanto escrevo este texto a ocupação imperial ilegal do Iraque pelos Estados Unidos e a Grã-Bretanha continua. E continuará verdadeiramente a ser algo horroroso de contemplar." Texto Integral

Traidores da pátria, Maradona e os pós-nacionalistas

Depois da recepção no aeroporto, a claque do Porto irá estar presente amanhã no Estádio do Bessa para apoiar … a Lázio. Pretextos: 1 a presença de Sérgio Conceição e Fernando Couto na turma italiana 2 o parentesco entre as cores emblemáticas do FCP e da Lázio. Objectivo: Irritar os 6 milhões de benfiquistas (ainda estou para ver os Censos de 2001).

A indignação parece ser geral. Eu, como fervoroso adepto do FCP, sinto necessidade de me demarcar da atitude dos super dragões, isto sem sequer evocar os que no fracasso fizeram do Celtic a sua equipa aquando da final taça UEFA (pronto já evoquei). Mas se é verdade que eu vou torcer pelo Benfica porque sei que a qualidade o futebol que tenho à porta muito depende do sucesso das nossas equipas pela Europa, sinto-me longe dos argumentos que por estas alturas se erigem contra os Super Dragões como se eles fossem traidores da Pátria a merecer a guilhotina. Não concordo com a atitude deles, reprovo-a até, mas não por referência a um qualquer nacionalismo que clame pela glória da nossa história e que diga que os que estão deste lado das fronteiras são sempre melhores que os outros.

Sempre fui um pouco pós-nacionalista, lembro-me de pensar no tempo de Maradona que, se por algum acaso Portugal jogasse contra a Argentina do El Pibe, eu iria fatalmente torcer pelo 11 das Panpas em detrimento de Paneira, Futre e seus correligionários. Talvez eu já tivesse uma identidade multi-situada pouco dada às inflamações nacionalistas que Amin Maalouf tanto condena, talvez a minha nação fosse o mapa de encanto desenhado pelo pé esquerdo de Maradona. Os Super Dragões encontram-se na curiosa tensão entre um regionalismo bacoco, a lealdade subserviente aos tempos do império Romano e um pós-nacionalismo cosmopolita de pendor humanista. Amanhã vitória do Benfica será a minha vitória, espero. Questiono se os impropérios tão característicos das claques serão cantados à moda do Porto, em Latim ou em Esperanto. Aí saberemos para onde pendem estes dragões que só a eles se representam.

Medíocre Index

Acusa-se:O Carlos Fino não é o Jornalista adequado para o Iraque. A TSF é de esquerda. O Acontece padecia de envisiamentos ideológicos. A Ana gomes aparece demais e demasiado inflamada. Será isto um desejo de depuração política das vozes possíveis ou esta é uma mera luta pela mediocridade em tons de Low Profile?

Percebo a cultura da exigência, mas certas críticas que venho observando aproximam-se tenebrosamente do padrão de votações do Big Brother: importa aos potenciais vencedores que sejam tímidos, calados, mas, sobretudo, despojados de qualidades passíveis de fazerem sombra a quem quer que seja. A vontade de um Portugal melhor certamente não se compadece com cotoveleiras ideológicas que fracassam em disfarçar a dor que tantas vezes lhes subjaz.

Tem cartão Dominó?

Quantas mais vezes é que eu vou ter que explicar às funcionárias do Pingo Doce que não tenho cartão Dominó? sim, porque eu não faço compras na Fnac do chiado nem na do Colombo! ah pois! é no Pingo Doce!

O meu primeiro Xamã

Nos tempos idos da minha Licenciatura em Antropologia, havia um professor - entretanto "desaparecido"- que exercia um inexplicável fascínio nos alunos. Era parco nas notas, pouco solícito no contacto pessoal, mágico nas aulas. Falava três horas seguidas, sem intervalo, para não perder o fio -era raro alguém saír a meio. Quando começava era como se uma performance artística ocupasse a sala, o fim da aula era o fim do espectáculo. Retenho a memória de um colega para quem um charro antes da aula se tinha tornado indispensável. Durante três horas, fumador e não fumadores ali se ficavam nessa entranha familiaridade que a Antropologia amadrinhava.

Pressão Social ou o Gosto pela Montanha?

É comum dizer-se inlectuais não gostam de praia. Isto explica-se, no meu entender, porque o culto da praia é um fenómeno altamente ritualizado que recolhe o gosto das massas, criando nos intelectuais uma necessidade de demarcação um tanto elitista. Embora seja esta a explicação mais convincente, algo me leva a insistir no efeito da pressão social sobre as configurações dos corpos.
Neste sentido, ganha pertinência a ideia de que a falta de exercicício inconcilia os intelectuais com a opressão das areias. A ser assim , não seria a necessidade de demarcação, mas a incapacidade de adequação a enviar os nossos intelectuais para as montanhas.

O exílio de um leito

Quando dormimos muito ficamos com o corpo dorido. Quando temos sonhos fortes ficamos emocionalmente exaustos. Acordar também pode ser um exílio necessário, para variar.

Um Deus Negro

Bruce Almighty: a evitar! O argumento é o de um filme natalício, as cenas de humor todas dependentes do evento fantástico de que parte a narrativa, e, para cúmulo, o talento de Jim Carey não é suficientemente aproveitado.

Ah! Um curiosidade interessante, o facto de a figura de Deus ser representada por um homen negro, Morgan Freeman. A Bíblia nega a possibilidade de Deus ser representado sob qualquer figura, mas à semelhança do "branquemento" de Jesus, a construção imaginária hegemónica de Deus envia-nos para a neutralidade divina de um homem, branco, e, de preferência, dolicocéfalo.

Anjos Revisitados

Este versículo sempre me comove: "Não vos esqueçais da hospitalidade, porque por ela alguns, não o sabendo, hospedaram anjos." (Hebreus 13:2).
sempre que lembro esta passagem, consulto o meu repertório de anj@s possíveis, às vezes também me leio como se estivesse infundido por algum espírito de missão em busca de abrigo . Está visto que para mim os anj@s são aquilo a que os antropólogos gostam de chamar "outros singicativos".

A confissão de um blogger

O caminho para a perdição na blogosfera: um site meter que faz escorer o nosso apego ao real. Espreitem que vale a pena

Esclarecimento

Quando falo do "Roteiro Para a Paz" falo do plano há muito arquitectado por Wolfowitz e Pearle na Casa Branca e cujo momento fundador foi a guerra no Iraque. O esforço multilateral que agora se enceta na palestina padece das constrições desse primeiro passo. Ciente disso, não obstante, gostaria muito que resultasse.

