O circuito do mesmo

Quando acabo trabalhos importantes envio-os de um mail meu para outro para me certificar que sebrevivem a um eventual cataclismo tecnológico local. Há aqui uma ironia cujos contornos me escapam, sei que é estranho receber mails meus, sei que nunca resisto a mandar uma mnsagem a acompanhar o anexo.

outras tribos, outros escribas

Amanhã viajo para longe. Estarei ligado, por isso não faz muito sentido ensaiar algo que simule uma despedida.

Quando penso que amanhã poderei escrever de um qualquer sítio, percebo o quanto o avatares tem estado intimamente vinculado ao meu quarto. Tentarei provar que se trata de um vínculo contingente. Senão simularei um quarto.

Amor: uma presença silenciosa

Abrupto dá o tom das ausências, Guerra e Pas denuncia-o, Aviz fala-o. Acho que esta era uma inevitabilidade, um prenúncio há muito augurado entre murmúrios e silêncios de ordem vária.

Diz Guerra e Pas: "Não tenho a certeza, mas julgo que nunca vi amor na blogolândia."
Em boa verdade eu nunca vi outra coisa! ´
Deambulei por milhares de linhas e bytes que se têm escrito, e tenho testificado nos conluios de palavras que a nenhum tipo de debate, confissão ou relato tem havido escusa. A blogolândia abraçou o meu pipi, desacralizando-o como limite, discutiu a política, o sexo, o celibato, os livros, Deus, os mails ansiados, as viagens, as coisas que não voltam, as pinturas, a sedução, as músicas, a guerra, a paz, a solidão, a fnac, a lux, as conversas de café, as estranhas épocas do ano…, ...
Sejamos sinceros, o amor não foi apenas um eco murmurado na lasciva promiscuidade de posts. O amor foi um contorno laboriosamente desenhado, um aprimorado desígnio de declarações, o lugar sagrado posto entre sionismo, islamismo e ateísmo, enfim, um artefacto discursivo toldado e cingido pela complexa orgânica de um silêncio.
De facto, a nossa cartografia não alcançou tal rigor para que o mapa do império tenha o tamanho do império (Borges), mas a poética da sede imaginária está já firmada numa espécie de linguagem do exterior. O amor é, por isso, a única coisa de que sempre falámos. Abrace-mo-lo.

Os olhos dominantes

Luísa chama-me à atenção para a beleza de Catarina Portas! Sardas em olhos verdes! Bem fazia Camões em disputar os modelos dominantes:

Ouro e azul é a melhor
Cor por que a gente se perde
Mas a graça deste verde
Tira a graça a toda a cor
Fica agora sendo a flor
A cor que nos teus olhos tendes
Porque são vossos— e verdes


Concordo com Mexia quando fala do pudor omisso com que a central questão da beleza é tratada. Falar da beleza não é conferir-lhe maior importância do que deveria ter (atenção esse perigo existe!), é pulsar a sua pertinência, resgatar as suas consequências, perceber que nem sempre as mulheres se depilaram.
Penso que aqui é útil afastarmo-nos de uma noção freudiana de desejo em que o social opera pela negação, para entendermos como a nossa "máquina do desejo" (Deleuze e Guatari) é produzida. engendrada, montada, calibrada e sustentada nas representações culturais e nas relações de poder. Para Frantz Fanon o negro era cor feia que simbolizava o pecado, depois ele percebeu que era negro. O Colonialismo sempre precisou de estetas.
O poder de uma figura bela está sempre para além dela. O poder do desejo reinscreve relações que o precedem.


Ainda os Site Meters

Pedro (os limites de um nome emulam as nossas incompletudes, o que me agrada), do Icosaedro, debate as minhas reflexões em torno dos Site Meters:

..., também existe quem consiga passar bem sem eles [sitemeters]… Pergunto-me se é por coincidência que normalmente esses blogs estão entre os mais bem escritos e interessantes (ex. Aviz).

E acrescenta:

O verdadeiro potencial dos blogs está aqui:

Intervalo Doloroso: Ressalvo a minha condição de simples aprendiz, de garoto encantado com aquilo que os outros conseguem criar com as palavras, e que seguindo os seu movimentos com toda a atenção espera um dia vir a ser artesão também.
Por enquanto vou experimentando toscamente, por isso blogo


Certamente concordo com o exposto. Mas, no modo como sustenta a desnecessidade (Mia Couto na área) de um Site Meter, Pedro funda-se em dois postulados que importa pensar.

Primeiro – Caso Aviz- : O estatuto (acrescento a qualidade do FJV) do Blogger é garante da sua visibilidade, que assegura largamente o aporte de leitores.
Segundo - caso I. Doloroso-: O blog funciona como uma catarse pessoal ou espaço experimental, em que o facto de ser lido emerge como um acréscimo.
Como a maioria dos blogs funciona como forma de comunicação e quem os escreve não detém qualquer tipo de notoriedade pública, penso ser compreensível que o “ser ou não ser” lido, se torne uma questão, nem que seja para garantir a existência de um(a) leitor(a).

Em todo o caso, acho que me sentiria mais à vontade justificando o facto de não ter Site Meter.

Um avatar chamado Jesus

A minha fé em Deus é um fenómeno que se desenha como: cristão, evangélico, narrativo, pessoal, idiossincrático, epistemológico, literário, não literalista, histórico, iconoclasta, contra-hegemónico, dialógico, ecuménico, contraditório, ubíquo, pouco eclesiástico, algo comunitário, pós-nacionalista, laicizante e robusto.
asseguro-vos. É menos complicado do que parece.

Talvez voltemos a isto

Voyeur ou o apelo da orgia?

Seja bem-vindo aDeus com coisas como estas: Se num café pudéssemos errar pelas mesas, sem haver necessidade de fazer apresentações e escolher as conversas que mais nos interessam, sem sentir que assim estávamos a "trair" as pessoas com quem viemos...

Isto Não É Um Blog

Acordei pós-moderno.

Sandra Celas na NTV

Como o timing desta mensagem o comprova, a indiferença e o desmaker decididamente não constam de um mesmo dicioná¡rio (não) ilustrado. Mas isso é fácil de perceber...

