Que assim durmas

Há dizeres que nos ficam. Fazia eu trabalho de campo. Havia um senhor que frequentemente vinha ter comigo. Falávamos muito, sobretudo ele. Contava-me as suas histórias, os seus anseios, desgraças e frustrações. Gostava muito de mim, por isso volta e meia oferecia-me uma amêndoa amarga. Custava-me a aceitar, sabia da sua vida, das condições muito precárias que enfrentava dia após dia, tendo que sustentar uma mulher e uma filha portadoras de deficiência. Ficava ofendido se eu recusava ou se me propunha a pagar, por isso lá íamos bebendo uns momentos às suas custas. Um dia convidei-o para um copo, alegou que eu era um estudante e que ainda não era chegada a minha hora de pagar. Inventei uma comemoração, aceitou. Ele tinha algo para me contar, estava entusiasmado, deliciado da vida, quem o visse pensaria que tinha ganho a lotaria. Mas não:
Estou feliz, estou bem. Sabe, ontem fiz anos de casado. Mandámos vir uns frangos, havia para lá bebidas, estava a família, a pequena ficou até mais tarde... Comi do melhor, bebi bem, e dei muitos beijnhos à minha mulher. Olhe, só lhe digo... Dormi quentinho.



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