Adeus ao gel de banho

Pegadas na areia, mais um blogue feminino, dá a conhecer uma lista de marcas de cosméticos e perfumes que usam animais em testes. Fui consultar a lista e fiquei com uma crise existencial. É que a Vasenol é uma das marcas a evitar. O problema é que tinha há já um tempo uma relação de grande intimidade física com o Vasenol Amendoas e Mel, sei lá, gostava mesmo do cheinho daquilo!
É com alguma tristeza que digo que acabou tudo entre nós.

post pós-amor

Não há mal que sempre dure.

Obrigado pela boleia

Há cerca de dois anos conheci um rapaz que me foi apresentado por entreposto de uma amiga comum. Personagem simpática, olhos queridos. Vim a saber que estava profundamente marcado pelo fim de um relacionamento. Pensei: "não estamos tod@s!?" Mas, a coisa era mesmo forte. A minha amiga explicou-me: "já lá vão 4 anos e ele não a esquece!", "sabes, ele nunca bebe, porque quando fica tocado dá-lhe para chorar e tentar telefonar para a ex".

Embora o conhecesse pouco, calhou ficar-lhe em caminho para uma boleia; falámos um pouco e, não sei por que dizeres, lá aportámos na sua história de amor. Quando eu ia já a saír do carro disse-me esta frase que jamais esquecerei: "Sabes... dizem que passa, mas..."




Representação feminina na blogosfera

A Dona Bomba (Charlotte) - obrigado!- ajuda-me a engordar a lista dos blogues mantidos por meninas. Quantos mais conheço mais percebo que estou cada vez mais longe da verdade: bomba inteligente, crónicas matinais, belogue da papoila, tomara-que-caia, azul cobalto, modus vivendi, a carta roubada, contornos, quezia, triciclofeliz, azimutes, monólogo, beco das imagens, espuma dos dias, janela indiscreta

Profetas

Há muito que a administração Bush denunciava as ligações do Iraque à Al Quaeda. Agora que essas pontes já se criaram, o mundo pode enfim dar razão a Bush.

Perspectivas

Jaquinzinhos acham deplorável que eu não me identifique com as palvras de Durão Barroso quando este emula Bush no lamento da morte de Ségio Vieira de Melo: "em relação ao terrorismo, temos que estar de um lado ou do outro"

Ponto 1: O ataque terrorista dirigiu-se à representação da ONU, provavelmente porque as forças americanas, responsáveis pela segurança no território, negligenciaram a protecção de Sergio Vieira de Melo e restantes. A não estarem bem salvaguardados, os interesses americanos seriam, sem dúvida, os mais apetecíveis.
Ponto 2: A ONU foi feita alvo a partir de uma visão maniqueísta que pensa o Ocidente Vs Mundo islâmico, visão que funda o conceito de "ocupantes ocidentais" sem destrinça de qualquer ordem.
Ponto 3: É também um pensamento maniqueísta que pensa que, ou se está com o terrorismo ou se está com o "roteiro da Paz" americano. Na verdade, o mais provável é que os dois lados subsistam nessa estranha relação de interdependência.

TSF Reloaded

Sobre a TSF tenho a agradecer os mails de alfacinha, Assembleia, Matriz, Respirar o mesmo ar, Cruzes Canhoto, Rui Branco (País relativo) Guerra e pás, Para mim tanto faz e de Retorta e Mata Mouros. Entre sugestões, críticas, expressões de vontade, manifestações de desalento, anoto:

Alfacinha assinala que o debate esquerda direita reuniu mais preocupações do que a questão do fim da TSF. Expressa a sua descrença em boicotes. Veria com simpatia acções que pudessem defender a TSF, mas recusa alguma forma de movimentação que se assuma como a voz da blogosfera. Quanto às acções, pensa que elas poderiam eventualmente passar pelo Fórum TSF.

Respirar o mesmo ar propõe a criação de um blogue onde se pudessem catalizar as vontades e discutir ideias para a defesa da preservação da TSF

Glória Fácil enfatiza a importância da blogosfera gerar um clamor que incomode as sensibilidades bolsistas da PT.

Cruzes Canhoto – um pouco na linha da análise já feita por Guerra e Pás – aponta as questões económicas. Segundo canhoto o modelo de rádio da TSF não se compagina com a realidade sociológica portuguesa, sendo, por isso, uma fonte de prejuízos. Refere ainda que a TSF subsistiu (antes de ser comprada pela PT) apenas por uma questão da imagem do grupo Lusomundo.

Retorta fala da sua experiências nas comunidades virtuais e das aspas que é preciso pôr nessas comunidades. Vê as pessoas envolvidas em espaços virtuais pouco vocacionadas para mobilizações que impliquem mais do que mexer no rato e escrever.

Para mim tanto faz assinala as motivações políticas, afirmando que a TSF está a pagar o preço do êxito que teve. Isto porque, a voz da TSF sempre foi incómoda para os poderes que se sentem mais à vontade com o conforto do pensamento único, esse mesmo que agora se agudiza entre nós. PMTF menciona ainda o despedimento de excelentes profissionais da estação. Finalmente, defende que se levem a cabo pequenas acções, que se lembre o Rangel a vender presidentes como se fossem sabões, que se use um fórum TSF para falar da TSF, ou então que se parta para as Aulas Magnas como nos velhos tempos.

Penso que estas intervenções se oferecem para o forno da discussão da coisa TSF. Da minha parte adianto desde já:

1 Não creio que em algum momento se tivesse colocado a questão de um movimento que representasse a blogosfera. Entendo, isso sim, que a a blogosfera poderia tornar-se a base de uma coligação de vontades dos blogonautas que decidissem articular os seus ensejos.
2 Posso entender as razões económicas que se apontam, embora também já tenha lido que a TSF não dá qualquer prejuízo, sinceramente, não sei. Em todo o caso eu não me importaria que a PT optasse por preservar esta TSF apenas por uma questão de imagem. Na realidade, se os intentos da PT forem visibilizados a sua imagem pode tornar-se uma questão económica central.
3 Como temo que a ideia de um fórum TSF sobre TSF possa ser “chumbado”, entrevejo, como possível forma de acção, a escolha concertada de um fórum para onde se tentaria telefonar a despropósito alertando os ouvintes para a necessidade de defenderem a sua TSF. Teria que ser tido em atenção o tema para não tirar espaço a questões importantes e sensíveis.
4- Acham que interessa criar blog para a questão TSF?