O que eu não percebo é, porque é que agora dou por mim a espreitar o "Coração Malandro"?! ... (Para os menos eruditos: a novela do fim da tarde da TVI)
Se ao menos a Sandra Celas apresentasse um programa cultural como o do Francisco José Viegas... Aliás, nem peço tanto, a RTP regiões já me bastava!

Simulacros

O meu template parece-se com aqueles códigos do Matrix. Quer isto dizer que eu me ando a dedicar a um simulacro do real?!

Se Baudrillard viesse a este blog começaria por dizer que os simulacros são, afinal, tudo o que existe. Acabaria por dizer ao seu melhor estilo niilista: "Já não há esperança para o sentido."

sms's que nos perpetuam

Será que alguma mensagem minha permanece na caixa de entradas de algum telemóvel? Isto é importante, tanto mais que sabemos que a maioria dos telemóveis só permite guardar 10-15 mensagens, tornando a selecção bastante apertada. É daquelas coisas... fazia mesmo questão!


Labirintos

JPP inclui o avatares de desejo entre os blogs que vêm contribuindo para o "assentar" da blogosfera, posto que foi um perí­odo de alguma turbulência. Naturalmente, senti-me deveras agradado pela referência, mas mais agradado fiquei ao ver serem citados, como relevantes, blogs que eu não conhecia e outros de que nunca sequer tinha ouvido falar.
Isto faz-me pensar que para o itinerário de cada blogonauta se prefigura em cada blog uma tensão entre o recôndito e o canónico, o visí­vel e o insuspeito.
Assim, na intertextualidade que dispomos, e em cada incursão, um blog, ora se cumpre como canónico, ora se acha no ramal de uma ruela sem saída, isto, sem nunca ser uma coisa ou outra.

Pascal di-lo melhor: "A infinita imensidade dos espaços que ignoro e que me ignoram"

Em bom rigor, os labirintos somos nós.

Em busca de Mamas Redondas

Leio algumas das coisas que escrevi citadas no metablogue. O teor das coisas ali constantes convence-me que seria impossível alguém aqui aceder em busca de mamas+redondas. De facto, quando os insondáveis desígnios do google e a falta de identidade de um blog se juntam, algo de surpreendente acontece.

Resta-me responder ao incauto internauta: perdoa estas mamas que outras não tenho, fá-las tuas em cada page view, arredonda-as se te sobrar intento.

Ménage

Adormeci (já dia) com uma lullaby de Beth Gibbons, acordei com uma melodia de Ben Harper. Será isto uma ménage à  trois?

A Agonia do Blogger Perante o Site Meter

Os Site Meters estão na ordem do dia. Através deles o blogger pode perceber que tem andado a escrever numa agonizante solidão, pode descobrir-se rodeado de olhares compensatórios, pode sentir-se, talvez, demasiado exposto. Todas estas possibilidades se entrecruzam nas nossas vivências mais amplas engendrando frustrações, regozijos e ansiedades. Os sitemeters constituem uma outra versão da busca de citações nossas noutros blogs ou da espera de emails. No fundo (como diria Levi-Strauss), uma outra versão do mesmo mito.

Expressões que reputo de honestas e representativas do que aqui nos traz:

Dicionário: mantenho um blog em grande parte por causa do feedback
Abrupto: porque na concepção deste blogue é gratificante para o seu autor que seja lido

Será que generalização dos Site Meters vai levar a uma "selecção das estatísticas mais aptas" pelo eventual desânimo que possa causar nos bloggers que se virem vocacionados para a clausura da invisibilidade online? (vs. [socioblogue] Por conseguinte, interrogo-me: será que estive até agora encarcerado no meu «self offline»?»).

Espero que não, o espectro da perda de diversidade assusta-me, além do mais todos os dias tenho surpresas em blogs recônditos. A ideia que só os "mais aptos" sobrevivem é demasiado igual ao mundo em que vivemos. Importa que se desenvolvam nichos minoritários feitos de empatias plurais. Sugiro um nicho temático que surja como garante da diversidade que temos hoje, seria algo do género: "o meu Site Meter diz-me para acabar com o blog"


Um pouco mais de azul

O Socioblogue tem um grafismo novo. Não sou dado a estas apreciações estéticas. Mas, na vida como nos blogues, há alguns jogos de cores que me emocionam.

4L por lavar

O Dono da Frutaria aqui do lado já me apresentou algumas propostas para comprar a minha 4L, que é, por assim dizer, o veículo em que me desloco.
Inspira-o a certeza de que sou detentor de uma relíquia.
Preocupa-o o facto de eu não dedicar as atenções que a coisa motoriz mereceria.
No outro dia disse em tom de súplica: "ao menos lave-a!"
Dói-me a dor do senhor da frutaria. Nunca valorizei muito automóveis, há uns tempos aceitei quase que passivamente a oferenda daquela 4L, mas agora sinto-me investido por uma culpa. O senhor da frutaria conseguiu algo que a minha mãe sempre tentou: tornar pesada a indiferença que dedico a tantas coisas a que não me dedico. (Aqui a mãe é uma metonímia)

Uma questão de fé

Microscosmos reflecte com acutilância acerca das propostas aqui apresentadas: Gostei muito desta expressão [encontro sensual furtivo], é muito melodiosa, esguia, quase lubrificada à saída dos lábios, erótica, no entanto não gostei da nova palavra proposta para substituir uma expressão tão elegante [enleio- vide abaixo], e depois de Orwell novilingua não está desprovida de repressão e falta de significados.
Apesar de tudo, o que esta expressão significa está completamente desenquadrado da realidade que quer representar, realidade essa que tende a ser mais nua e crua. Para designar essas situações, prefiro o vocabulário mais gastronómico e predatório, gosto da sua crueza, muitas vezes a sensualidade não faz sentido. Outras há em que é deliciosa, isto, quando existem afectos.


Eu reforçaria apenas a minha fé na possiblidade das palavras criarem realidades, um pouco ao jeito do jargão pós-moderno construtivista (Minto: eles não usam)

Os olhos de sandra

Quando agraciei a Maria João Bastos como a vip portuguesa mais saliente em termos estéticos, recebi várias notas de concordância. Dado ter conseguido consensos a partir do meu desconhecimento do universo das vips, não deixei de reflectir na possibilidade de Portugal estar a atravessar uma crise de vips. Foi quando eu me deparei com o rosto de uma senhora que - agora sei - se chama Sandra Celas. Pesquisei no google, e pelos resultados é discutível que possa ser considerada uma vip, em todo o caso, a tese da crise está comprometida pelos seus olhos.

