Os jantares de Natal: um drama de época.

Há um certo conceito de notoriedade social que se por estes tempos é activado. O envolvimento dos sujeitos no tecido de relações verifica-se pelo número de jantares de natal a que não se consegue ir. É o jantar da associação cultural e recreativa, do clube de ténis, do pessoal do trabalho, do curso, da malta que frequenta o café mar e sol, dos escuteiros, do pessoal que joga à bola, da tertúlia do Foucault, da troca de casais, dos blogues de Figueiró dos vinhos, da associação teatral, do conservatório, da revista gay, etc. Para quem tem muitas frentes de sociabilidade surgem inevitáveis incompatibilidades, recusar jantares é a norma, um sinal de prestígio para alguns. Por isso há quem se mostre indisponível para o único convite que recebe inventando outras solicitações. Ah! E depois há a inevitável troca de prendas que normalmente obedece a um sorteio onde a dúvida é saber se fica com ferreros ou mon cherry! São momentos de puro suspense.
Os jantares de natal são uma instituição social dramática, ali se ritulizam as lealdades múltiplas. A consoada é o apogeu destas tensões, que o digam os genros e as noras entregues a processos de escolha dilacerantes. Sem ironias. Nutrir relações, ainda que com espírito de missão, ainda que isso implique a submissão a práticas ritualizadas, é bela forma de ser socialmente. Admiro-a. Acho apenas que não devemos esquecer as perguntas simples: "e tu, que fazes logo à noite?"



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