Versões do mesmo mito


Hoje a grande desgraça não fui eu
Foi um velho navio que partiu
E me deixou no cais
sem nenhum sonho mais

Miguel Torga, Diário I

[a] obscura e trágica convicção de que o homem é sempre artífice da sua própria desgraça, ... Jorge Luís Borges

anonimato

A cat pediu que desse uma opinião sobre a existência de identidades anónimas na blogosfera. "Há várias pessoas que têm blogs e que não se identificam (usam um nickname), outros que o fazem, há aqueles que vos comentam assinando ou não..." Esta foi a minha resposta à ex-anónima: penso que o anonimato poderá ser um dos atractivos do blogosfera, havendo no entanto o perigo de surgirem polémicas e exposições pessoais despoletadas a coberto de identidades anónima (veremos). Mas, ao contrário dos chats e de outros espaços, eu julgo que o grande desafio e interesse dos blogs se desloca para a capacidade das pessoas, simultaneamente, assumirem a sua identidade, e um registo intimista, confessional, ou que, de algum modo, as exponha. É nesta honestidade tensa (sempre mediada pelos subterfúgios da linguagem) que eu encontro o carácter singular da criatividade na blogosfera.

Kolmi

Peço-vos o seguinte: procurem na caixa de mensagens recebidas do vosso telemóvel a mais antiga que ali jaz. Questionem o facto de ela ainda ali permanecer. Se os estudiosos não estiverem muito enganados o impulso de apagar irá ser detido pelo espectro da perda e poderá criar-se uma tensão biograficamemte relevante, passível de sancionar a perpetuação de uma memória electronicamente substanciada. Se for um recado da vossa mãe esqueçam! avatares_do_desejo@hotmail.com

Blogs: divagações sócio-antropológicas

Entro em Diálogo com o meu caro João Nogueira com base no que ele escreve acerca da consciência do eu no mundo dos blogs
Em relação à introdução em que o João reflecte sobre o corpo, gostaria apenas de acrescentar que essa “heightened self awareness” do corpo que temos/somos, não resulta apenas de processos de escrutínio por “outros relevantes” produtores de olhares passíveis de resgatar o corpo à sua costumeira infra-consciência. Na realidade, e numa perspectiva eminentemente fenomenológica, importa que o corpo possa ser analiticamente acolhido fora dos processos de apresentação do self. É nesse sentido que faço notar que, ao falarmos de eventos fomentadores de uma consciência do corpo (ou sobre-consciência), não estaremos necessariamente (ou apenas) perante uma sobre-consciência de si. Parece-me também instigante que possamos dar conta da centralidade que o corpo adquire em experiências de dor/sofrimento somático, prazer, ou experiências de privação corporal, que colocam questões que vão muito para além das construções identitárias. (Haveria ainda a considerar, como refere Miguel Vale de Almeida (1996), as evidências etnográficas em relação às distinções entre corpo e pessoa). Mas, como a introdução se dirigia para o fenómeno da apresentação do eu nos blogs em face das expectativas que sobre alguns recaem (figuras públicas), vamos a isso! Concordo quando assinalas a tensão entre um olhar do outro que é simultaneamente desejado e receado, e dos mecanismos de defesa que se concretizam em algumas expressões recorrentes. Eu apenas acrescentaria que esses mecanismos de defesa não poderão ser entendidos fora de uma articulação com aquilo que eu chamaria de Écriture blogiste. Refiro-me a um discurso dominante de matriz falocêntrica (como tu já referiste), em que um distanciamento crítico com o mundo da vida, a ironia e a auto-ironia (a que se acrescenta uma pujante e selectiva intertextualidade, que, também ela, fomenta alguma auto-referencialidade na blogoesfera ) emergem como estratégias privilegiadas. Daí, em meu ver, decorre o facto dos discursos de direita, menos comprometidos com a transformação social, se sentirem mais em casa no registo/regime dominante na blogoesfera. Um discurso distanciado e irónico é já um discurso que cria as condições da sua própria defesa.

Leituras a propósito,
Good, Mary-Jo e Brodwin, Paul e Good, Byron e Kleinman, Arthur, 1992, Pain as Human Experience: An Anthropological Perspective, University of California Press, Berkeley.
Lakoff, George e Johnson, Mark, 1999, Philosophy in the Flesh: The Embodied Mind and its Challenge to Western Tthought, Basic Books, Nova Iorque.
ALMEIDA, Miguel Vale de, 1996, “Corpo presente: Antropologia do Corpo e da Incorporação”, in Almeida, Miguel Vale de (org.), Corpo Presente: Treze Reflexões Antropológicas Sobre o Corpo, Celta, Oeiras.