P.s. Em relação a Diogo Infante… silêncio. O que quer isto dizer dos limites da homofobia? … não sei.
P.s. o google levou-me até um post da coluna infame, onde Pedro Mexia falava dela como a Jennifer Connelly portuguesa. Atento poeta. Acerca da segunda, eu próprio já teci apreciações de sobra.

porque vos leio

São imperiosos os afazeres que me prendem à frente de um computador muitas horas por dia, digitando dizeres e meta-dizeres no Word. Por isso, além do tempo para ler coisas em papel ser menor do que desejaria, tenho a agravante de cansar os meus olhos. Neste contexto, o meu prazer por passear os olhos pelos (vossos) blogs é duplamente prejudicial: reduz-me o tempo para ler papel e cansa-me as vistas. Mas não é só!, como nos blogs se fala muito de livros e de outras expressões culturais, não é raro eu sentir-me acometido por uma ansiedade (saudável) em relação a tudo o que ainda não li ou vi (o ainda aqui tem um papel reconfortante), ou seja, ao ler blogs sou frequentemente enviado para outras vontades de fazer aí propaladas.
Perante a oferenda dos meus olhos lacrimejantes de esforço, o tempo tirado a algumas leituras de papel, e as ansiedades cumuladas, o facto de eu ler e meditar sobre blogs, deixar comentários, contribuir para os sitemeters, é um fenómeno que me instiga.
Desconfio que gosto.

perguntas escusadas

"Troca de casais lá em casa, apareces?"
"Apareço!, é preciso levar alguém?"

Não são as Musas... é a falta delas

A propósito dos meus comentários sobre os bloggers celibatários, Pedro Mexia (ou pelo menos o “Pedro Mexia”), embora expresse que o celibato não é o conceito que melhor descreve a sua “condição” (acho que percebo), afirma: Mas agrada-me a ideia de o Dicionário perorar sobre a «condição de celibatário». E num registo que algumas dirão análogo ao de São Paulo, Mexia faz notar os dons onde eu apenas tinha visto privações: o «celibato» traz consigo um egotismo liberto de peias, de pudores, de compromissos. É talvez por ser «celibatário» que eu sou às vezes um pouco desbocado e/ou provocatório.

Diria que a associação de uma estética celibatária ao Dicionário do Diabo, resulta de afirmações mais ou menos explícitas nesse sentido (como no post “no computer, no sex”). Neste sentido, estaríamos a falar mais de uma registo formativo de “Pedro Mexia”, do que de um reflexo vivencial de Pedro Mexia. Já quando os dons do celibato são consagrados enquanto constituintes de algumas liberdades egocentradas e de uma vocação pela polémica (sempre apelativa), será convocado o Pedro Mexia.

Enquanto estética agrada-me a expressão de incompletudes pessoais e sociais, até porque estas são formativas de uma vocação de procura e dão conta de uma disponibilidade. Mas, acima de tudo, porque nos dizem algo sobre o que todos somos, permitindo elaborar uma identificação, ainda que descontextualizada. Portanto, mesmo não correspondendo exactamente à verdade biográfica, há aí uma honestidade que não encontramos no registo demasiado seguro e “senhor de si” dos colunistas dos jornais. Essas pessoas certas do que dizem, senhoras do que são, em bom rigor, não existem. São “pessoas”.

Esperemos que, a haver matrimónios na blogosfera, eles sejam mantidos em segredo. Uma questão de estética...
Para os fins das relações estou a pensar criar um blog.

hífens da discórdia

Avisam-me que no último post deixei um endereço de email diferente do que é exposto como contacto da página. Uma pequena gralha de hífens e underscores. Já corrigi o post e assim fica mais uma vez claro: avatares_do_desejo@hotmail.com
Haja coerência nalguma coisa!

Rituais sociais que me irritam

Irritam-me: os dois beijinhos em que se simula um "chuac" quando só as caras é que se tocam. Ou não se faz o barulho ou dá-se o beijinho- prefiro os beijinhos efectivos, têm é que ser alternados. Caras com muito creme hidratante também não aprecio.

Irrita-me: Subir e descer o elevador com pessoas que não conheço. Constrange-me a prescrição social que faz com que finjamos ansiedade para evitar o desconforto. Assim, olhamos para a porta como quem diz "o meu andar está quase a chegar!, olhamos para o relógio como se fôssemos sempre atrasados, espreitamos o telomóvel a ver se alguém nos liga, pomos as mãos aos bolsos à procura sabe-se lá do quê...chissa! Eu como não sou ansioso nem gosto de fingir ansiedade, tenho que elaborar uma forma de imobilidade, isto sem romper com aquela regra, nada de olhar nos olhos!, quando muito podemos observar os pés das outras pessoas, mas dois seres sexuados olharem-se nos olhos num espaço tão exíguo coloca-nos perante um tabu social de consequências insondáveis. Gosto de provocar convenções, mas nunca cheguei a tanto! experimentem

Também não gosto quando tenho cumprimentar pessoas que conheço apenas mais ou menos. O pior é quando nós já nos vimos a 50 metros, vamos cruzar-nos, mas não podemos olhar ainda. O truque aí é ir com os olhos no chão e a cerca de 3 metros levantarmos a cabeça, esboçarmos um daqueles dizeres deveras estúpidos: "Oi" "tudo bom?" "então?" "estás bom", e seguir enquanto o sorriso se fecha para não ficarmos com cara de parv@s muito tempo.


pós-moderno eu?

Fiquei a saber que os marretas (NARRATIVAS CONCEPTUAIS E LIBERTARISMO PÓS-CULTURAL) me associaram ao postmodernism generator, a propósito da oficina no fórum social português. Tendo em conta as ansiedades que o evento suscitou nos "espectadores do mundo": menos mal.