O terrorismo, nas suas várias versões, também é deplorável. Não é, contudo, uma insanidade como disse Lula. Explico: apreender o terrorismo pelo nexo da loucura, da psicopatologia e da insanidade é retirá-lo dos contextos políticos, culturais e religiosos em que emerge. Não que isso deva obstar a uma inequívoca condenação das consequências que engenndra.

Lamentável

Palavras de Durão Barroso, no discurso de pesar da morte do diplomata Ségio Vieira de Melo (tiro de memória) : ... "em relação ao terrorismo, temos que estar de um lado ou do outro" ... "a comunidade das nações livres"...

Este uso dos slogans que Bush celebrizou na propaganda americana, aquando da preparação da guerra do Iraque, parece-me um pouco infeliz. Nas circunstâncias em que Durão Barroso fala é bem mais que isso: é deplorável.

Coerência

No dia em que os meus posts deixarem de ter gralhas é porque eu deixei de escrever.

Romances etílicos

Alguém me disse um dia (a Inês): - Tudo que fazemos quando bebemos cerveja é buscar o prazer do primeiro gole no eterno fracasso.

Percebi que tinha ali a justificação para aquelas longas sucessões de finos, tulipas, canecas: Afinal toda a cerveja que eu havia bebido mais não fora que a busca de um desejo longínquo cujo cujo ardor me escapava. Decidi que estavam criadas as condições para me afirmar como o primeiro romântico da cerveja.

Nesse primeiro impacto meditei nas vantagens que esta narrativa traria à minha vida social sempre que o tema dos copos fosse chamado à baila. Depois... Depois dei por mim a extrapolar a metáfora da nostalgia dessa primeira relação etilizante. Incomodado, decidi esquecer essa história.

Hoje lembro-a, não sei por que desígnios.

O Mito Avril Lavigne

Vou falar de Avril Lavigne. Dela conheço o fenómeno do seu sucesso e o teledisco da sua música mais conhecida. Estou portanto legitimado a discorrer sobre o assunto. O imaginário é este: uma bela adolescente de aspecto frágil, pouco identificada com a cultura mainstream, como o poderão atestar as Doc Martens que calça, clama por alguém numa noite terrivelmente fria.

Esperou num bar algum tempo pelo marcado encontro, mas esse outro cujas prioridades há que questionar, insistiu em não aparecer. Ali se ficou alguns momentos continuamente acotovelada pela alegria de uma massa anónima que claramente nada lhe diz, pelo menos nessa noite.

Caminhar pela asfalto parece uma quase óbvia opção para a representação do abandono e da espera, registo da ansiedade que alguém venha e nos tome pela mão levando-nos a esses novos lugares, ou apenas a casa. Ela não chora, mas canta como se chorasse.

Estou perfeitamente convencido que o teledisco de “Damn Cold Night” é uma profunda representação da existência humana,

Avril Lavigne é essa Eva ainda incapaz de convencer Adão a comer a maçã. Eis porque, no meu entender, este teledisco deveria preceder a representação simbólica presente em Génesis. O resto é o que se sabe

Representações da violência

A cena de uma mulher a ser violada é daquelas poucas coisas que ainda me fazem impressão no cinema.

TSF: Ponto da situação

Continuo a receber contribuições sobre o tema TSF. Agradeço desde já o precioso – embora escasso (férias?)- feedback já recebido, aguardarei por mais algumas reacções para pôr a carne no assador. Entretanto, deixo apenas a interessante proposta de respirar o mesmo ar para a criação de um blogue temático sobre a TSF, blogue que poderia ser mantido por alguns blogonautas que mostrassem interesse/disponiblidade.

O provinciano da blogosfera

Houve quem interpretasse a minha pergunta acerca da preponderância de bloggers masculinos como uma ardilosa estratégia de sedução.

Asseguro-vos que um eunuco não faria a questão mais despretensiosamente. (Por outro lado, esta evocação do eunuco, embora me sirva, talvez padeça de uma visão reducionista da sedução (??)). Seja como for a pergunta foi abençoada, abriu-me os olhos!

Houve quem sugerisse que a coisa talvez não seja bem assim em relação à pequena percentagem de mulheres. Nessa leitura, a minha perspectiva seria o resultado do do fechamento que todos temos num pequeno grupo de blogs que visitamos habitualmente, que citamos e que nos citam.

Continuo a achar que a preponderâcia masculina existirá, mas, em todo o caso, os seus efeitos poderão ser atenuados com esta pequena amostra de blogs mantidos por mulheres que me foi confiada: tempo dual, Lugar da Incerteza , Espuma dos dias, O Outro lado da lua ,
Um desejo de Nada , 100 nada,
Tracejado, Sem querer penso, Uns e outros, A natureza do mal, little black spot, 1ª experiência. Isto além dos que já figuravam nos meus links, dos que eu vou encontrando e daqueles com que nem sonho. Decididamente serei sempre um provinciano na blogosfera.

Constatação

Há uma percentagem muito pequena de blogues lusos mantidos por mulheres, não acham?

Homo habilis esse sonhador

Ainda o sonho e o fogo: Daedalus: [o] sonho de apagar o fogo, que afinal não passa de uma variante do sonho do Bem em vencer o Mal, dos arcanjos do Céu vencerem os demónios do Inferno.

A paixão de um pintor

Passei o último bocado de noite a pintar o Avatares. Quero crer que está mais fresco, mais doce, mas, sobretudo, mais azul. Para ser franco a estética é apenas um pormenor. Devo confessar - tenho que confessar - esta mudança não mais faz do que prenunciar futuro último deste blogue, um futuro ironicamente azul.

Imaginem: letras e fundo confundindo-se num lugar já marcado do espectro da luz. Adivinho-o, esse fim paradoxal que a escrita insistirá visitando ainda que na camaleónica certeza da sua transparência. Sem leitores, deixará de ser um blogue, será outra coisa qualquer que emulará, creio bem, o fim de todas as coisas.

A Paixão de Cristo é a um tempo o martírio, o sofrimento (daí compaixão) e conforonto com o espectro da finitude. É apelando a este último fio significativo que surge em mim uma paixão pelo azul.


Dizia o reflexos de azul eléctrico que o jogador está fascinado com o perder, se ganhasse sempre deixaria de jogar, dizia kundera que a vertigem mais não é que o desejo de cair, dizia Freud que o nojo é um desejo demasiado inconfessável. Para mim tudo isto se resume à paixão pelo azul que o meu template augura já. Tardará a consumar-se, assim espero

O comentador silencioso

Já recebi nota de algumas omissões na lista abaixo, vou fazendo acréscimos à lista à medida que me são referidas, com o mesmo cuidado com que recolho reacções. Alguém em sugeriu que, para ser coerente (post abaixo), deveria propor um abaixo assinado pedindo a substituição do Jorge Baptista (pim!) dos comentários de futebol da RTP. Respondo que essa situação não me preocupa, uma vez que tiro o som ao cometador e ponho o relato na TSF. Luís Moura do Muro sem Vergonha veicula que na TSF se estuda a hipótese de trasmitirem os relatos em diferido!!!!!!!!!!!!!!!!!! Bem... nesse caso, e só nesse caso, pensarei dedicar-me ao dossier Jorge Baptista.