p.s. A écriture deste blog voltará a um registo de baixo nível

Sedução

Pedro Mexia, no seu blog, que menos não é do que um nódulo na rede, evoca a etimologia de seduzir que nos envia para enganar. Ao actualizar esta associação na minha vida, encontrei o inesperado conforto de um corno. (Já que estamos numa de origem: a expressão corno vem da pastorícia mediterrânica e constitui uma associação simbólica aos bodes que deixam as cabras ir com todos, por oposição aos carneiros que salvaguardam a exclusividade sexual das ovelhas.) Senti-me um corno porquê? Eu explico: é que para mim a origem material da palavra sedução é … a Laetitia Casta, e de repente dei por mim a reconfigurar todos os esforços que ela vem envidando para me seduzir como um logro. Na verdade, ela anda a enganar-me! (ok sou um corno!), mas, quem é que se importa de ser enganado pela Laetitia Casta?! Haverá evento mais grandioso que uma experiência de perda em relação à Laetitia?, não serão todas as outras formas de depressão sucedâneos menores desta experiência iniciática de privação que relativiza a magnitude de todas as outras? Já agora, e por não ter nada a ver, deixo-vos com uma provocação com que Baudrillard brinda @s feministas ao invocar as mulheres a usar a sua arma simbólica de destruição maciça, a sedução: They do not understand that seduction represents mastery over the symbolic universe, while power represents only mastery of the real universe. The sovereignty of seduction is incommensurable with the possession of political or sexual power. (..) Meaning is vulnerable only to enchantment. P.S. Já agora em que se baseia o Pedro para dizer que as activistas do bloco não se depilam?

Linguagem da loucura

César, um mui caro amigo de longa data, disse-me que às vezes ficava com a ideia que eu invento interlocutores neste blog para produzir respostas imaginárias a questões imaginárias: Respondi-lhe: ─ O que me diz que tu existes? o que me diz tua pergunta não é um produto da minha imaginação? Ficámos por aí.

os limites da imaginação

"imagination is not unbounded" a frase é do Giddens. Não aprecio muito o sujeito, mas quando tento imaginar este país a ser conduzido para fora do pântano pela turma do Durão, assevero-me que ele tem toda a razão.

a sucessão imperfeita

Diz Foucault na História da sexualidade (volume I): "Quando o Ocidente, há muito tempo, descobriu o amor, atribuiu-lhe preço suficiente para tornar a morte aceitável, é o sexo hoje em dia o pretendente a esta equivalência, a mais alta de todas."

Depilação como te desejo.

Sabemos que o imperativo da depilação feminina é um produto histórico. Porventura uma forma de opressão consagrada por um modelo de beleza e que opera a confortável necessidade de reforçar o dualismo feminino/masculino. Tenho por hábito desafiar estas invenções culturais que se encrostam no nosso desejo. A depilação feminina para mim é um limite. Um sedimento cultural quasi-visceral. Disse-o! O primeiro passo está dado.

Eugenia: edição revista e actualizada

Tenho a televisão ligada nas novelas da tarde (sem som para que conste). Após uma observação pouco atenta, chego à conclusão que o fundo genético brasileiro resulta de uma secular endogamia de uma população de olhos verdes/azuis. Faz sentido.

linhas possíveis para a expansão do humano

- fala-me da tua vida sexual.
- não te interessa.
- interessado eu estou, agora poderá ser que não interesse por não ser interessante, mas essa possiblidade é em si instigante. Se por outro lado, for algo muito interessante, poder-se-à dizer que estamos perante uma monstruosa negação de partilhas susceptíveis de expandir os horizontes do humano. mas a isso eu já estou habituad@.
- ... (a partir daí sejam criativ@s)

hum

At the core of all well-founded belief, lies belief that is unfounded.
Ludwig Wittgenstein

quem sabe noutro karma

Avisam-me para o perigo de a minha preferência pela Laetitia poder ser entendida como resultado de algo mal resolvido com a Milla Jovovich. Respondo o óbvio: "esse perigo não existe."