Para além do "emplastro"

Na própria noite do Herman Sic, vi o post de Pacheco Pereira a condenar a utilização de Fernando, uma pessoa com deficiência mental, lembrando-nos que na cultura do simulacro mediático “infelizmente o real existe” (Borges). Surgiu a partir daí um desses «sobressaltos inesperados de indignação» de que fala o Socioblogue. A formação desta condenação na blogosfera deve tanto ao mediatismo e pertinência da intervenção de Pacheco Pereira, como a um certo exorcismo de consciência: para muitos de nós não seriaclaro que o que estava em causa naquele “cromo” era uma deficiência mental (como auto-analisa o icosaedro). Acho que seria importante que aproveitássemos este momento para reflectir no nosso silêncio de todos os dias em relação às condições de opressão em que as pessoas com deficiência vivem no nosso país e no mundo, e pra catalisar momentos de indignação em questionamentos a propósito.
Koffi Annan fala das pessoas como deficiência como a maior minoria no mundo, uma minoria que se calcula em 600 milhões (82% nos países em vias de desenvolvimento, números que muito devem à pobreza e às guerras). Os últimos censos falam da existência de 634 408 pessoas com deficiência em Portugal, as situações de precariedade económica, desemprego, marginalização social, clausura em preconceitos, convivem com uma gritante invisibilidade da sua existência - à pergunta “onde é que elas estão”, ache-se uma resposta, o que é certo é que existem!
A alusão à invisibilidade não equivale a dizer que as pessoas com deficiência não são evocadas na cultura mediática, mas sim que, quando são, ocupam o lugar de signos, de mensagens que tomam a forma de estereótipos culturalmente sedimentados.
Além dos freak shows que floresceram nos princípio do século XX - onde se inclui a aparição por demais anacrónica do “emplastro”-, e que nos enviam para um espectáculo algures entre o cómico e o trágico, Tom Shakespeare (1999) fala de 3 estereótipos com que as pessoas com deficiência são objectificadas nas culturas mediáticas contemporâneas:
1-A vítima da tragédia;
2-O deficiente sinistro que guarda uma secreta vingança para com o mundo
3- O “super-herói” que ultrapassa todos os obstáculos.
Os estereótipos e o desconhecimento criam uma mistura explosiva e um ciclo vicioso na insidiosa marginalização das pessoas com deficiência, estabelecendo um “regime de verdade” em relação às suas (im)possibilidades de realização. Os valores e a organização social tornam-se muitas vezes a verdadeira “tragédia”, os obstáculos presentes em tudo que é nova construção (o decreto lei 193/97 na prática não existe), pessoas cegas que são excluídas de uma entrevista de emprego porque o empregador não entende como é que ela poderia mexer num computador (o meu “consultor” informático é cego), pouco mais são do que um cheirinho de uma tragédia revisitada.
A projecção de tragédia e a sistemática asserção de incapacidade, de mãos dadas com a letra morta da igualdade de oportunidades, produzem uma meta-narrativa na vida da pessoa com deficiência, sujeitando-as ao fechamento da “narrativa da tragédia pessoal” (Oliver, 1990).
As pessoas também são livres na medida em que possam realizar as suas potencialidades enquanto seres humanos (Lukes, 1973: 130).
Sei que falei para além do emplastro, era essa a ideia.

Lukes, Steven, 1973, Individualism, Basil Blackwell, Oxford.
Oliver, Michael, 1990, The Politics of Disablement, The Macmillan Press Ltd, Houndmills.
Shakespeare, Tom, 1999, “Art and Lies? Representations of Disability in Films” 1999, in Corker, Marian e French, Sally (orgs.), Disability Discourse, Open University Press, Buckingham.

p.s. 2003 é o ano europeu da pessoa com deficiência, coisas destas é que não dão na televisão!

grato

Noto que cada vez uso menos interlocutores fictí­cios neste blog. Tenho recebido mensagens. Sim, daquelas mesmo a sério. Em boa verdade, prefiro assim... Espero que as minhas ficções não me levem a mal!

Fica a promessa: não me esquecerei d@s emissári@s imaginári@s

O celibato e as suas transgressões

Ainda em relação ao celibato discursivo dos Bloggers, Adeodato lembra e questiona: "O Prazer Inculto até já chamou papa ao Abrupto num claro síndroma de avignon. Seremos os novos padres?"

O Opiniondesmaker brinda-nos com uma referência deliciosa do século XVI (e assim se fala da blogosfera):
«Todos convem no fingimento do celibato, porque lhes não é lícito matrimonio» Sec. XVI, João de Lucena in Vida do Padre Francisco Xavier.

O desmaker surpreende quando acrescenta que no blog já fez uma referência de passagem à sua mulher. (Confessso que é única alusão que conheço).
Canhoto fala do "erotismo dos blogues", desconfio que a expressão se tornará canónica.

Acho que o Dicionário do Diabo vai para além da costumeira construção do celibato pelo silêncio. Pedro Mexia faz da condição de celibatário uma estética onde se consagram as privações que daí decorrem.

cervejas sexistas

Quando as garrafas vazias de cervejas se acotovelam numa mesa é normal que surja uma pergunta do género:
"Qual é para ti a vip portuguesa mais gira?"
Não conhecendo eu muitas vips é normal que eu diga: Maria joão Bastos. (a surpresa é a omissão da Catarina Furtado e das modelos de mamas redondas)
Perguntam-me:
" então e o vip?"
não conhecendo muitos vips é normal que diga: Diogo Infante. ( aqui a surpresa é a ausência de um prêambulo onde se expresse o costumeiro constrangimento heterossexista)
Aparentemente ainda há respostas que apanham as cervejas desprevenidas.
É tão fácil desconcertar o patriarcado homofóbico...

p.s. As respostas revelam muito des-conhecimento das discotecas da capital!
p.s. Elas preferem os que não bebem sagres!

A ironista

A voz do deserto faz referência ao ironista liberal, na linguagem actualizada, a ironistal liberal. Uma personagem criada por Richard Rorty. Eis o que me aproxima da ironista desenhada pelo filósofo: "A ironista passa o seu tempo a preocupar-se com a possibilidade de ter sido ensinada na tribo errada, de ter sido ensinada a jogar o jogo de linguagem errado". Eis a concepção liberal que dela me afasta: "Na verdade a minha sugestão é a de que o pensamento social e político ocidental poderá ter tido a última revolução intelectual que necessitava."