TSF. Que podemos nós fazer?

Abrupto falou da TSF, e falou muito bem, citando-se em tom profético. Glória Fácil não desiste de denunciar silêncios. Comprazo-me com o fim das polémicas desnecessárias, entrevejo (inocentemente?) plataformas de acção. JPP referiu que o problema está a muito a montante da agora anunciada descaracterização da rádio notícias. Ainda que seja verdade, penso que seria errado conformarmo-nos com a ideia do "tarde demais". Pergunto: o que é possível fazer para defender a TSF que conhecemos? Vale a pena? Que papel poderá ter a blogosfera? Resultará o anúncio de boicotes à estação? Boicotes aos produtos que se anunciam na estação? Participações no Fórum TSF ou na bancada central? Que posição terão os profissionais da rádio? Será pior a emenda que o Soneto? Não estou a ver a blogosfera saír às ruas. Essa seria uma dimensão demasiado real para a nossa virtualidade, além do mais somos poucos. Será que a blogosfera tem capacidade de se articular com a sociedade civil? Constituirá este um teste de fogo para saber se isto é mais do que uma moda de gente desocupada?
Insisto na segunda pergunta de Kant: O que posso fazer? Alargo-a: Que podemos nós fazer?

Vou mandar um mail aos blogs que têm falado sobre o assunto:

Guerra e pas, Glória Fácil, Abrupto, Alfacinha, Aviz, Desesperada Esperança, icosaedro Outro Eu, Dicionário do Diabo, Cruzes canhoto Muro sem vergonha País Relativo, Para mim tanto faz Descobrimentos, patarata, Memória de peixe, Palavrar, Opiniondesmaker, Adufe, O crime do padre amaro, O outro lado da rua, Almocreve das petas, Valete de frates, Mar salgado, santa ignorância, Sopa de pedra, , Contra factos e argumentos, respirar o mesmo ar, contra corrente, Cerco do Porto, Escutas, Memória Virtual, Agora é que vou dizer tudo, l´homme qui a mordu, Contra corrente, Assembleia , A Matriz, Retorta

e também aos blogs temáticos de rádio:
vidro azul, dias de rádio, telefonia, intima fracção.

Não supunha tantos, deixei-me levar pelos desígnios do google, por isso é natural que tenha metido a pata na poça em muitos casos. Vou fazer um chá, que mandar estes mails todos não vai ser brinquedo. A quem achar isto despropositado: a minha mais humilde atenção. Para o bem e para o mal a minha caixa de correio está à vossa inteira disposição: avatares_do_desejo@hotmail.com

Últimas: Jorge Baptista para a pesca. Scholari busca o Nobel

(um post rasgadinho) Scholari surpreendeu ao convocar o terceiro guarda redes do F.C.Porto, Bruno Vale, para próximo jogo da selecção. Acerca do futuro promissor deste jogador parece não haver muitas dúvidas. Da sua incontestável vocação para as balizas falou há muito José Mourinho, de quem disse o que se costuma murmurar acerca dos predestinados: É certo que esta asserção muito contrista a todos que viam o benfiquista Moreira como o sucessor de Baía nas redes da selecção. Como portista é com alegria que vejo ser premiada a escola das Antas, é com indignação vejo ser esquecido o seu Mestre: Vítor Baía.

O sucesso precoce de Baía e a sua ubiquidade nos títulos (o jogador Português em actividade com mais competições ganhas) cedo lhe granjearam rancores, invejas e pueris desejos de desqualificação. A elegância e eficácia de Baía sempre foram visceralmente vigiados pelos seus detractores. Numa longa carreira, na importante posição de guarda-redes, não poderia ser difícil encontrar falhas, momentos que logo se resgatavam para esse incontido desejo de negação. Não obstante, o génio seguro prevaleceu e viajou para Barcelona.

Surge então o suplício das lesões, as baixas de forma e a diminuição de confiança elas causadas. E lá se levantam as profecias ansiosas de quem tem a certeza, mas que precisa de confirmar a todo o segundo: “eu sempre disse que ele não era grande coisa!”. A coisa foi ao ponto de Baía ser feito mártir pela desastre da Coreia (!), pouco importava que nenhum golo lhe pudesse ser honestamente imputado, pouco importava as 4 bolas que tirou dos pés dos avançados coreanos que caminhavam (corriam) isolados para a sua baliza. Aquilo é que foi: o Figo jogou todos os jogos sem dar um sprint, mas à noite as sms’s para a televisão eram dedicadas a Baía (como se nele houvesse alguma culpa por ser o guarda-redes de confiança de António Oliveira!).

O vil comentador Jorge Baptista (pim!) disse que Baía nada mais fora que uma estratégia de Marketing; “Ó meu amigo, tu nem para marketing nem para o futebol!”. Como se viu (ouviu) ontem na transmissão do Benfica, este senhor tem por hábito deitar abaixo, jogadores, treinadores, fá-lo em todos os jogos, e como normalmente há sempre uma equipa que perde, nunca falha! Parece um marreta da bola! Devia ir comentar pesca para denunciar os iscos mal postos! (já perdi a linha argumentativa! Esse “bocas” tira-me do sério, o Aurélio Márcio (TSF) devia defender a sua classe expulsando-o da ordem dos comentadores de futebol).

Mas, continuando, não é que para desconsolo de muitos Baía regressa ao Porto, à casa mãe, livra-se das lesões e faz uma época soberba ganhando tudo o que havia para ganhar! Como muitos denunciaram, foi ele que mais tempo segurou a taça UEFA, nada mais óbvio: era para que vissem o que é uma verdadeira estratégia de Marketing: segurar taças, é isto que o Baía tem feito para se promover, e já segurou muitas! Ainda assim Scholari já vai 4º guarda redes convocado ( Ricardo, Nelson, Quim; Bruno Alves- o Marco Tábuas aguarda a sua vez!), será que Baía não figura entre os 4 melhores guarda redes portugueses da actualidade? Será que não valeria a pena conhecer o jogador sobre o qual só deve ter lido as sms’s dos raivosos portugueses durante o Mundial!? Ou será que está aqui implícita uma tese mais forte: quem tanto deu já nada mais tem a dar, quem tanto ganhou já nada mais tem a ganhar? É esta mentalidade que mata o cintilar da vida muito antes que ela cesse. Caro Scholari, muitas das grandes descobertas da humanidade não foram senão olhares investidos de novo sobre cenários apenas aparentemente conhecidos. É fácil ser inventivo descobrindo a pólvora, difícil é libertamo-nos de preconceitos e do desejo de mostrar originalidade.