I Want to Believe



O mundo não perdeu o encanto, o mundo perdeu (ou pelo menos é o sussurro que tantas vezes ouço, em jeito de lamento cansado) a capacidade de se re-encantar por uma qualquer promessa, um qualquer evangelho do bem que possamos contrapor ao cenário distópico desenhado pelas hegemonias do costume. Mas isto de um mundo de difícil re-encanto é perigosamente semelhante a um mundo sem encanto. É esta semelhança que importa negar. Emerge assim a celebração das possibilidades do quotidiano, descobrimos o tanto que a nossa acção pode significar, plantamos uma árvore, fazemos 999 filhos de tanto amor, cantamos e somos poesia nos bons dias de todos os dias, lutamos, se temos força, damo-nos se o egoísmo o consente. E são estas coisas e estas pessoas que prendem o desejo ao amor, que nos convertem em profetas de possibilidades e nos lembram a cada dia tudo o que perdemos por sermos quem somos. Mas também aqui há um perigo (esse campo minado do querer...), o perigo de fazermos dos limites assentidos, o conforto do nosso intento, de fazermos da impossibilidade de ser outro esses tantos outros em nós, enfim... o perigo da celebração dos limites. É por isso que entendo que não poderemos clamar os méritos de termos ajustado o querer ao poder, o desejável ao factível, sem trazer connosco o hábito de evocar a memória da desolação iniciática. Entendo por desolação iniciática esse momento mágico em que percebemos que a verdade não existe e que temos que lutar por ela no eterno fracasso, o momento em que percebemos que amar é consentir a espera pelo amor que vem, o momento algures em que o vislumbre das impossibilidades, ou nos paralisa, ou nos reconverte em anjos de esquina.
É por referência a esse espaço-tempo pessoal (a que chamo desolação iniciática), em que tudo acabou para começar outra vez, que levaremos connosco ideia que um mundo encantado é ainda o mundo da promessa por cumprir. É aí que vivo.

Sem muito sentido, parto de um apontamento em flor de obsessão.

O "selfconsciousness" da ansiedade que preside à produção de pureza, apenas mitiga o secreto desejo de ser outro. Saber viver a contingência (Butler), não é apenas recohecer a fatalidade das exclusões narrativas (“The slenderness of the narrative of history” (Foucault), é desafiá-las na sua estreiteza, apesar dos apelativos estéticos que nos vitimam/consagram. Preocupam-me as formas de insularização dos mundos da vida. Ainda que lhes reconheça maior beleza do que gostaria de admitir.

Laetitia revisitada

Há uns tempos propus um referendo entre Laetitia Casta e Milla Jovovich. A coisa pegou. Fi-lo pelo desejo de contrapor dois conceitos de beleza feminina. Em primeira análise, a proposta apresenta laivos de um politicamente incorrecto que me parece absolutamente interessante. Em causa está o modo como a troca de opiniões poderá ser tida como expressão de uma determinada afirmação de masculinidade. Embora eu próprio já tenha emitido a minha opinião (em favor da Laetitia) parece-me instigante confrontarmo-nos com determinados discursos. Reza então a crítica (muitas vezes pertinente), que na costumeira apreciação do feminino nas interacções cúmplices entre homens, em bom rigor, a mulher não existe. Ou seja, constituem-se discursos que esvaziam o feminino de subjectividade consagrando a mulher como objecto numa lógica em que o que realmente se reverencia é o próprio desejo
masculino. Em suma, trata-se de um movimento circular em que o que se deseja é o desejo masculino. Posto isto no pressentimento que existirá aqui um debate latente dirijo-me para a questão central : Laetitia ou Milla? Embora sejam indubitavelmente duas expressões da beleza feminina revelam-de de formas diversas. A Laetitia além de ser bonita, destaca-se pela singularidade dos seus seus volumosos (e belos) seios. A beleza de Milla reside fundamentalmente nos lindos olhos. Em face disto os defensores da Milla, ao suportarem a maior autenticidade/espectralidade da beleza desta, uma vez que centrada dos olhos, são, em emu entender, subsidiários de um dualismo cartesiano que retira os olhos do corpóreo afirmando-os como expressões da mente/alma. Por outro laso, remetem a beleza/sedução da Laetitia ao excesso de corpóreo que em última instância nos enviará para a animalidade de uma desejo reíficado nos seios . Sinceramente não creio que as apreciações possam ser colocadas na dicotomia corpo/alma, os olhos (não os olhares) não são menos corpóreos que os seios, não podemos cair no sério risco de desqualificar o corpóreo em relação algo que embora corpóreo se subtrai a esse estatuto.
Vou ser claro: os seios têm tanta alma como os olhos.
Havia formas mais simples de o dizer: prefiro a Laetitia e consigo ver alma nos seios dela!


say what?

estou em avatares_do_desejo@hotmail.com (às vezes durmo um pouco)

Pacheco Pereira em regime de exclusividade

Será que o Pacheco Pereira está a pensar deixar a política activa para se dedicar em exclusividade aos blogs? acho que o sebastianismo messiânico saía a ganhar, e nós também!

Densidades apócrifas

Espero apenas que para Tiago o mais pertinente papel formativo do Michel Vailant em relação ao Michel Foucault não decorra do facto de apenas um deles ser heterossexual assumido. Seria lamentável para os 3!