Lara: o meu primeiro blog

A praia fala do momento em se deu conta de que a vida deixou de ser vida e se tornou matéria prima para os blogs.
Falando-me, diria que, porventura, o blog já lá estaria, numa outra qualquer forma de masturbação memorativa docemente acolhedora dos despojos dos dias.

Em bom rigor, o meu primeiro blog temático foi a Lara. Estava na pré-escola e lembro de passar os fins de semana a inventar-me; vinda a segunda feira contava-lhe tudo, estava vinculado a uma honestidade dura, por isso, às vezes, apenas fazia a etnografia de um vazio. Lara, nunca me dedicou um post, mas os fins de semana ganharam aí contornos de missão.

O celibato discursivo

O Mário do retorta alerta-me para outras possibilidades que justifiquem o celibato discursivo d@s bloggers. Parece-me particularmente acutilante juntar às demais 4, a hipótese do blog sedutor, em que estaríamos perante mais uma forma de "cantada" virtual, destinada a impressionar pessoas com determinada disposição sentimental..

bloggers celibatários

Ocorreu-me questionar: será que todos os bloggers cumprem o celibato?
Não é que fosse de esperar que a toda a hora se fizessem referências aos respectivos e às respectivas (namorados, namoradas, maridos, esposas...), mas é que o silêncio acerca desses outros relevantes parece demasiado. Quase que tacitamente institucionalizado. Isto é tanto mais gritante quando se sabe que muitos blogues assumem um tom confessional.

Vislumbro 3 hipóteses:

1- o celibato será uma pré-disposição para se ter um blog (mais tempo, mais ímpeto de interagir relacionalmente, etc.)
2- O silêncio aceca de "compromissos sentimentais" (passe o oxímoro) expressa uma disponibilidade à coisa bloguista, ou seja, fará parte de uma estratégia discursiva em que se negam eventuais primordialidades.
3- O silêncio que supõe o celibato pretende ser congruente com o imaginário do solitário intelectual romântico (aqui o modelo é patriarcal).
4- A posse de um blogue implica o fim das relações sentimentais, pelo que o silêncio é uma consequência ou um prenúncio desse fim.

? que me direis?

Abrupto

Queria agradecer a referência elogiosa que Pacheco Pereira fez no abrupto aos conteúdos produzidos entre o avatares e o socioblogue. Acho que pela a primeiríssima vez a expressão "leitura obrigatória" me soa bem. Valerá a pena reflectir sobre estes jogos de perspectiva.

cartas de amor

Já várias pessoas me aconselharam a ter por perto este dito: “veja se melhora a sua vida sexual que eu não estou para aturar pessoas azedas”. Dizem-me que é particularmente eficaz para os inúmeros funcionários que, atrás de um balcão, têm por vocação tornar a nossa existência excessiva, a nossa solicitação desnecessária, o nosso humor pouco doce.
Houve uns tempos em que ainda equacionei a hipótese, é que havia uma funcionária dos correios que me vendia selos e outras pequenisses como se eu fora o cobrador de impostos do império Romano. Houve um dia em que eu não me segurei: “veja se melhora…”, e fiquei por ali, não tive coragem. Não deve ter feito muito sentido… Depois pensei que este conselho estava carregado de uma visão freudiana, o mau humor ao balcão explicado pelas carências sexuais. E como eu sempre tive por suspeita os discursos que vêm com a verdade escondida da sexualidade, recusei aquela preciosa deixa. Optei pelo amor. Preferi imaginar que a senhora dos correios havia tido em tempos um amor arrebatador, magnificado pela experiência de uma perda, tentei encontrar aí uma cumplicidade passível de me fazer suportar o seu “ser” azedo de todos os dias. Imaginei o destino trágico feito balcão dos correios, dei flores ao seu amor e pensei-a entre cartas evocando uma carta última. Agora quando compro selos esboço um silencioso “let go, let fly, forget".
As vezes uso a máquina.

acabou tudo no intercidades

Ontem fui a Lisboa fazer uma entrevista. Em pleno Intercidades fui sendo "compungido" pela conversa telefónica no banco de trás. Pude perceber que a rapariga acabou o namoro com o seu ex-respectivo ali mesmo!
Eu sempre entendi que o combóio permite aproveitar melhor o tempo, mas nunca pensei que com este nível de eficácia!

linguagem dos afectos: visões femininas

A "shyz nogud" informou-se junto das suas colaboradoras para, em conjunto, resgatarem a palavra para "encontro sensual furtivo"; descreveu-me junto delas do seguinte modo: "A origem é a mesma criatura q noutro dia andou a dar umas voltinhas dispensáveis para evitar dizer, preto-no-branco, q as mamas da Casta lhe davam pica." (Alma, tudo uma questão de alma, sou um incompreendido...- como podemos ver aqui)
ficam as conclusões tecidas a várias mãos:

"comeram-se" gosto, sei lá... acho muito "afectuoso"
"acho o comeram-se fixe. Mordiscar tb aprecio."
"e o lamberam-se todos?! parece-me refrescante" "lambi-o(a) todinho(a) até ao(à) pau(medula)" ou "Derreti-me toda(o) quando ele(a) me lambeu".
"petiscar - há pessoas petiscáveis"

Recebi também um outro mail, em jeito de uma bela catarse, definindo o que seria desejável numa tal palavra:

tem de abarcar varios significados: tem de ser deliciosa, reestruturante, revificante e muito revitalizadora. Tem de ser pronunciada em momentos que se pretende dizer: incorporamos um novo sentido à nossa vida. Nascemos ou renascemos. Carregamos as baterias!!!
Na realidade, tudo se ira alterar. Nada será como antes! nada... interpreta isto como a perspectiva feminina do fenómeno...


Muito obrigado, os contributos continuaram a ser postados sem censuras de qualquer ordem!"



A vontade de dizer

Queria agradecer à Isabel do Monólogo e ao João do Socioblogue as preciosas inicações que me deram para eu conseguir por links. Agora eu chego lá!

Já agora, e tentando antropologizar-me, reparo que a afirmação de azelhice informática ( a mesma que eu fiz) é comum neste meio. E desenvolvendo essa análise crítica para os outros obrigo-me a incorporá-la. Não está em causa essa azelhice, que vos garanto ser autêntica, identifico sim um desejo de dizer. Perecebo, assim, que essa vontade de falar da inaptidão informática se conforma com uma construção auto-intelectualizante que se dá bem com a expressão de incapacidades em determinadas esferas do mundo da vida. No fundo, um certo... "eu é mais livros...".