Baía, continua a fazer Marketing, erguendo taças por aí afora, pode ser que reparem em ti! Possas tu viver a essas modalidades grosseiras do desamor. Um dia Jorge Baptista e Scholari poderão perceber o que é ser esquecido em vida, temo por eles. Apertei-te a mão quando fui apanha bolas de uma supertaça que ganhaste em Coimbra, as tuas luvas ficaram com outro menino, não lamentei. Sabes, estas coisas que foste espalhando no lastro das vitórias não se esquecem com facilidade!

Colpo Grosso

Lembram-se do Colpo grosso? Era um concurso softcore que a sic transmitia aos sábados à noite, sob o nome Água na Boca; tinha umas strippers que davam pelo nome de frutas e um apresentador anafado chamado Umberto Smaila.

Evoco este programa (ainda que eivado de uma lógica patriarcal que nos habituámos a naturalizar: se havia concorrentes homenes e mulhesres porque é que só havia bailarinas femininas?), porque tenho a profunda convicção de estar a escavar um fenómeno relevante na realidade portuguesa das últimas décadas. E também porque me apetece! Este é o tipo de tema que tem facilidade em fugir às abordagens académicas, tão atentas, tão dedicadas, mas incapazes de reconhecer a relevância de um programa que viu nascer a sexualidade de uma geração. O aspecto mais interessante do ido concurso era o facto de os strips das bailarinas dependerem da prestação dos concorrentes. Ou seja, havia noites em que Opulenta não dançava para angústia de alguns mamófilos. Imaginem, quantos litros de adrenalina e testosterona não se terão simpatizado com o nervoso girar da roleta?! Para alguns, que ainda não podiam jogar no totoloto, esta era a verdadeira roda da fortuna!

P.S. desconfio que a integração do termo "grossa" para descrever uma mulher sexualmente atraente tenha génese numa apropriação do Italiano via Colpo Grosso.

Evolução do sonho

Uma das mais interessantes teses sobre a evolução humana refere a possibilidade da nossa espécie ter começado a sonhar quando aprendeu a usar o fogo. Este, inicialmente, seria resgatado de fenómenos naturais como incêndios provocados por trovoadas, só depois se terá desenvolvido a singular arte de o produzir.

A insuspeita simpatia entre a flama e os sonhos é adivinhada pelo facto de o fogo ter constituído um importante elemento de defesa contra os predadores do Homo Sapiens , permitindo que os nossos ancestrais pudessem dormir mais profundamente, superado que estava o imperativo de manterem em fases vigilantes do sono. Começaram a sonhar com uma chama por perto.

Assisto à calamidade que inflama Portugal, assisto às perdas individuais e colectivas, e percebo que nessa antiquíssima relação entre o sonho e o fogo se inscreveram também as matizes do que nos habituámos a chamar pesadelo.

"Que fazes logo à noite?"

Blog de Esquerda: aprendi em três tempos as regras da "escrita inteligente" que o vetusto Nokia me permite. Agora só falta ter coisas inteligentes para escrever...
A escrita inteligente dos telemóveis causa-me dois desconfortos de monta:
1º As palavras que são recorrentes e necessárias são frequentemente substituídas por outras que nunca devem ter figurado numa sms. Por exemplo, eu tento escrever tua e aparece uva. Podem tentar acho que o dicionário que aí circula é o mesmo.

2º Quando dicionário consegue intuir as minhas palavras eu fico sempre com a estranha sensação de que o que escrevi já estava dito. Fico com a suspeita heideggeriana de que a linguagem do telemóvel falou por mim. O site da mytmn leva isto ao limite, apresenta mensagens pré-feitas que os utilizadores podem usar.

Para manter a ilusão da minha pujante criatividade vou devagar, experimento as teclas, letra a letra. É esta demorada dedicação que devia ser lida.

escutas

Regressou à actividade o posto de escuta, um espécie de colectânea actualizada da blogosfera. Bem aparecid@(s)


TSF

Está-se a tornar custoso perceber porque é que sempre que o tema "TSF" é trazido para a baila a coisa resvala em polémica. O debate sucedido entre Pedro Mexia e Carlos Vaz Marques acerca da identidade da TSF, volta agora a repetir-se noutros termos com a interpelação da Glória Fácil (Bem vindos). Aceito que haja divergências, mas quero concordar com a Glória Fácil quando analisa o debate da blogosfera descentrado do essencial: o futuro da TSF! Temo que a tendência se adense. Por isso gostaria que, de uma vez por todas, nos dirigíssemos para defesa de um dos mais notáveis órgãos de informação que temos. Aliás Mexia começou por aí! A TSF para muito de nós é a rádio de referência, para mim é uma referência informativa e afectiva, a sua descaracterização preocupa-me profundamente. JPP, que também já tomou uma posição em relação ao futuro do flashback, falou das microcausas da blogosfera. Parece-me que há neste espaço sensibilidades mais do que suficientes para perceber que a TSF merece ser uma das causas a ser considerada para uma qualquer forma de intervenção a brotar de uma tão pujante massa crítica. A defesa de causas não é um anacronismo, nem tão pouco um intuito politicamente demarcado. Lembro-me do que a TSF fez aquando dos massacre em Timor, o excerto musical com que os acontecimentos pós-referendo foram acompanhados, as peças fantásticas de alarme, o resgate dessa dor que fez com contribuiu para que Portugal se indignasse.

Neste momento, parece-me, o essencial é saber se o que o que vai ser do futuro da TSF. Isso é que me parece polémico.



P.S. Se Carlos Vaz Marques souber a que excerto sonoro me refiro seria uma forma interessante de evocar o património da TSF que conhecemos

lá longe...

Doces amig@s ligam-me já alta noite de Porto Santo, o telemóvel é uma polifonia de palavras de êxtase, um convite sugere o próximo avião. Sei-o: a esta hora estão a beber vinho tinto numa praia, o sol nascerá quente sobre a tenda, acordarão com calor à procura de água e tomarão qualquer coisa para a ressaca. Esta noite a minha cama vai estar cheia de areia. Amanhã serão apenas saudades.

Regresso a casa e ao conforto dos acentos.

Obrigado Joao Jardim!

