O desconforto dos anti-guerra vem de longe

O Jaquinzinhos encontrou neste blogue a melhor desculpa para desconstruir a euforia da captura do Saddam. Obrigado. De facto preferia que Saddam estivesse no buraco até às eleições americanas ou que se tornasse num sem-abrigo para o resto da vida, a ver aumentados os riscos de viver mais anos num mundo Bushiano. Mas também percebo algo mais nos sorrisos amarelos que se denunciam nas hostes dos que foram contra a guerra. Há, sem dúvida, uma estranha perversidade quando tomamos partido em opções estratégico-políticas. Mais ou menos inconscientemente, desejamos que a realidade confirme as nossas previsões, queremos estar certos. Infelizmente o Iraque tem confirmado tudo (e mais) o que disseram as oposições à guerra unilateral: a ausência de armas de destruição massiva, o estabelecimento de laços entre os ex-militares iraquianos e a al-quaeda, o fim do multi-lateralismo anti-terrorista e um renovado suporte discursivo para o fundamentalismo islâmico. Eu sei que não posso desejar que as minhas previsões se confirmem, elas previam que a guerra nos termos em que foi empreendida seria o pior dos caminhos. Só posso desejar que os planos d'outrem saiam certo, e que a democracia no iraque e a luta contra o terrorismo no mundo vençam. Alojados que estamos todos na lógica de Bush e seus vassalos, muitos como eu vêem-se a desejar algo que não conseguem acreditar. Esta é uma posição desconfortável que tentámos evitar enquanto era tempo. Prefiro o desconforto que assume em mim esta estranha fé no porvir à certeza de que me fundei em mentiras em que nunca ninguém acreditou.



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