Mestre

Ao apreciar o meu blog, o muito híbrido Tiago Oliveira, o clamador do conhecido blog voz do deserto referiu a necessidade do muito trabalho de discipulado que a minha reflexão faz supor. Não sei se me agrada o facto de não me ter considerado um ovelha perdida. Em todo o caso dou-lhe razão, e até me apetece entronizar desde já a mestre Michel Foucault, quando este fala do imperativo de buscarmos tudo o que perdemos por sermos quem somos. Portanto Tiago, não desistamos desse outro!

É verdade, hoje fui dar sangue. Como denunciariam os sociobiólogos, o altruísmo do acto acabou por ser comprometido por esta declaração, porque, em última instância, aumento o meu prestígio social, logo: favoreço as probabilidades dos meus genes se consubstanciarem nas gerações seguintes. Mas, o que eu queria falar mesmo era dos pequenos almoços: quando vamos dar sangue é suposto estarmos bem alimentados, por isso eles providenciam uns comes e bebes (têm lá cerveja -sem alcool, a rever). Digo-vos já, as sandes de paio que servem no serviço de sangue dos hospitais da universidade de Coimbra bem merecem 0,5l de sangue. Por isso se estiverem apertados de trocos, desiludidos com o habitual serviço de pequeno almoço, deleitem-se no serviço de sangue mais próximo. Arroto a paio e ainda não tenho fome para almoçar.

sonhos cor de troça

Vou dormir. de algum modo o calor que faz é adequado à solidão que o meu leito promete. menos mal.

“O Etnógrafo”


Aqui resumo/transcrevo um conto de Jorge Luís Borges presente em O elogio da sombra
Fala de um homem que, em missão etnográfica, foi viver entre os homens vermelhos. Por dois anos habitou na pradaria, chegou a sonhar numa língua que não era a dos seus pais. Durante os primeiros meses tomava notas sigilosas que depois rasgaria para não levantar suspeitas ou talvez porque delas já não precisasse. Confiou sonhos ao seu mestre que acabou por lhe revelar uma doutrina secreta. Uma manhã sem se ter despedido de ninguém, partiu.
Quando regressou disse ao Professor que tinha o segredo e que tinha decidido não o revelar. Afirmou: ─ O segredo não vale os caminhos que aí me conduziram, esses caminhos, há que percorrê-los.
Questionado ─ Pensa viver entre os índios?
─ Não talvez não talvez não volte à pradaria. O que me ensinaram os seus homens vale para qualquer lugar e circunstância.


contacto interactivo

avatares_do_desejo@hotmail.com

O Domínio

Anyway, we must wait until I have really written something. So far I have done only one or two poems that give any indication of what I might become. Besides, one must be in possession of the totality of one's mind, something which I have never achieved.

Artaud.

.a espressão "controla-te" assume a unidade do que somos.
a expressão "domina-te" é mais forte, implica o caráter fragmentado do sujeito e a plurivocalidade do seu desejo (vai dizer isso à namorad@)


O 2º exilado da democracia portuguesa

O meu exílio deve-se tão só ao facto de eu não ter TV Cabo.

Eu aguento-me e agradeço desde já mails de solidariedade.
Onde quer que esteja a ilustre Fátima Felgueiras, “O Fugitivo” à portuguesa, sinto para com ela esse atlântico de exílio que nos une. Quando Paul Gilroy consagrou a ideia do “Atlântico Negro”, enviou-nos para um mar não apenas atravessado por gloriosos navegadores, mas por história de opressão e exílio de que os negreiros constituem a melhor expressão.
Parece-me excessivo comparar a história da escravatura com a narrativa de F. Felgueiras. Mas de facto quem visse a cobertura televisiva dada à felgueirense ficaria com dúvidas.

E eu sem tv cabo…

Chego atrasado ao mundo dos blogs atraído pelas modas dos solitários de fim-de-semana. Em bom rigor para mim faz sentido, sobretudo aos dias da semana.

Após um périplo pelos blogs de direita percebo que há algo de sedutor da estratégia discursiva reinante: o cinismo. É só. Talvez a ditância que deles me preserva esteja para além de uma libido estético-política.

Exercem em mim sedução neste momento: Laetitia Casta e José Mourinho. A necessidade de afirmação heterossexual/homofobia deveria obrigar-me a uma clarificação das pulsões sedutoras. Mas não. Vou deixar a coisa assim.


Sem saldo no telemóvel vou a net e adio a minha agonia ritual para o fim do mês.

Após a Guerra do Iraque e a acalmia sobre a pedofilia os telejornais parecem tornar-se lugares sombrios e vazios. Estranho...

Fui ao fórum social Português e gostei. Adoro socializar. Tenho também uma tendência para acreditar em coisas que não se vêem mas se esperam. Talvez seja das boas companhias.