Por favor: uma música de urgência

Nos lugares da noite não é incomum ver-se alguém chorar incontidamente. São cenas que nos podem comover, mas muitas vezes mais não fazem do que despoletar em alguns uma frieza cínica: "bebesses menos!". Sempre que alguém chora numa discoteca, num bar, ou, mais frequentemente, à porta de um e de outro sítio, o álcool é indiciado com o principal culpado. Já as facções minoritárias dos exegetas da noite viram-se para a natureza precária das relações sociais: "o gajo deixou-a, os homens são mesmo cabrões", "a gaja estava no lambe-lambe com outro, são todas umas putas". Poucos atentam no principal factor destes eventos lacrimosos. Falo, claro, do DJ; quase sempre a culpa é do DJ. Explico.

A irresponsabilidade parte mormente deles, inconscientes, labutam afincadamente pondo música de acordo com as suas preferências melódicas, atendendo, ocasionalmente, aos pedidos de umas babes mais convincentes. Raras vezes equacionam que a sua playlist é também uma retro-escavadora perigosa, uma escavadora de memórias. Há já algum tempo uma conhecida minha pôs-se a chorar lembrando o ex., carpindo um desgosto saudoso. Todos perguntavam se queria vomitar, o que tinha bebido, etc. Poucos reparam que na altura tocava uma música de Rui Veloso que no seu choroso timbre cantava o Porto. Nada mais nada menos do que a terra do ex em causa. Enquanto alguns se acotovelavam sacando de lenços de papel, ou comprando águas das pedras ao balcão, dirigi-me ao Dj, instando-o a que trocasse urgentemente de música. Alma sensível, numa passagem brilhante concedeu Shakira. Mas já era tarde demais. A impunidade dos Djs tem que ser avaliada à luz dos novos desenvolvimentos na cultura da noite.



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