O Fenómeno Margarida Rebelo Pinto

A ser verdade que todos os adolescentes têm a clássica fantasia com uma mulher mais velha, creio que em Portugal a figura mais recorrentemente evocada será a de Margarida Rebelo Pinto. Para além das centenas de milhares de livros vendidos, para mim isso é suficiente para falar de um fenómeno.
Margarida Rebelo Pinto foi em tempos ao Livro Aberto, o programa de Francisco José Viegas, e o simples convite que ali a levou valeu algumas críticas por parte dos "escritores a sério". Sabemo-lo, há muito de ciumeira para com as suas assombrosas tiragens. Embora nunca a tenha lido, menos por preconceito de que por falta de tempo, gostei de ver a senhora falar no tal programa. Naquela entrevista mostrava ter a noção daquilo que se diz sobre ela, assumindo um discurso da celebração do Pop, nada pretensioso, colocando-se assumidamente fora da lógica da literatura intelectual. Apreciei particularmente quando ela se insinuou sedutoramente ao entrevistador, que, impreparado para tal desenvoltura, ainda ficou uns segundos a recuperar o norte. O momento menos bom foi mesmo quando ela recentemente se confessou admiradora de Santana Lopes e Paulo Portas. Logo quando eu estava a baixar as defesas... Não sei se já leram, mas se não, aconselho. Falo do soberbo artigo em que Pedro Mexia vem em "defesa" de Margarida Rebelo Pinto. O texto é brilhante, sobretudo pela retórica empregue na paternalista apologia da autora: "não se trata exactamente de literatura, mas de Margarida Rebelo Pinto. Não escreveria sobre Margarida na minha coluna de crítica porque penso que a pobreza da escrita, da linguagem, da construção, bem como a total inexistência de ideias, fazem com que não se trate propriamente de literatura. O fenómeno Margarida tem interesse indesmentível, mas para a sociologia. ...Os brasileiros, nisso, são de uma honestidade tocante, e preferem sempre umas boas nádegas a um bom narratário.... Fico sempre espantado com as reacções negativas que Margarida suscita." Enfim, não sei se este texto vai mesmo valer um processo em tribunal, mas, caso assim seja, acho que alguma televisão deveria comprar os direitos. Fico curioso de saber se FJV seria testemunha de defesa ou de acusação. Que diria ele quando confrontado com a pergunta: "É literatura?"



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