Aos Blogers Sonhadores

Não aprecio categorias, não sei se é por entrever nelas o perigo do fechamento, se devido à minha fraca memória para as decorar. Em todo caso, retenho uma categorização de Milan Kundera, que aqui tento articular com uma hipótese sobre a escrita bloguista. Não sei se por achar pertinente, se para celebrar o facto de ter conseguido lembrar-me por alto das filiações propostas. A evocação é o menos fiel possível.
Milan kundera (ou a minha memória dele) diz que há 4 tipos de pessoas no modo como se relacionam com os olhares dos outros, e no modo como definem a sua ansiedade em relação à necessidade desses olhares:

1- As pessoas que precisam dos olhares dos públicos anónimos, de se saberem lidas, vistas, pensadas efaladas pelas multidões de gente. Uma necessidade cuja carência é ilustrada pelo “síndrome da estrela de cinema em decadência” (as aspas não devem nada ao kundera)
2- As pessoas que precisam de um círculo de conhecidos e amigos sempre presentes. Aquelas que estão sempre a organizar festas e eventos como pretexto para reunir "outros significativos", cujos olhares e presenças conferem significado à existência
3- As que precisam do olhar da pessoas amadas e se apresentam nos seus actos quotidianos evocando o que há de constitutivo nesse olhar. (o síndrome desta carência tende a ser um senso comum e merece um post à parte)
4- Por último, as pessoas que vivem sob os olhares imaginários de pessoas imaginárias. Os sujeitos que nos menos recônditos momentos do ser projectam sobre si o olhar de uma figura criada, esperada e, eventualmente, desejada. Estes são os sonhadores.

Penso que a ansiedade do feedback sentida pelos blogers, que muito aqui se tem debatido (particularmente com o socioblogue), nos remete para as necessidades descritas em 1- a busca dos olhares (e a confirmação deles pelo feedback) de públicos anónimos feitos de pessoas contadas por um sitemeter e que justifiquem cada post. Penso que é esta a necessidade e a ansiedade dominante.
No entanto, no entanto… suspeito de uma ansiedade residual (4). Uma ansiedade constituída com base no olhar de uma pessoa que não se conhece, que não se sabe se existe e cujo feedback é no mínimo improvável. Esta é ansiedade dos blogers sonhadores ou esta é a ansiedade que, às vezes, faz dos blogers sonhadores.
P.s. se eu soubesse pôr links no meu blog criava a categoria dos blogers sonhadores e depois esperava pelo feedback

linguagem dos afectos III

Vou coligir neste post as últimas contribuições recebidas para descrever um "encontro sensual furitivo"

*O Marco disse: na boa, ou seja, eles estiveram na boa
*A Maria Miguel reconheceu a falta de uma palvra condigna*
*O Ventura começou por sugerir esquema, ou seja, ontem tive um esquema, acabando por afirmar que a língua portuguesa evolui lentamente e como tal temos eventos "novos" e vocabulários velhos para os descrever
*O tozé denunciou a ausência de uma palavra

em meu entender, na boa, transmite aquele peace and love, sem necessariamente encrostar a coisa de solero
Esquema, é muito ardiloso, e parece-me um termo de referência patriarcal, cuja apropriação entronizará sempre uma presa. Isto está bonito!

Vamos continuar a trabalhar, em caso de de desespero temos sempre os novos vocábulos a la Mia Couto

As lâminas da concórdia

Pela primeira vez, o "meu" barbeiro trocou a lâmina com que me apara os pêlos do pescoço, sem que eu tivesse que pedir. Será isto afinal a pedagogia do oprimido? Em todo o caso, senti-me como um envangelista.

seitas na blogosfera

Estive a fazer um périplo pela blogofera em busca de algum blogger com vocação para líder de seita.
A minha conclusão é desconcertante: a haver algum movimento social de massas em nome de um líder carismático, ele terá por base a escola de pensamento do pipi.
As vezes estes aportes analíticos preocupam-me.

Linguagem dos afectos II

Recebi uma elaborada proposta à questão da existência no português de termos para descrever o encontro sensual furtivo. O melhor é mesmo trancrevê-la na íntegra:

Na sequência do seu pedido de sugestões para "a linguagem dos afectos", creio que é necessário estabelecer uma distinção entre os encontros furtivos e assim encaixar as expressões que melhor se adaptam:

1. encontro sensual furtivo
Julgo que aqui podemos encaixar o Curtir (divertir-se e de caminho dá uns melos no(a) chavalo(a) e o "Tiveram um Lance (mais ou menos similar ao curtir. Não posso precisar se a diferença tem a ver ou não com o número de melos aplicados no(a) chavalo (a)).
Será assim tão adolescente, meu caro senhor? Eu chamar-lhe-ia uma alternativa.

2. encontro sexual furtivo
Aqui, se concordar, encaixaremos as expressões comeu, comeram-se. Admito, tenho dúvidas sobre a localização correcta de embrulharam-se e enrolaram-se e concordo, demasiado confuso e à partida sem a garantia de qualquer resultado satisfatório.
Acrescentaria neste ponto as expressões abaixo descriminadas, dentro da lógica A e B (creio que troquei o sexo das letras)

Fazer um bico - A aceita genuflectir-se perante B

Dar uma queca - À partida, A e B participam activamente e com simultâniedade.

Trancadinha- B enclausura a tranca em A. Aparentemente A parece beneficiada, mas convém não esquecer que que tem a tranca é B.

Pinocada - B, com ar janota - nú - impressiona e satisfaz rapidamente A.

Pranchada - Assentamento total de B em A.

Quilhar - B deixa A de rastos.

Taveirada - A e B em posições muito criativas.

Biscoito - A e B fazem-no, no mínimo, duas vezes. Intevenção alternada.

Pegar de arranque Impulso ou investiva na rectaguarda de B sobre A ou de B1 sobre B2.

É claro que o encontro sensual furtivo pode muito facilmente passar a encontro sexual furtivo. E honestamente, encontro sexual furtivo que não tenha o seu lado de sensual furtivo, perderá metade do seu sabor.