Quando me perguntam o que eu quero beber acontece-me pensar no futuro da minha barriga: - Uma tulipa se faz favor!
Às vezes dá-me para lembrar do Alberto João Jardim e lá digo sem pesar: - Uma água s.f.f!
É assim que eu controlo o porvir da minha barriga.

Uma ménage em Antuérpia

Ontém o meu fim de tarde arrastou-se para Antuérpia. Cidade pouco dada ansiedade turística do «eu estive lá», Antuérpia exige descanso, convida à temperança, estar em Antuérpia é passar a tarde num sítio só, uma espécie de aleph histórico-geográfico. Sentei-me numa daquelas esplanadas do centro histórico, uma das muitas que a catederal contempla com a sua sombra inquieta. Pedi algo para beber... pouco importa!, a minha história cessa aqui. Ao meu lado estava um casal estrategicamente sentado numa mesa virada para a rua; ali o jantar era já passado, as chávenas de café estavam ainda quentes, restava uma das teimosas garravas de vinho tinto que permanecia em franca actividade pintado, ora os copos, ora os lábios, ora a a toalha do restaurante italiano. Era muito óbvio que estavam a passar um bom momento, evidência nos olhares cúmplices, na contemplação das vizinhanças arqitectónicas, na busca dos sorrisos das crianças distraídas com gelados.

Aquele quadro era de tal modo forte, de tal modo cintilante, que nele se adivinhou a insularidade vivencial desse jantar em antuérpia.
Assisti, estou certo, a um momento excepcional, serviu para um um blog que será lido – supõe-se – num país algo distante da Flandres, refiro-me a Portugal, mas, mais importante, aquele jantar em antuérpia constitui um momento narrativo central para aquele casal. O que eu presenciei à distancia de um metro não foi apenas uma rara e singular partilha – doce, importa acrecentar- foi, a consciência disso. Talvez esta asserção não seja mais que a substanciação da sedimentada intuiçao de Clifford Geertz. Dizia o romântico, que quando o antropólogo acede a um contexto de relações e de valores, engendra uma reflexão que nada tem de inaugural, as culturas já se haviam pensado, já tinham os seus «escribas», os seus críticos, portanto, o estudioso social pensa-as numa segunda ou terceira ordem, reflecte sobre um sistema de signficado que já se viu ao espelho. Permitam-me a metáfora: as culturas são inenerentemente masturbatórias, conhecem o prazer antes de se entregar à sexualidade, antes de submeterem ao enleio curioso de um corpo estranho.
Coisa instigante, o casal Belga que ontém jantou em Antuérpia nada disse durante uma hora, parece certo, estava ocupado em viver um tempo fora do lugar. Mas esse silêncio longo é mais do que isso, é a solene declaração que tudo isso era já texto muitos copos de vinho antes de eu chegar. Eu não esquecerei esse jantar, eles também não. São assim as minhas ménages.

Urinar a Promessa

Vi este escrito hoje na porta de um museu de Bruxelas: Uriner dans la nature est un rite religieux par lequel nous promettons à la terre d'y retourner, un jour, tout entier
Uma promessa, um rito, uma peregrinaçao! Para mim esses momentos de puro prazer ou terrível aperto jamais serão os mesmos.
O autor é Milan Kundera!

Eles são mesmo bons

Canhoto: Há fortes indícios que os dois laboratórios móveis iraquianos que o governo americano afirmava serem laboratórios biológicos, fossem apenas destinados a produzir hidrogénio para encher balões. Bela metáfora das acusações americanas.

Regar a alma

O prazer de regar em aDeus: Descobri que partilho uma paixão com a minha mãe e julgo com mais alguns mortais: regar!
Não interessa o quê, tudo serve de pretexto para regar.
Nem que seja as pedras da calçada (já vi a minha mãe faze-lo).

Tautologia

Ao conceito de moda moda associo os estrito número de coisas cuja cuja primordial razão de ser é a própria moda.

Re-Seio

Agradeco a poética dedicatória do opiniondesmaker a propósito do post que escrevi sobre os seios liminares.

Música ou a morte do Blogger

Tenho ouvido saborosos excertos de musica por esses blogs afora. A primeira vez que usei essa funcionalidade foi no crítico de música, mas não sei se terá sido o primeiro a disponibilizá-la ente nós. Concordo com a decisão da memória inventada de, na senda de Carlos Vaz Marques, fazer da virtualidade musical uma opcão. Mas, confesso, também gostei de ser brindado de surpresa na razão impura. No que ao avatares diz respeito, acho-me vinculado a limitações de ordem vária, o template rústico a que me afeiçoei é só um pormenor. Na verdade, queria um template azul onde pudesse ser o dj com que nunca sonhei.

Escrever com música em fundo produz nexos referenciais próprios. A única forma de uma pessoa se ler nesses casos implica evocar a música que participou na autoria, minimiza-se assim o anacronismo. Será que os historiadores pensam nisto?

Por outro lado, outras músicas, outros silêncios, instigam a proliferacão de autores de que fala o reflexos segundo Roland Barthes. Como pode ser doce a Morte do autor...

Desculpem, é engano!

Os últimos post de JPP, respodendo à notícia do 24 horas, são uma poderosa expressão da propalada versatilidade e do insuspeito potencial da blogosfera. Encontro outras, retenho esta pelo seu capital simbólico.

Na pletora de registos aqui presentes, ganham terreno os temas pessoais e relevantes, recua uma certa ironia crítica com tendência para resvalar para o cinismo. Quando entrei para isto disse: "Chego atrasado ao mundo dos blogs atraído pelas modas dos solitários de fim-de-semana. Em bom rigor para mim faz sentido, sobretudo aos dias da semana." Hoje sei que vim enganado, isso não me desagrada.

Os Seios Liminares

Tenho amadurecido uma instigante reflexão em torno da exposiçao pública de seios - não se trata de uma obsessão infantil, mas de um questionamento que, creio, se reveste da algum relevo (a palavra é contextual).

A questão pode-se sintetizar assim: Porque é que a catarina Furtado não apresenta a operação triunfo de topless?

O que eu quero por a nu com esta interrogação provocatória parte do que vamos assistindo nas nossas televisões: uma evocação dos decotes medievais.

Senão, obeserve-se a já referida apresentadora, a Alexandra Lencastre, a Figueiras, a Isabel Angelino e (pasme-se) a Serenela Andrade. Um olhar inspectivo logo se apercebe das complexas engenharias de costura que permitem algo surpreendente : que 94% do seio fique de fora. Perguntarão: será que isto significa que rompemos com um tabu social nesse tipo de programas, ainda mais com figuras cuja carreira depende de um relativo nível de contenção corporal (excepção feita à figueiras)?

