A sedução como desígnio

(às leitoras que me têm escrito dizendo "deixa-te disso", aviso: Este post não é sobre futebol)
Todos procuramos em certa medida, em determinados momentos, afirmarmo-nos como seres sedutores. Não trafico com aquela conversa da treta em que se estabelece uma oposição entre sermos nós mesmos ou sermos outrem para a agradar, a questão é que nos construímos enquanto entidades sociais, logo, a sedução, de diferentes formas, faz parte de nós, como nosso é o imperativo de existir socialmente.
Há tempos numa conversa saiu-me uma analogia que me parece preciosa para captar as diferentes formas de lidarmos com um tipo específico de sedução, aquele que normalmente se apodera da palavra, a sedução com carga sensual. Na altura fiquei incomodado por ter achado uma analogia que mete sensualidade e futebol ao barulho, uma mistura que configura uma lógica patriarcal caquéctica que procura negar o espectro da impotência que lhe subjaz. Mas não deixo de ver virtualidades heurísticas na coisa, por isso avanço. Falo no feminino, mas a coisa aplica-se aos dois géneros/sexos.

No futebol existem duas jogadoras mitológicas.
A número 9, a goleadora, joga na área, tem faro, sabe estar no sítio certo, marca golos que se farta, uma matadora, um autêntica predadora da baliza.
A número 10, técnica apuradíssima, sabe o que faz, a ela pertencem os momentos de puro génio, joga no meio campo, espalha magia e perfume, assistências perfeitas, marca muitos poucos golos, mas os que marca levantam um estádio.
Na sedução esta distinção aplica-se, há as predadoras: sensualidade com um fim, o golo. E as mágicas, espalham magia, encanto, mas é raríssimo marcarem golos. O perfume da sedução é o seu lastro.

A ter que escolher,
Eu certamente faço parte do segundo grupo, menos pela magia que espalho do que pelos poucos golos que marco. Em todo o caso, à luz desta distinção quase que fico orgulhoso da minha reduzida efectividade. Reformulo: fico mesmo.

São estas as a grandes virtualidades desta analogia:
1- os fracassos podem ser reconfigurados como um projecto missionário de disseminação de magia e perfume;
2- Os matadores clássicos, aqueles que figuram no topo da hierarquia machista, saem desqualificados de qualquer mesa de café onde este paralelismo se torne operativo.



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