Mediante tudo isto, continuo a utilizar a expressão sedução para referir o encontro sensual furtivo. A seduz B e B seduz A.
Simplesmente.... Seduziram-se.


Claramente, numa primeira instância, dou conta dos limites de meu vocabulário.
Gostei do seduzir. A expressão "seduzir" consegue aquele laivo magia que outras expressões fracassam em sugerir. Penso, no entanto, que a sedução, embora possa fazer parte do encontro sensual furtivo, poderá apenas estar antes dele, ou acontecer na ausência dele. Ou seja, penso que o encontro sensual furtivo implica algo mais que a sedução sugere, mas não garante. Continuaremos a analisar contribuições.

Um adeus

Recebi esta notícia com um pesar insuspeito. Na verdade o simulacro do espectáculo às vezes lembra que "infelizmente o real existe" (Borges). As duas gémeas iranianas morreram separadas. Uma ironia trágica que dá liberdades ao pensamento. A minha versão remete-me para um qualquer mito onde as veias pouco importam e as hemorragias nada acrescentam. A tragédia está na morte. A Ironia na música:

"na bagunça do teu coração
Meu sangue errou de veia e se perdeu"

Chico Buarque

a linguagem dos afectos

Haverá no português de portugal alguma expressão interessante para referir o encontro sensual furtivo.
As que conheço são:
Curtir: muito adolescente
A comeu B: muito BBC vida selvagem, nega a subjectividade de B
Comeram-se: melhora, mas ainda com os problemas da linguagem predatória
tiveram um lance: introduz uma celeridade pouco compatível com as eventuais "demoras nos prazeres" da coisa
embrulharam-se: muita confusão!
enrolaram-se: melhora, mas a confusão continua
A fez B: nega a subjectividade de B, além do mais não estamos em terra de fazedor@s


Ajudem-me, temo que na leitura dos linguístas de vocação cultural/psicanalítica isto possa ser sintomático de um confuso sistema predatório!
sugestões
avatares-do-desejo@hotmail.com



azia

Um desconforto de estômago levou-me ao centro de saúde. A médica receitou-me ulcerin e desaconselhou-me fritos e coisas ácidas. Após alguma insistência da minha parte disse-me para não beber café de estâmago vazio.
Nem uma palavra advertindo aos malefícios do consumo de álcool! Fui levantar a receita, estou melhor do estômago. No entanto, a minha pretérita convicção nos propósitos normativoa do discurso biomédico ficou de rastos. Começo a perder referências.

p.s. Estaria a cerveja consagrada no departamento dos ácidos?

Socioblogue diz: Algures entre os seus trabalhos em torno da emergência histórica do cuidado de si (“le souci de soi”), Foucault debruçou-se, num pequeno texto sombrio e pouco conhecido, sobre a «l´écriture de soi», a escrita de si mesmo, na cultura greco-romana dos séculos I e II D.C.. A escrita de si mesmo caracteriza-se pela meditação, a reflexão, o pensar sobre si mesmo. Enfim, pela elaboração de um discurso sobre o eu. É por isso que Foucault lhe chama uma “écriture éthopoiétique” (2001: 1237): escrita etho-poiética significa que essa escrita é, também, uma forma de constituição do «eu». O «eu» nasce da escrita e do que se diz.
Julgo ser pertinente evocar o exercício hetero-etho-poiético que Marguerite Yourcenar realiza em as Memórias de Adriano, Imperador Romano cuja vida se inscreve no período histórico referido. A Autora recapitula a vida do imperador sob a forma de uma carta escrita na primeira pessoa pelo próprio ao seu sucessor, Marco Aurélio, nos momentos derradeiros da sua vida. Ao tentar estabelecer este contraponto com a escrita etho-poiética dos blogues, uma comparação marcada pelo espectro da sua desmedida, viso questionar e localizar narrativamente a abertura à contingência da escrita do eu. Partindo das Memórias de Adriano Penso que a carta que se sabe derradeira exige a produção de uma formação discursiva acerca do eu, passível de um fechamento do sentido, ainda que este fechamento se possa instaurar pela incapacidade final desse fechamento. O escrito etho-poiético de um blogue convive melhor com a contigência do sentido:
1 porque os temas evocados não serão necessariamente estruturantes da narrativa pessoal;
2 porque a vocação para a discussão/debate/refutação infunde cada declaração de uma temporalidade limitada;
3- porque um post nunca é a última carta escrita.
P.s. Num registo excepcional em que o ponto 3 não se realiza leia-se o último post da coluna infame e o fechamento de significado que ali jaz!

Berlusconi e os seus Judas

Na hora da amargura dizem que nunca te conheceram.

desabafo

Quantos mais livros é que o Francisco José viegas vai precisar de ler para perceber que neste momento no médio oriente há um poderoso opressor e um desesperado oprimido?

Requiem For My Dream

Prefiro o registo adolescente da Jennifer Connelly ao seu registo mais adulto. (Isto é, Requiem for a Dream Vs A Beautiful Mind). Será grave?

p.s. Também há páginas decentes da consagrada atriz, contudo, eu não encontrei!

A voz do deserto lembra que a presença de ideais conservadores, opressores das liberdades e fomentadores de formas de discriminação em relação às minorias é mais premente nos países onde não se deu a reforma protestante, como Portugal. Chama ainda a atenção para o modo como os valores da reforma protestante tiveram um papel progressivo aquando da luta pelos direitos civis, cujo maior símbolo foi um pastor protestante, Marthin Luther King. Na minha perspectiva, e no que ao cristianismo diz respeito, a chave reside na importância de se denunciarem todas as apropriações hegemónicas da palavra (sem que isso implique a recusa do conhecimento dos seus fundamentos). Um facto é certo, nos países onde seu deu a reforma protestante deu-se uma democracia cognitiva do conhecimento da Bíblia, aspecto com que eu me identifico, pois considero aí residir um elemento importante para que se democratize Jesus. A figura de Jesus, a sua vivência, e a igreja primitiva, vão de encontro a formas concretas de envolvimento com a transformação social e recusa de autoridade religiosa (fariseus, saduceus, escribas). A partir de Constantino criam-se as bases para o Cristianismo totalitário do império católico. Considero a apropriação dos ideais de igualdade e irmandade entre os homens nos direitos civis uma luta progressista e contra-hegemónica. Considero que quando Bush diz “God Bless América”, estamos perante uma apropriação imperial pós-reforma protestante que importa denunciar. O problema não está só antes da reforma, estará sempre na necessidade de reformas que neguem o monopólio da palavra. Talvez precisemos de mais Martins Luther Kings, talvez precisemos de mais Teologias da Libertação, talvez precisemos de uma edição revista e actualizada de Calvino. Da minha parte realizo a contra-hegemonia e a democracia cognitiva lendo o Sermão da Montanha cada vez mais certo que o Deus do Bush não é o meu.