Creio que não!

A norma social que desvelo parece ser bastante clara: Pode-se mostrar a quase totalidade do seio desde que a aueréola do mamilo permaneca oculta.

A forma estrita como assisto a esta prescrição ser cumprida leva-me a colocar 3 hipóteses:
1- O que se encontra no interior da aueréola do mamilo representa a mama como um todo, epitomiza-a de tal modo que, ao ser posta debaixo do tecido, equivale a que toda a mama esteja simbolicamente oculta.
2- A área cincunscrita pela auréola do mamilo detém o estatuto de segredo pessoal. Corresponde a uma espécie de bilhete de identidade da mama, cuja revelação conduz ao perigo da fuga de informação.
3- Trata-se de uma demarcação entre o espaço privado e o espaço público. Na arena pública torna-se possível capitalizar a sensualidade da mama sem que com isso se ponha em causa o decoro e o recato dos campos da vida íntima. Neste caso a aueréola constitui um limite singular, um espaço liminar que, qual charneira, actua como limite simbólico entre dois mundos.

Continuemos a maturar o tema! avatares_do_desejo@hotmail.com

Obrigado Inês

A Inês mandou-me um apanhado que menos não é menos que uma ode poética aos desenhos animados do século passado. Está arquivado na minha inbox e chegará à minha pasta pessoal e à de quem o desejar.

Onde jazes sem amor

Descobri como usar acentos nos teclados holandeses. Tenho que ir ao word e usar o inserir símbolos. O processo é moroso, escreverei apenas um post assim. Confesso: a minha relação com a Microsoft nunca se fundou no prazer!

Uma Metafora Excessiva

lamentavelmente sem acentos No post anterior engendrei uma metafora em que falava do papel constitutivo do Bel e Sebastiao na minha sensibilidade. Como blogger competente, depois de muito procurar pelo google (so consegui quando verti o titulo pra ingles), encontrei um site com a magica fotografia do cao e do menino dos alpes.

Foi entao que, num episodio algo insuspeito, uma lagrima veio para me dizer que a metafora se tinha literalizado. Esse liquido que agora escorreu entre mim e o ecrã fala dos tres: do bel, do sebastiao e do menino que chorava com as suas desventuras. Suspeito que a inadvertida lagrima os contemple de igual modo.

P.s. alguem sabe como poderei adquirir os episodios?

Nostalgia Latina ou uma etnografia de desejo

Ontem fui a banhos numa praia proxima de Haia (Den Haag como por aqui dizem). A minha empreitada por aquelas areias centrou-se numa analise etno-fenomenologico dos corpos que ali passavam. Comecei por um deslumbramento com as consequencias do consumo da salada holandesa. Digamos que no vasto espectro dos corpos, ha ali uma regiao imaginada que fracassa em se adequar ao estereotipo nordico, normalmente pela pela intromissao de um ou outro detalhe. Vi encanto nesses fracassos sucessivos. Depois, claro, ha as vantagems do multiculturalismo: imigracao, aquisicao que em muito acrescenta a paleta daquela praia. Refiro-me, nomeadamente, a presenca da corperealidade africana e do sudeste asiatico, uma mais valia para qualquer plantel estival.

Estive entao eu neste quasi-deslubramente ate que, pelo fim da tarde, quando o sol ameaca esconder-se fui acometido por uma nostalgia Latina. Indaguei de mim para mim onde estariam aquelas incorporacoes do muito e bom caldo verde. Para mim essas morenas imagens sao tao constitutivas do meu desejo como Bel e Sebastiao foi da minha sensibilidade. Um fim de tarde paradoxal numa praia intercultural.

A Missao de um Boemio

No artigo que noticiava a morte de Joao Pulido Valente, retiro este dito delicioso: Como sou um boémio, eu queria salvar a humanidade e escolhi uma maneira divertida de o fazer. . Tambem disto se fala aqui e aqui

Fogo em casa

Tenho estado desligado da realidade noticiosa portuguesa. No entanto, Portugal veio ao meu encontro enquanto via a BBC. Alia Falaram dos fogos que grassam pelas florestas portuguesas, assim como da ajuda enviada por Marrocos e Espanha. Nao e a melhor forma de se ouvir falar de casa...

A auto-referencialidade de alguma ciencia. Vulgo: autismo

sem acentos Acerca do debate entre Sokal e Boaventura Soua Santos (nao foi bem asim, pelo visto Sokal estava entre fieis), recebi preciosas indicacoes de movimentacoes na blogosfera. Recebi um simpatico e bem elaborado mail do post-ulante: "Dizer que "A felicidade não é o principal objectivo da ciência" como fez Sokal é totalmente desajustado das necessidades que se impõe à sociedade contemporânea e de um autismo agudo – que temo até ser crónico – do cientista em causa".
Acerca do debate fala
picuinhas : "Confesso que já antes de entrar me admirei com a coragem demonstrada por Boaventura Sousa Santos ao dispor-se a enfrentar um painel que lhe era claramente hostil"
Muro Sem Vergonha: "Aqueles que estão convencidos que na Ciência se discute honestamente para apurar a melhor opinião possível, saíram do debate esclarecidos: em Portugal tentam-se ajustar contas"
Refiro ainda o Icosaedro que citando algumas das passagens da obra de BSS nos traz alguns laivos da discussao fundadora.

Gosto particularmente de ver o triunfalismo autista-ainda-positivista das ciencias duras ter que se confrontar quer com as epistemologias destabilizadores e denunciadoras da construcao de Verdade, quer com a crua verdade dos mundos da vida; esses mesmos mundos que condicionam e sao condicionados pela actividade cientifica. A humildade das "duras" (entenda-se ciencias) passara por estas perceberem que idas as precisas verdades restam ainda as incontornaveis necessidades (desiguais), para as quais o saber importa e muito.

Agosto, a depressao apodera-se da blogosfera.

Nao creio que isto derive do facto da actividade bloguista ser incompativel com o sol, mar e as viagens. Alias, acho que esta e a altura ideal para escrever num blog e esquecer os imperativos abanonados no Word. O problema, creio, e mesmo de ordem tecnologica!, os computadores sao pesados, a ligacao a net pouco flexivel e, claro, a areia que entra por todos os lados.

Hoje somos poucos, pode ser que a cumplicidade se agudize.

Os Colunistas da Pista

Perguntam-me se foi preciso ir a holanda para elaborar uma critica acerca dos colunistas (os que dancam em cima de colunas, naturalmente...). Responderia que a sua disseminacao translocal adensa a pertinencia do fenomeno, logo, justifica a elaboracao antropo-blogo-logica.

memorias da worten ao Domingo

sem acentos Num domingo holandes vejo um vasto parque verde populado por familias que se ocupam com bolas, sandes, a relva, o sol. Observo a elevada percentagem de imigrantes presentes, dizem-me que sao mormente da Turquia e do Suriname. E e assim, em familia, debaixo do sol, a grelhar salsichas, em convivio com os "locais", que se me apresentam os imigrantes des baixas terras. Penso nos inumeros ucranianos, moldavos, etc., que la no nosso canto (um "nosso" que os inclui na minha versao) passam os solitarios domingos em frente ao um televisor na Worten. Isto, claro, quando nao lhes pedem para sair.

A ciencia e as pessoas

Sobre o debate decorrido entre Sokal e Boaventura Sousa Santos, pouco consegui encontrar na imprensa. Retenho uma ideia de BSS presente o artigo do publico: "A ciência não existe para o bem da ciência, mas para o bem da sociedade. É aqui que não concordo com Sokal." Se alguem tiver nota de algum artigo ou algum post que fale do assunto caridosamente diga algo para o meu mail avatares_do_desejo@hotmail.com

Ironia na Pista de Danca

Quando as dancarinas profissionais saem de cima da coluna ocorre um evidente processo de democratizacao. Com ansiedade sobem as hordes de anonimos consumidores de alcool, aqueles que ate ha bem pouco apenas observavam com um copo na mao. Isto para mim, e a reivindicacao de voz dos que nao tem voz.
E assim se faz: os corpos evoluem do alto desejosos de feedback emulando a memoria dos exuberantes movimentos das bailarinas. A coisa nao costuma correr bem, nem pode. A pista danca indiferente, do alto da coluna la se articulam desejos de visibilidade guardados ha demasiado tempo.

Demasiado querer, demasiado ruido da vontade. A musica toca sozinha mesmo debaixo dos seus pes...

Catamaran Sailing

sem legendas Subi as escadas despidas da costumeira austeridade para entrar na biblioteca municipal de Roterdao. O edificio com uns tubos amarelos ca fora mais se assemelhava a uma discoteca: como nao havia consumo minimo, entrei. Estava a decorer uma venda de alguns livros usados, o preco, 1 euro, prometia, mas o Holandes nao e o meu forte, dado que excluiu 97% das hipoteses. La consegui encontar umas preciosidades em Ingles - por um euro a bibliofilia nem chega a perversao de caracter. Quando sai olhei espreitei para o saco pesado e deparei-me com coisas como um ensaio antropologico sobre o genero dos Hijras da India, "The court Society" de Norbert Elias, um livro sobre o solucao final nazi, ume etnografia sobre os esquimos do Alasca, a historia das prisoes nos ultimos 200 anos, e por ai fui. Na altura, confesso, senti orgulho por perceber os ecleticos interesses ali representados. Passou depressa o laivo de auto-comprazimento. Ha pouco lembrei-me em desassossego de um livro que ficou na biblioteca de Roterdao para venda: "Catamaran Sailing": Essa pechincha de capa sedutora escapa ao meu paroquialismo, denuncia-o, epitomiza-o e, o que e pior, continua a nao me interessar.

Quem E?

A pergunta e ritualmente feita atras de uma porta fechada ou numa qualquer circunstancia que nao recordo:
- Quem e!?
Ha uma resposta que tem tanto de instigante como de recorrente:
- Sou eu!
Sinto-me sempre tao longe da pletora de conviccoes reunidas nestas duas palavras...

Quando me perguntam "QUEM E?" faco-me titubiante, perco discernimento, revolto-me. Sao crueis as ordalias sociais!...


O meu umbigo

Sou adepto do umbigismo.
Um umbiguismo de matriz obstetricia que se funda na perda iniciatica de um vinculo.
Um umbiguismo que reconhece a necessidade de resgatar vinculos novos.
Um umbiguismo onde a nossa perda emula a carencia do outro.
Um umbiguismo que nos vincula aos que pouco tem a perder.

O umbiguismo para mim e uma formacao obstetra-romantico-politica

(sem acentos, perdoem)

Dom e Dadiva

(ainda sem acentos, uma ausencia que assinala lonjura) Creio que com o continuo resvalar dos meus posts para este blog, algo proximo de um cariz confessional tende a vincar-se. Porem, nada de assustador. Para mim a razao e simples, @s bloggers que leio estao dar muito de si, e cada vez menos falam de livros para falarem dos livros que nao leram. Gosto disso.
Assim sendo a culpa sera del@s e nao minha.

Outras vezes equaciono se eu nao os lia ja no vislumbre da dadiva que agora encontro prolixa, se eu nao @s lia por suspeitar que nao se aguentariam muito tempo a falar so de fotografia, livros, filmes e politica. Os blogues que leio encontram-se na imprecisa fronteira entre dom e dadiva.


p.s. tenho dificuldade em compreender que alguem fracasse em reconhecer os meritos do rendimento minimo. Ha opinioes que nao sao apenas politicas e politizadas, sao, isso sim, um extravazar de libido politico-partidaria.



Lagrimas e Perfume

Aterrei hoje em Amsterdao. Serve isto para justificar a falta de acentos (ah pois! eu escrevo a mesma).

Ao entrar no aeroporto de Lisboa para a partida, sou confrontado com a figura madalenaica de uma rapariga que chorava um pranto triste - mas nao tragico Imaginei que tinha chegado atrasado para uma uma daquelas despedidas cujo lastro perduraria. Mais, entrevi nessas lagrimas um adeus definitivo. Jamais saberei.

Cerca de 20 minutos antes do aviao se fazer a pista holandesa, uma senhora que estava ao meu lado foi a casa de banho. Nao demorou, quando regressou foi notorio que trazia consigo um intenso odor a perfume. Era um daqueles perfumes que mexe com o nosso estomago sem que a nossa imaginacao e hormonas tenham oportunidade de ser convocadas - diria um perfume doce como xarope. Nao vomitei. Imaginei o reencontro que justificaria uma ida perfumadora a casa de banho do aviao da Air France. Imaginei o perfume misturado com suor umas horas depois. E eu longe, para nao vomitar.

Lagrimas e perfume marcaram a minha viagem. Os mesmos liquidos que foram derramados por uma mulher nos pes de Jesus.
Talvez perfume e as lagrimas tendam a reencontrar-se, talvez a fatalidade desta irmandade venha a marcar em sentidos opostos a historia das mulheres de que vos falo. Em todo o caso, espero que um aroma mais suave prevaleca.