Crucifiquem-me

Verifiquei na já ida troca de argumentos entre a voz do deserto e os canhotos sobre os discurso irónicos, a presença de um subtexto, que, embora colocado nas franjas do debate, constituiu-se como um elemento retórico absolutamente central. Refiro-me ao tema da fé e da religião.
A nossa geração está claramente marcada por um distanciamento/recusa em relação ao impacto dos valores religiosos. Primeiro porque esta recusa é uma denúncia afirmativa ou calada do peso de ideais conservadores, opressores das liberdades e fomentadores de formas de discriminação em relação às minorias. Segundo, porque determinados projectos de transformação social souberam reconhecer na ideologia religiosa os perigos do adiamento da busca dos novos lugares da vivência humana, no fundo, o perigo de se perpetuarem as relações de desigualdade por alusão às promessas de outros mundos (esquecendo, talvez, coisas como a "teologia da libertação"). Mas, também aqui, me parece que com demasiada facilidade se deita fora o bebé com água do banho. Diria Jesus acusando os fariseus:"Bem invalidais o mandamento de Deus para guardardes a vossa tradição." Aqui a questão será a contrária, será possível encarar os domínios da fé, recusar os totalitarismos das tradições sedimentadas dos homens, submetendo os fundamentos da fé a uma crítica, que não seja apenas a critica às suas apropriações hegemónicas?

Naquele jogo de compromissos e liberdades, o mais vulnerável é sempre quem assume algum tipo de fé, seja a fé da esquerda num outro mundo feito possível, seja a fé na mensagem de Jesus. Nisto tudo que direi eu? Fui ao fórum social português porque creio. Leio o sermão da montanha num acto de fé.

Crucifiquem-me!

"Eu te amo"

...
Se nós nas travessuras das noites eternas
Já confundimos tanto as nossas pernas
Diz com que pernas eu devo seguir
...


Chico Buarque

será por isso que muit@s seguem arrastando-se?

Versão completa

lealdades

Acerca dos usos da liberdade, o caro Tiago, com a costumeira fineza, faz notar que importa menos fazer alarde de lealdades do que vivê-las. Ou a minha interpretação é generosa, ou estamos de acordo. Mas, ao analisar a retórica dominante no sub-mundo dos blogs (gosto do toque underground desta expressão), creio que importará menos fazer o mapeamento biográfico de cada bloger, do que aquilatar das consequências do uso da palavra. Não estou a defender qualquer cinzentismo do politicamente correcto (não há paciência). Apenas assinalo como discurso hegemónico aqui no sub-mundo, aquele que tira partido das representações dominantes, capitalizando-as (a expressão é feliz) na re-confirmação incessante (e ansiosa) de preconceitos, estereótipos e na desqualificação fácil de acções de transformação social que apresentam um horizonte utópico. irónico submundo. (Já agora acredito em lealdades fundadas numa erecção presente ou desaparecida)

canhotos

Queria agradecer a gentileza do cruzes canhoto pelas referências a uma análise que aqui foi feita sobre a retórica dos blogs. Análise instigada e nutrida por uma troca de ideias com o socioblogue e que recebe sequência no blogue dos canhotos.

os blogs livres

Os blogs com identificações à direita formaram um chapéu de chuva simbólico: a associação dos blogs livres. O nome, apropriado, envia-me para o dilema de Sartre em a "Idade da Razão", de que serve a liberdade se ela não se compromete com nada? como quem dissesse "Sábio é o que se contenta com o espectáculo do mundo". Deleitem-se...

Beckham: uma estrela paradoxal

David Beckham apresentou-se no Real Madrid, mostrou-se simpático e teve ainda tempo para uma cena comovente com um jovem adepto que correu pra o abraçar. Pode ter toda a pinta de estrela, mas gosto do gajo, aliás, bem diferente do Figo, sempre amuado e incapaz de sorrir a menos que a galp energia pague.
É de notar que Beckam enquanto estrela de futebol apresenta aspectos deveras desconcertantes.
Por um lado, é bonito, adora a moda, os fotógrafos, casou com uma estrela pop. Por outro lado, não bebe, raramente sai à noite, é dedicado à família, foi corredor de fundo quando jovem, sempre foi o jogador em melhor forma segundo os médicos do Manchester, ninguém corre tantos kilómetros em campo e (isto é intrigante) nunca ninguém o viu fazer uma finta. Vamos ficar atentos à evolução do inglês sob os exigentes métodos de treino do nelo Vingada

Homi Bhabha

Critical Theories suggest that is from those who have suffered the sentence of history – subjugation, domination, diaspora, displacement – That we learn our most enduring lessons for living and thinking

BHABHA, Homi k., 2000 (1994), The Location of Culture, Routledge, Londres.

o avatar sociológico, João Nogueira, recupera a questão da apresentação do eu na blogosfera para falar de dois tipos de ansiedade: " A «a ansiedade do feedback» refere-se ao facto das pessoas mostrarem alguma ansiedade, por vezes obsessiva, com o feedback que recebem dos outros." e "O receio de «faux pas» reporta-se a um temor face à possibilidade de projectar uma imagem de inconsistência e incongruência (receio de cometer gaffes, de denunciar falta de cultura, etc.)." Construo duas imagens na representação da ansiedade nas provincias dos blogs :
1- o imaginário de um desterrado em busca de abraços. Imagem que nos envia mormente para uma busca afectiva de contacto
2- a imagem de um conferencista que no fim da comunicação vai sozinho beber um galão para o café mais próximo. Imagem que nos remete para a busca de pares, outros relevantes que atestem da relevância do que foi dito.
Dicotomizo, mas suspeito de galões bebidos em terras de ninguém.